O déficit da balança de automóveis do Brasil chegou a US$ 5,53 bilhões de janeiro a setembro, 835% acima dos US$ 591 milhões registrados em igual período de 2025. É o pior resultado para os nove primeiros meses de toda a série histórica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A importação de veículos somou US$ 9,42 bilhões no período, alta de 76,7% sobre 2025 e recorde para os nove meses. A exportação recuou 18% e perdeu o impulso que a economia argentina havia dado no ano passado.
O movimento não é isolado. A balança comercial total do país tem superávit de US$ 62,4 bilhões nos mesmos nove meses, sustentado por petróleo e soja.
O saldo automotivo caminha no sentido oposto e virou o principal buraco setorial da pauta. A China respondeu por 66,5% de todos os automóveis que o Brasil importou entre janeiro e setembro.
Os desembarques chineses somaram US$ 6,26 bilhões, mais que o dobro dos US$ 2,36 bilhões de 2025 e acima dos US$ 2,86 bilhões do ano de 2024 inteiro. A escalada tem data.
Em 2022, as compras de carros chineses ficaram em US$ 134,7 milhões nos nove meses. Em 2023, chegaram a US$ 540,5 milhões.
A Argentina, fornecedora histórica do mercado brasileiro, caiu para 11,3% das importações. Até 2023, os argentinos eram o principal fornecedor externo de veículos ao Brasil.
“Houve uma mudança rápida nos últimos dois anos”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, a AEB. Ele atribui o deslocamento ao reforço de barreiras em mercados ricos, que fechou portas à frente e abriu outras.
A leitura de Castro é que a reação protecionista em economias avançadas não conteve a produção chinesa, apenas mudou a rota dela. Pequim ampliou espaço em mercados onde a tarifa contra eletrificados ainda é baixa, entre eles o Brasil.
O efeito recai sobre a cadeia industrial brasileira, que perde mercado em casa e nos vizinhos. A Argentina, principal destino das exportações brasileiras de veículos, comprou US$ 2,14 bilhões em carros do Brasil de janeiro a setembro, queda de 30%.
O desembarque de carros chineses no país vizinho chegou a US$ 916,8 milhões, mais que o triplo dos US$ 292,6 milhões de 2025, segundo dados do governo argentino. A relação entre os dois fornecedores mudou.
No ano passado, para cada US$ 10 em carros brasileiros, US$ 1 vinha da China. Este ano, a proporção é de US$ 2.
Os argentinos seguem como maiores compradores externos de veículos do Brasil, com 54,6% do total. A queda de 30% nas vendas ao país vizinho explica boa parte do recuo de 18% nas exportações brasileiras do setor.
Os números preliminares de outubro confirmam o ritmo. Até a quarta semana do mês, as importações somaram US$ 1,04 bilhão, alta de 138% na média diária sobre igual período de 2025.
O acumulado do ano chegou a US$ 10,46 bilhões. As exportações de outubro ficaram em US$ 297,87 milhões até a quarta semana, queda de 11,1% na média diária.
Castro projeta que o quadro dure até o fim de 2026. O presidente da AEB aponta três fatores capazes de alterar o cenário.
A mudança na política comercial americana depois da derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato, o desenrolar do conflito no Oriente Médio e novas medidas protecionistas pelo mundo. Nenhum dos três está nas mãos do governo brasileiro.
O que está ao alcance de Brasília é o ritmo de abertura do mercado interno e o tamanho do apoio à cadeia nacional de eletrificados. O setor automotivo responde por uma fatia relevante do emprego industrial qualificado e arrasta uma rede de autopeças espalhada por vários estados.
Cada US$ 1 bilhão de produção deslocada para fora do país sai da conta de fornecedores locais. A balança comercial total fecha o ano no azul.
O buraco dos automóveis, não.
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