O que a BYD quer do governo Lula e como a nova fase da montadora pode mudar o mercado de carros no Brasil

O que a BYD quer do governo Lula e como a nova fase da montadora pode mudar o mercado de carros no Brasil - Foto
Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

Montadora negocia acesso a tecnologias, amplia a produção nacional e mira exportações, em um movimento que pode afetar empregos e preços Resumo gerado por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.

A expansão da BYD no Brasil coloca a indústria automotiva nacional diante de uma nova etapa de transformação. Com a inauguração de novas estruturas industriais em Camaçari, na Bahia, a montadora chinesa pretende ampliar a produção local, aumentar a participação de fornecedores brasileiros e avançar na fabricação de componentes que hoje dependem de importações.

O movimento também envolve negociações entre os governos brasileiro e chinês para facilitar a transferência de tecnologia e fortalecer a presença da empresa no país. O projeto tem potencial para ampliar a oferta de veículos elétricos e híbridos, movimentar a cadeia produtiva e gerar empregos.

Ao mesmo tempo, levanta discussões sobre a concorrência com as montadoras já instaladas no Brasil, a política de tarifas de importação, o preço dos automóveis e o espaço que o país pode ocupar na estratégia internacional da indústria chinesa. O principal pedido da BYD ao governo brasileiro é a articulação diplomática com a China para viabilizar a transferência de tecnologia necessária à fabricação de células de baterias de lítio no Brasil.

A proposta foi apresentada pelo vice-presidente sênior da montadora no país, Alexandre Baldy, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Atualmente, a empresa já monta no Brasil os conjuntos de baterias, conhecidos como packs, mas ainda importa da China as células que compõem esses equipamentos.

Segundo Baldy, cerca de 85% das células utilizadas pela fabricante vêm do país asiático. O pack é o conjunto final que reúne as células e os sistemas necessários para armazenar e fornecer energia ao veículo.

Produzir as células no Brasil significaria avançar para uma etapa mais complexa da cadeia industrial, que exige conhecimento técnico, equipamentos especializados e domínio de processos de fabricação. Para a BYD, a transferência de tecnologia poderia reduzir a dependência de componentes importados e aproveitar o potencial de minerais estratégicos disponíveis na América do Sul, especialmente o lítio.

O executivo afirmou que a negociação não depende só de uma decisão comercial da montadora, mas também de uma aproximação entre os governos. A expectativa é que o Brasil e a China construam condições para compartilhar conhecimentos e desenvolver uma cadeia produtiva regional de baterias.

A negociação ocorre em paralelo à ampliação do complexo industrial da BYD em Camaçari, na Bahia. Inaugurada em outubro de 2025, a fábrica ocupa uma área de aproximadamente 4,65 milhões de metros quadrados e recebeu investimento inicial anunciado de R$ 5,5 bilhões.

O empreendimento foi instalado no antigo complexo industrial da Ford e é considerado o maior projeto da montadora fora da Ásia. A expansão prevê a incorporação de três etapas fundamentais da fabricação de automóveis: estamparia, soldagem e pintura.

Com isso, a unidade deixa de depender exclusivamente da montagem de veículos a partir de kits importados e passa a concentrar uma parcela maior do processo produtivo em território brasileiro. Em outubro deste ano, a montadora informou que as obras civis dessas áreas estavam concluídas e que os setores de soldagem e pintura haviam iniciado os testes.

A expectativa é que os primeiros veículos com produção integral dessas etapas no Brasil comecem a sair das linhas no início de 2027. A mudança também representa uma nova fase para a unidade, que já produz modelos como Dolphin Mini, King e Song Pro.

Outro compromisso da montadora é aumentar a participação de componentes fabricados no Brasil. A meta é começar 2027 com mais de 50% dos componentes dos veículos produzidos em Camaçari nacionalizados.

O percentual é estratégico porque atende às exigências regulatórias para caracterizar a produção como local e também pode facilitar a exportação dos automóveis para outros países. A nacionalização não significa que todas as peças passarão a ser brasileiras.

A cadeia continuará dependendo de componentes importados, principalmente em segmentos de maior complexidade tecnológica, como as baterias. O objetivo é ampliar gradualmente a participação de fornecedores nacionais, incluindo peças estruturais e outros itens utilizados na montagem dos veículos.

Um exemplo desse processo é a produção do Cross Car Beam, estrutura metálica instalada atrás do painel e responsável por sustentar componentes como coluna de direção, pedal de freio e sistemas de segurança. Antes importada pronta, a peça passou a ter uma linha de produção implementada no complexo baiano, com equipamentos industriais e robôs de soldagem.

A estratégia também envolve a atração de fornecedores para perto da fábrica. A formação de uma cadeia local pode reduzir custos logísticos, diminuir a exposição às oscilações cambiais e estimular investimentos de empresas brasileiras e estrangeiras no país.

A nacionalização também tem relação direta com a política de tarifas adotada pelo governo federal. Nos últimos anos, o Brasil estabeleceu um cronograma de retomada gradual do imposto de importação para veículos elétricos e híbridos, com o objetivo de estimular a produção nacional e equilibrar a concorrência entre veículos fabricados no país e modelos trazidos do exterior.

Em outubro, o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior antecipou para janeiro de 2027 a aplicação da alíquota de 35% para veículos eletrificados desmontados (CKD). Antes, a cobrança integral estava prevista para julho de 2028.

A medida também prevê cotas adicionais de importação com imposto zero para veículos desmontados e semidesmontados (SKD), no total de US$ 463 milhões, durante seis meses. Na prática, a mudança aumenta o custo de importar veículos em kits para montagem no Brasil.

Isso pressiona fabricantes que ainda dependem desse modelo e favorece empresas que avançam na produção local. Para a BYD, cumprir a meta de nacionalização de componentes significa reduzir a exposição às tarifas e fortalecer sua posição diante de concorrentes que já possuem estruturas industriais consolidadas no país.

A política tarifária, entretanto, também provoca divergências no setor automotivo. Fabricantes tradicionais defendem a retomada das alíquotas como forma de proteger investimentos e empregos na indústria nacional.

Já empresas que estão em fase de implantação de fábricas argumentam que o aumento acelerado dos impostos pode encarecer a transição industrial e limitar a oferta de veículos eletrificados. A ampliação da fábrica baiana representa uma oportunidade de fortalecer a indústria automotiva brasileira em um segmento que passa por mudanças tecnológicas.

A produção local pode estimular a instalação de fornecedores, movimentar setores como siderurgia, logística, tecnologia e componentes eletrônicos e ampliar a qualificação de trabalhadores. Em outubro, o complexo de Camaçari já reunia aproximadamente 9 mil funcionários diretos, segundo informações divulgadas pela montadora.

A empresa também havia contratado mais de 1,1 mil profissionais em treinamento para atuar nas novas estruturas industriais. A expectativa é ampliar o quadro de trabalhadores conforme as etapas de estamparia, soldagem e pintura entrarem em operação.

Além da geração de empregos dentro da fábrica, a expansão pode beneficiar empresas fornecedoras. A BYD informou que já homologou mais de 400 fornecedores e negocia com outros 250.

O planejamento prevê a instalação de 17 unidades industriais parceiras dentro do próprio complexo de Camaçari, aproximando fornecedores e linhas de montagem. A escala da operação também deve crescer.

Em outubro, Alexandre Baldy afirmou, em entrevista à Reuters, que a empresa iniciou os pedidos de licenciamento para ampliar a capacidade anual da fábrica para 600 mil veículos. Para quem pretende comprar um carro elétrico ou híbrido, a expansão da produção nacional pode trazer efeitos positivos.

Com mais componentes fabricados no Brasil, a BYD pode diminuir custos de transporte internacional, despesas logísticas e a exposição às oscilações do dólar. A produção em maior escala também tende a gerar ganhos de eficiência, que podem abrir espaço para preços mais competitivos e ampliar a oferta de modelos no mercado brasileiro.

Por outro lado, o preço final depende de outros fatores, como custo das matérias-primas, tecnologia das baterias, tributação, câmbio, concorrência e margem comercial das fabricantes. Mesmo com a nacionalização de parte dos componentes, a dependência de células de bateria importadas mantém a empresa exposta aos custos internacionais.

A retomada das tarifas também pode produzir efeitos diferentes conforme a origem e o estágio de fabricação dos veículos. Modelos importados podem ficar mais caros, enquanto aqueles produzidos localmente tendem a ganhar competitividade relativa.

O resultado para o consumidor dependerá de quanto desses custos será absorvido pelas montadoras e quanto será repassado ao preço de venda. Em Santa Catarina, a expansão da BYD pode ampliar a oferta de veículos eletrificados e fortalecer a presença da marca em um mercado que já registra crescimento nesse segmento.

Embora a fábrica esteja localizada na Bahia, o aumento da capacidade produtiva nacional pode beneficiar consumidores de todas as regiões, inclusive pela possibilidade de reduzir a dependência de veículos importados. Os números indicam que os modelos da fabricante chinesa já têm participação expressiva no estado.

Entre janeiro e setembro de 2026, o BYD Dolphin Mini liderou os emplacamentos de veículos eletrificados em Santa Catarina, com 2.949 unidades. Na sequência, aparecem os modelos BYD Song Pro e Song Plus, considerados em conjunto, com 2.879 emplacamentos, e o BYD Dolphin, com 1.498, segundo a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico).

No mesmo período, Santa Catarina registrou 22.685 emplacamentos de veículos eletrificados, considerando automóveis e comerciais leves. O volume inclui carros 100% elétricos, híbridos plug-in, híbridos convencionais e híbridos leves.

Para o consumidor catarinense, a produção nacional pode representar maior disponibilidade de veículos, prazos de entrega mais competitivos e, dependendo dos ganhos de escala, preços mais acessíveis. A ampliação da rede de fornecedores e da produção também pode favorecer o mercado de manutenção e serviços especializados.

A instalação de uma estrutura industrial de grande porte no Brasil faz parte de uma estratégia mais ampla da China para ampliar sua presença no mercado internacional de veículos eletrificados. Em vez de depender exclusivamente da exportação de carros produzidos em território chinês, a BYD passa a construir uma base industrial em um mercado considerado estratégico para a América Latina.

O Brasil oferece vantagens importantes para essa estratégia: um mercado consumidor de grande dimensão, uma indústria automotiva estabelecida, disponibilidade de matérias-primas e localização favorável para atender países vizinhos. A presença industrial também permite à companhia reduzir parte dos custos de importação e adaptar os veículos às características e às demandas do mercado regional.

Outro ponto é o acesso à cadeia de minerais estratégicos. A América do Sul concentra reservas importantes de lítio, matéria-prima utilizada na fabricação de baterias.

O desenvolvimento de uma cadeia produtiva regional poderia aproximar a BYD das fontes de insumos e ampliar sua participação em diferentes etapas da indústria de eletrificação. A transferência de tecnologia, nesse cenário, envolve interesses dos dois lados.

O Brasil busca atrair conhecimento, investimentos, empregos qualificados e capacidade produtiva. A China, por sua vez, pode ampliar sua presença industrial, conquistar mercado consumidor e fortalecer a posição de suas empresas em uma região onde a eletrificação da frota ainda tem espaço para crescer.

A ambição da BYD vai além do mercado brasileiro. A montadora pretende estabelecer em Camaçari em uma base de produção para abastecer outros países da América Latina, aproveitando a localização do complexo industrial e a possibilidade de atender às regras comerciais do Mercosul.

A nacionalização dos componentes é essencial nesse planejamento. Para exportar veículos com benefícios tarifários dentro do Mercosul, é necessário cumprir as regras de origem estabelecidas pelo bloco.

A BYD trabalha para superar 50% de conteúdo nacional no início de 2027, percentual superior ao patamar de 35% mencionado pela empresa como referência para viabilizar exportações regionais. A companhia já recebeu pedidos de 50 mil veículos da Argentina e outros 50 mil do México, segundo Alexandre Baldy.

A expectativa é começar a atender esses mercados a partir de 2027, conforme a capacidade produtiva e as condições comerciais permitirem. A empresa também avalia oportunidades em outros países da região e até mesmo na Europa.

Se o planejamento avançar, o Brasil poderá deixar de ser apenas um destino de importação de veículos chineses e passar a desempenhar um papel mais relevante na cadeia global de produção da montadora. Camila Souza é repórter do ND Mais em São Paulo, de onde apura e escreve sobre os principais assuntos da maior cidade do Brasil.

Integrante do Núcleo Nacional, cobre política, economia, segurança pública e o que mais impacta a população do estado. Acompanha especialmente movimentações políticas e o que acontece na Grande São Paulo, incluindo a capital paulista, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e a região.

Formada pela UniRitter, em Porto Alegre, trabalha com comunicação desde 2020 e tem experiência em redação multimídia e edição de conteúdo, com passagens por portais de notícias e jornal impresso. Foi repórter nas Eleições 2022 e integrou o Projeto Comprova, iniciativa nacional de checagem de fatos.

Leia mais ▾

Publicação Original ND Mais ndmais.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →