O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez críticas a ministros do Supremo Tribunal Federal: chamou Luiz Fux de “canalha” e Edson Fachin de “filho da puta”, segundo relatos do policial federal Jorge Chastalo Filho. As declarações estão no livro “Banho de Sol – os 580 dias de Lula na prisão”, lançado na 3ª feira (3.nov).
A obra reproduz conversas atribuídas a Lula durante o período em que ficou preso na Superintendência da PF em Curitiba (PR), de 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019. Chastalo acompanhou a custódia do ex-presidente e registrou em um diário situações que presenciou no período.
Os relatos do policial mostram que Lula demonstrava insatisfação com ministros que chegaram ao STF por indicações suas ou de Dilma Rousseff (PT), que o sucedeu na Presidência. O livro foi publicado pela editora WMF Martins Fontes, com edição de Lino Bocchini.
O Poder360 selecionou trechos sobre os bastidores políticos e pessoais da prisão. Cármen Lúcia
Uma das principais críticas foi dirigida a Cármen Lúcia, indicada por Lula em 2006. Segundo o policial, o petista a considerava uma “falsa humilde” e que “caiu” na conversa da ministra sobre gratidão.
“A Cármen é uma falsa humilde, Chastalo. Conhece esse tipo de gente? Em uma conversa comigo, para que eu a indicasse ao STF, começou dizendo que seu primeiro brinquedo foi uma boneca de sabugo.
E que seu pai tinha as mãos calejadas de trabalhar. E que aprendeu com seu pai que uma coisa muito importante na vida é a gratidão”, disse Lula, segundo Chastalo.
O policial relata que o presidente voltou ao assunto em outras conversas. De acordo com o livro, Lula afirmou que a ministra havia prometido que, caso fosse nomeada, “jamais esqueceria o gesto”.
A avaliação do petista sobre a atuação dela foi resumida na frase: “Agora está aí, insegura, fazendo merda”. Em outro episódio, Chastalo afirma que Lula contou ter dormido 1 dia com “muito ódio” da ministra e a chamou de “miserável”.
“Ela falava em gratidão e agora deu nisso”, afirmou, segundo o livro. Fux
Segundo o livro, as críticas também alcançaram 2 ministros indicados por Dilma Rousseff: Edson Fachin, atual presidente do Supremo, e Luiz Fux. Sobre o 2º, segundo Chastalo, Lula disse que “nunca confiou” nele e o chamou de “canalha”.
“O Fux passou mais de 1 ano frequentando toda cerimônia quando eu era presidente, com cara de cachorro pidão. Mas nunca confiei nele.
Aí veio a Dilma e acabou nomeando esse canalha, por indicação do [Antonio] Palocci (ex-ministro da Fazenda) e do Sérgio Cabral (ex-governador do Rio de Janeiro)”, afirmou o petista, conforme consta no livro. Fachin
A desconfiança em relação a Fachin, segundo Chastalo, também vinha de antes da nomeação. O policial afirma que Lula dizia não confiar no ministro e disse que ele abandonou os movimentos sociais, dos quais já havia demonstrado proximidade.
De acordo com o livro, Lula disse que Fachin estava “cagando para eles” e o chamou de “filho da puta”. “Esse Fachin é um filho da puta mesmo, Chastalo.
Eu não indiquei ele para o STF no meu mandato porque não confiava nele. Aí a Dilma me liga um dia pedindo autorização para indicar.
Eu apenas disse: ‘Agora é você quem decide, afinal, é você quem está na Presidência’”, declarou, segundo o carcereiro. Em outra avaliação sobre Fachin, Chastalo disse que Lula chamou o ministro de “comedor de hóstia” e comparou sua conduta à do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“Eu achava ele um comedor de hóstia, um desses religiosos que comem hóstia hoje, mas fazem merda amanhã… Igual ao Bolsonaro, que diz ser evangélico, mas que tem um apartamento ‘pra comer gente’”, afirmou, segundo o policial. A referência é ao episódio em que Bolsonaro disse à Folha de S.Paulo que usava o auxílio-moradia da Câmara dos Deputados para “comer gente”.
Barroso Outro alvo das críticas foi Luís Roberto Barroso.
Conforme o relato de Chastalo, Lula o chamou de “advogado da Rede Globo”. Antes de chegar ao Supremo, o ministro atuou na defesa da emissora em diversos casos.
Apesar da crítica, o petista concordou com o policial quando ele avaliou que Barroso e Alexandre de Moraes eram os “mais inteligentes” da Corte. “Não aguentam capa da Veja”
Outros 2 ministros citados de forma elogiosa por Lula foram Gilmar Mendes e Celso de Mello. Os demais, segundo o relato, foram classificados pelo petista como “boi do cu branco”.
Chastalo cita a explicação que Lula deu sobre a expressão: “É utilizada quando um touro é covarde e nem se dispõe a lutar pelo posto de reprodutor da manada. Muitos membros do STF são assim, não aguentam uma capa da Veja, então não decidem nada que possa ter repercussão negativa”.
BIOGRAFIAS AUTORIZADAS Citada por Lula, foi a ministra Cármen Lúcia a relatora do processo no STF que permitiu a publicação de biografias sem a autorização prévia em 2015.
O plenário da Suprema Corte votou em unanimidade pelo fim da exigência. Segundo a relatora, a Constituição proíbe “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.
Além disso, no seu voto afirmou: “A norma infraconstitucional não pode amesquinhar preceitos constitucionais, impondo restrições ao exercício de liberdades”. O Poder360 procurou o Planalto e o STF para perguntar se gostariam de se manifestar a respeito das declarações no livro “Banho de Sol – os 580 dias de Lula na prisão”.
Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
Poder 360