“Banho de Sol”: leia trechos de livro sobre Lula preso em Curitiba

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Fonte da notícia: Poder 360 Poder 360

O policial federal Jorge Chastalo Filho lançou na 3ª feira (3.nov.2026) o livro “Banho de Sol – os 580 dias de Lula na prisão”, com relatos sobre a rotina do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o período em que ficou preso na Superintendência da PF em Curitiba (PR).

O petista ficou detido de 7 de abril de 2018 a 8 de novembro de 2019. A obra reproduz conversas atribuídas a Lula sobre ministros do Supremo Tribunal Federal, o governador eleito do Paraná, Sérgio Moro, e o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes.

Também descreve episódios da rotina na prisão, visitas de políticos e familiares e avaliações de Lula sobre os acontecimentos do país. Chastalo acompanhou a custódia do ex-presidente e registrou em um diário situações que presenciou durante os 580 dias.

Os relatos incluem conversas durante os banhos de sol, momentos de descontração e manifestações de irritação com decisões judiciais e adversários políticos. O livro foi publicado pela editora WMF Martins Fontes, com edição de Lino Bocchini.

O Poder360 teve acesso ao livro e selecionou passagens sobre os bastidores políticos e pessoais da prisão.  RENÚNCIA DE TODOS OS MINISTROS DO STF

Em outubro de 2018, Chastalo relata que Lula demonstrou irritação com decisões do STF relacionadas à autorização para conceder entrevistas durante a campanha presidencial. Segundo o policial, o petista afirmou, durante uma conversa com seus advogados, que todos os integrantes da Corte deveriam renunciar para permitir que o presidente eleito indicasse os novos ministros.

O autor atribui a Lula a seguinte declaração: “O STF deveria prestar um serviço à população brasileira renunciando.

Todos os ministros, para que o novo presidente, seja ele quem for, possa nomear um novo STF”. Chastalo afirma que o advogado Cristiano Zanin, que acompanhava a conversa, também criticou a condução do tribunal, então presidido por Dias Toffoli.

O episódio consta da página 176. CRÍTICAS AOS MINISTROS

Segundo Chastalo, o petista não poupou críticas aos ministros do Supremo.  Sobre Cármen Lúcia, indicada ao STF por Lula em 2006, o polícial escreveu que o presidente disse que ela é uma “falsa humilde” e que “caiu” na conversa dela sobre gratidão.

“A Cármen é uma falsa humilde, Chastalo. Conhece esse tipo de gente? Em uma conversa comigo, para que eu a indicasse ao STF, começou dizendo que seu primeiro brinquedo foi uma boneca de sabugo.

E que seu pai tinha as mãos calejadas de trabalhar. E que aprendeu com seu pai que uma coisa muito importante na vida é a gratidão”, disse Lula, segundo Chastalo.

Em outro momento, o autor afirma que o presidente chegou a dizer que ela “tentava se passar por muito humilde”. De acordo com o livro, o petista disse que a ministra prometeu que, se fosse nomeada, “jamais esqueceria o gesto”.

Declarou, segundo o relato do policial: “Agora está aí, insegura, fazendo merda”. O carcereiro de Lula também afirma que o presidente disse que 1 dia dormiu com “muito ódio” da ministra e a chamou de “miserável”.

“Ela falava em gratidão e agora deu nisso”, afirmou, segundo o livro. Os relatos estão nas páginas 102, 168, 429 e 430.

Dos 5 ministros indicados pela ex-presidente Dilma Rousseff ao STF, Chastalo disse que Lula criticou a escolha de 2: Edson Fachin, atual presidente do Supremo, e Luiz Fux.  Sobre Fux, o policial escreveu que Lula disse que “nunca confiou” nele e o chamou de “canalha”. 

“O Fux passou mais de 1 ano frequentando toda cerimônia quando eu era presidente, com cara de cachorro pidão. Mas nunca confiei nele.

Aí veio a Dilma e acabou nomeando esse canalha, por indicação do [ex-ministro da Fazenda Antonio] Palocci e do [ex-governador do Rio de Janeiro] Sérgio Cabral”, afirmou o petista, como consta no livro.  Para Chastalo, Lula também disse que nunca confiou em Fachin.

O policial diz que o petista declarou que o ministro, que já foi mais ligado a movimentos sociais, agora estava “cagando para eles” e o chamou de “filho da puta”.  “Esse Fachin é um filho da puta mesmo, Chastalo.

Eu não indiquei ele para o STF no meu mandato porque não confiava nele. Aí a Dilma me liga um dia pedindo autorização para indicar.

Eu apenas disse: ‘agora é você quem decide, afinal, é você quem está na Presidência’”, declarou, segundo o carcereiro.  Ainda de acordo com Chastalo, o presidente também chamou Fachin de “comedor de hóstia” e comparou a conduta do ministro à do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

“Eu achava ele um comedor de hóstia, um desses religiosos que comem hóstia hoje, mas fazem merda amanhã… Igual ao Bolsonaro, que diz ser evangélico, mas que tem um apartamento ‘pra comer gente’”, afirmou, segundo o policial. Lula se refere ao episódio em que Bolsonaro disse à Folha de S.Paulo que usava o auxílio-moradia da Câmara dos Deputados para “comer gente”. 

O petista também criticou Luís Roberto Barroso, segundo Chastalo. Disse que ele era “advogado da Rede Globo”.

O ministro atuou na defesa da emissora em diversos casos antes de ser indicado para o STF. Apesar disso, concordou com o policial quando ele comentou que Barroso e Alexandre de Moraes eram os “mais inteligentes” da Corte.

Os relatos estão nas páginas 168, 102. 94, 439 e 440. 

Segundo Chastalo, outros 2 ministros mencionados por Lula de forma elogiosa foram Gilmar Mendes e Celso de Mello, os demais seriam “boi do cu branco”. Eis a explicação da expressão de Lula, descrita pelo policial: “é utilizada quando um touro é covarde e nem se dispõe a lutar pelo posto de reprodutor da manada.

Muitos membros do STF são assim, não aguentam uma capa da Veja, então não decidem nada que possa ter repercussão negativa”.  A passagem está na página 175. 

FACADA EM BOLSONARO Em 19 de novembro de 2018, Chastalo registra uma conversa de Lula com o advogado Emídio de Souza sobre os processos da Lava Jato e a eleição de Bolsonaro.

Segundo o autor, Lula afirmou que considerava sua prisão resultado de uma perseguição judicial e demonstrou desconfiança em relação ao atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral daquele ano. O policial atribui ao petista a seguinte declaração: “Não acredito mais nem mesmo na facada do Bolsonaro”.

Na sequência, segundo Chastalo, Lula avaliou que a cobertura da imprensa sobre o atentado contribuiu para a projeção eleitoral do ex-presidente. A passagem consta da página 239.

CIRO GOMES Em 26 de setembro de 2018, Chastalo relata ter perguntado a Lula sua opinião sobre Ciro Gomes, então candidato à Presidência pelo PDT.

Segundo o policial, o petista afirmou que Ciro poderia ter sido escolhido pelo PT para disputar a Presidência no lugar de Dilma Rousseff, mas demonstrou reservas sobre o comportamento político do ex-governador. O autor atribui a Lula a seguinte avaliação: “Eu gosto do Ciro, Chastalo.

Ele poderia até ter sido o candidato do PT no lugar da Dilma, mas ele é muito instável”. Na mesma conversa, segundo o livro, Lula afirmou que Ciro não costumava cumprir acordos políticos e tinha dificuldades para se relacionar com outras lideranças.

O episódio consta das páginas 163 e 164. RECADO A CIRO POR DINO

Em 6 de junho de 2019, Lula recebeu a visita do então governador do Maranhão, Flávio Dino, e da então vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, ambos do PC do B. Chastalo relata que, ao final do encontro, o petista pediu aos visitantes que transmitissem um recado a Ciro Gomes.

Segundo o policial, Lula afirmou que estava disposto a conversar com o ex-governador quando deixasse a prisão, apesar das críticas que vinha recebendo. “O Lula está vivo, mesmo sendo tripudiado por ele.

Quando eu sair da cadeia, teremos uma conversa”, declarou, segundo o carcereiro. Chastalo afirma que Lula também criticou o movimento de Ciro de se aproximar do PSDB e se distanciar da esquerda.

O episódio consta das páginas 413 e 414. MORO 

Chastalo relata que, em setembro de 2018, Lula demonstrou irritação com o então juiz federal Sérgio Moro, responsável pelos processos da Lava Jato em Curitiba. Segundo o policial, o petista criticou a alteração da data de uma audiência judicial que seria realizada entre os 2 turnos da eleição presidencial.

Lula teria afirmado que Moro justificou a mudança pelo risco de interferência no processo eleitoral, mas não adotou a mesma medida em relação a uma audiência do ex-ministro Antonio Palocci. Chastalo atribui a Lula a seguinte declaração: “Quer prova maior de que isso tudo se trata de um processo político?”

O episódio consta da página 162. SOBRE A OBRA

Além dos episódios políticos, o livro apresenta detalhes da rotina de Lula na prisão, incluindo alimentação, exercícios físicos, leitura, visitas de familiares e conversas com policiais federais. Na introdução, Chastalo afirma que os registros representam sua percepção dos acontecimentos e reconhece que algumas conversas foram anotadas horas ou dias depois de terem ocorrido.

Por isso, traz a possibilidade de imprecisões na reprodução das falas. Lula deixou a prisão em 8 de novembro de 2019, depois que o STF decidiu que a execução da pena deveria ocorrer, como regra, só depois do trânsito em julgado da condenação.

Em 2021, o Supremo anulou as condenações do petista nos processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba.

Publicação Original Poder 360 poder360.com.br
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