Enquanto trabalha em medidas para fortalecer o cenário de cumprimento da meta de superávit primário para o próximo ano, o governo do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva tenta evitar que esse processo não termine em um estelionato eleitoral, que enfraqueça politicamente a administração petista.
A preocupação, que tem base também na experiência vivida no segundo governo Dilma Rousseff (impedida em 2016), é reforçada por movimentos vistos em redes sociais que já começaram, a partir de notícias de bastidores sobre medidas de ajustes, a acusar Lula de já estar descumprindo promessas.
Lula desde a campanha sabe que há um problema a ser enfrentado no campo fiscal. Evitou, porém, não só fazer compromissos mais fortes para o mercado financeiro, limitando-se a confirmar o apoio ao ajuste previsto no projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), como ainda adotou uma série de medidas com (não assumida) intenção eleitoral que tornam ainda mais desafiador o cenário de controle das contas públicas.
O pleito desse ano entregou ao país um Congresso não só de direita, mas com um aumento relevante na bancada mais radicalmente anti-PT e anti-Lula, tanto na Câmara como no Senado. O tradicional Centrão, que, movido pelo poderio das emendas parlamentares, continua uma força relevante, é um bloco bastante volátil.
Tende a abraçar o governo, seja ele quem for, mas com uma fidelidade bastante volátil. Se em ambientes mais pacíficos estelionatos eleitorais já são perigosos, em uma arena conflagrada, os riscos se multiplicam.
Se, de um lado, Lula sabe que precisa agir para conter os movimentos do mercado que podem atrapalhar sua administração, gerando inflação e queda no crescimento; de outro, sabe que não pode se dar ao luxo de ficar com uma pecha de que traiu seus compromissos de campanha perante a população.
A virada histórica do último domingo, que, em grande medida, veio de uma impressionante mobilização de rua reforça essa cautela. Lula deixou claro em seu discurso de vitória que quer fazer um governo ouvindo mais as ruas.
Isso inclui manter uma capacidade de mobilização que só existe se não houver um elemento de decepção muito significativo. Dessa forma, medidas mais duras, como uma moderação na política atual de valorização do salário mínimo, têm maior dificuldade de avançar, uma vez que sua manutenção foi promessa explícita de Lula.
Não quer dizer que não vá acontecer (e seria economicamente defensável um ritmo menor, que garantisse alta real, mas reduzisse a pressão nas contas previdenciárias) em nenhum momento, mas o ambiente político atual, dentro e fora do governo, não é propício. Não foi à toa que o ministro da articulação política, José Guimarães, disse que não há estudos sobre medidas de ajuste.
Embora parte da declaração seja decorrente do fato de que ele não está participando desse processo, outra parte evidencia uma visão dentro do PT e de setores do governo de que não dá para correr o risco de um ajuste fiscal duro, que contrarie o tom da campanha. Dessa forma, vai ficando mais claro um cenário de um ajuste não só gradualista ao longo dos anos, mas que combine medidas de flexibilidade orçamentária, racionalização de despesas sem cortes radicais e ações do lado da receita.
No enunciado, parece até fácil fazer. Na vida real da política, a história é outra.
Parte do movimento violento dos mercados na segunda-feira precifica essa dificuldade, embora outra parte reflita a imprudência de parte dos investidores em tratar uma eleição contra um político com a história de Lula como resolvida antes do jogo acabar.
O Globo