Escavações na Romênia revelam fundações de uma entrada militar romana reutilizada na Idade Média e confirmam relatos históricos de quatro séculos atrás Uma torre romana de quase dois mil anos foi identificada a aproximadamente quatro metros de profundidade em Alba Iulia, na Romênia.
A descoberta revelou parte da entrada principal do antigo acampamento militar de Apulum, posteriormente incorporada a uma fortificação medieval cuja origem romana já aparecia em relatos de viajantes do século XVII. A descoberta ocorreu no bastião Capistrano, dentro da Fortaleza Alba Carolina, durante escavações coordenadas pela arqueóloga Anca Timofan.
Os pesquisadores identificaram uma plataforma maciça pertencente à fundação de uma das torres da Porta Praetoria, principal entrada do acampamento da Legião XIII Gemina. Construída durante a ocupação romana da Dácia, a estrutura permaneceu parcialmente preservada sob edificações posteriores.
Na Idade Média, suas fundações foram aproveitadas na construção da Porta de São Jorge, demonstrando como diferentes sociedades utilizaram o mesmo ponto estratégico ao longo dos séculos. A fundação descoberta revelou informações sobre as dimensões da entrada romana.
A construção utilizava grandes blocos de calcário cuidadosamente trabalhados, organizados pela técnica opus quadratum, comum em obras monumentais romanas e caracterizada pelo emprego de pedras aparelhadas em fiadas regulares. Com os novos vestígios e informações sobre outra entrada anteriormente identificada, os especialistas puderam reconstruir parcialmente a configuração da Porta Praetoria.
A estrutura provavelmente apresentava duas torres retangulares, duas passagens em arco e um elemento central separando os acessos. A escavação reuniu evidências de diferentes momentos históricos:
Em uma reportagem gravada no próprio sítio arqueológico, Anca Timofan explica as descobertas e apresenta as diferentes fortificações encontradas em Alba Iulia. Fortificações antigas frequentemente ofereciam materiais resistentes e fundações aproveitáveis para novas construções.
Em Apulum, a entrada oriental ocupava uma posição estratégica, conectando o exterior do acampamento à Via Praetoria, caminho que conduzia ao edifício do comando militar, conhecido como principia. Séculos depois, a Porta de São Jorge foi construída aproveitando parte dessas estruturas.
A descoberta confirma uma continuidade arquitetônica naquele local, mas não significa que todas as muralhas medievais tenham acompanhado exatamente o traçado romano original. O comunicado oficial do Museu Nacional da União de Alba Iulia apresentou os primeiros resultados das escavações em outubro de 2025.
Os trabalhos continuaram em 2026, aprofundando a investigação das fundações romanas e sua relação com construções posteriores. O cronista Wolfgang Bethlen descreveu uma entrada oriental protegida por uma barbacã, associada a uma representação da loba amamentando Rômulo e Remo.
Considerada uma possível relíquia romana, essa decoração já sugeria a presença de estruturas anteriores à fortaleza medieval. O local preserva vestígios de construções pertencentes a diferentes períodos, incluindo o domínio romano, a ocupação medieval, o Principado da Transilvânia e a administração habsburga.
Essas camadas ajudam a compreender como Alba Iulia modificou suas defesas sem abandonar completamente sua organização territorial anterior. Outro resultado importante envolve a posição das muralhas.
Pesquisadores identificaram que o limite oriental do acampamento romano ficava aproximadamente vinte metros além da muralha medieval, indicando que a sobreposição das entradas não corresponde a uma coincidência integral entre os sistemas defensivos. A identificação das fundações permite compreender melhor a planta do acampamento da Legião XIII Gemina, mas ainda existem dúvidas sobre a altura original das torres, os detalhes das passagens e as modificações realizadas durante a reutilização medieval.
Os pesquisadores pretendem aprofundar a documentação arquitetônica e desenvolver reconstruções que facilitem a interpretação pública do monumento. A conservação também representa um desafio, pois diferentes estruturas históricas ocupam o mesmo espaço, exigindo intervenções cuidadosas para preservar vestígios de quase dois milênios.
O Antogonista