247 – O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), de 41 anos, passou a ser cotado para assumir o Ministério da Fazenda no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Reeleito com 70,90% dos votos, Fonteles construiu uma trajetória marcada pelo conhecimento técnico em matemática e economia, pela experiência na administração das contas públicas e por uma orientação pragmática, que combina responsabilidade fiscal, investimentos públicos e parcerias com a iniciativa privada.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, que ouviu familiares e aliados políticos do governador, Fonteles ganhou projeção nacional ao integrar o núcleo central da campanha de Lula no segundo turno da eleição presidencial. Sua formação acadêmica e sua experiência administrativa são apontadas por interlocutores como credenciais para uma eventual participação na equipe econômica federal.
Filho do ex-deputado federal Nazareno Fonteles, um dos fundadores do PT, Rafael destacou-se desde jovem em olimpíadas internacionais de física, química e matemática. Foi aprovado em primeiro lugar geral no vestibular da Universidade Federal do Piauí (UFPI), onde cursou matemática, e, aos 19 anos, criou um cursinho preparatório em Teresina, que deu origem a uma rede privada de educação.
Posteriormente, concluiu mestrado em Economia Matemática no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro. Antes de ingressar na administração pública, também atuou como comentarista de finanças e investimentos na TV Clube, afiliada da Rede Globo no Piauí.
Sua experiência na gestão fiscal começou aos 29 anos, quando foi nomeado secretário estadual da Fazenda pelo então governador Wellington Dias (PT). Em 2015, enfrentou um cenário de dificuldades nas contas estaduais, em meio à crise econômica nacional.
A passagem pela secretaria consolidou seu perfil de gestor preocupado com o equilíbrio fiscal e a capacidade de investimento do Estado. No governo do Piauí, Fonteles adotou medidas de aproximação com o setor privado, incluindo concessões de rodovias e serviços públicos.
Em 2024, o estado arrecadou R$ 1 bilhão com o leilão dos serviços de água e saneamento, concedidos à Águas do Piauí, do grupo Aegea. As iniciativas receberam críticas de setores da esquerda, mas refletem a disposição do governador de recorrer a diferentes instrumentos de financiamento e gestão.
Ao mesmo tempo, Fonteles defende uma atuação ativa do Estado na promoção do desenvolvimento. Entre suas referências intelectuais estão a economista Mariana Mazzucato, conhecida por seus estudos sobre o Estado empreendedor, e o francês Jean Tirole, vencedor do Nobel de Economia de 2014.
O governador também manifesta admiração pelas políticas chinesas de desenvolvimento e redução da pobreza. Ao lançar o Pacto pela Economia, iniciativa voltada à identificação e ao aproveitamento das potencialidades econômicas dos municípios piauienses, afirmou ter buscado inspiração na experiência da China.
Fonteles também demonstra interesse pela trajetória do presidente chinês Xi Jinping. Seu pai, Nazareno Fonteles, descreve o governador como um político de centro-esquerda aberto ao diálogo com diferentes correntes ideológicas.
“Ele é de uma centro-esquerda democrática que não tem medo de dialogar com a direita”, afirmou à Folha. Na administração estadual, Fonteles também priorizou investimentos em educação e segurança pública.
O Piauí alcançou o segundo lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), com destaque para a expansão do ensino integral. Na segurança, o governo investiu em tecnologia e desenvolveu iniciativas como o programa Celular Seguro, posteriormente adotado em âmbito nacional.
Articulação política e protagonismo na campanha de Lula Além da experiência administrativa, Fonteles ampliou sua influência política no Piauí e no cenário nacional.
Na eleição estadual, articulou uma aliança que garantiu sua reeleição e a conquista das duas vagas ao Senado por Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD), derrotando o senador Ciro Nogueira (PP). A atuação política também foi marcada por divergências com Wellington Dias, seu antecessor no governo estadual, especialmente nas negociações sobre a composição das chapas eleitorais.
No segundo turno presidencial, Fonteles integrou o grupo de dirigentes petistas que atuaram diretamente na campanha de Lula, ao lado de Camilo Santana, Rui Costa e André Janones. Seu domínio de ferramentas matemáticas e estatísticas ganhou destaque na apuração, quando projetou a vitória do presidente antes mesmo de 2% das urnas terem sido contabilizadas.
O senador Marcelo Castro destacou à Folha a capacidade de articulação do governador. “Ele é um grande articulador e, em todo lugar que chega, se destaca.
Tem profundidade de análise e entende rapidamente as coisas”, afirmou. Possível participação no novo governo Lula
Com a vitória presidencial, o nome de Rafael Fonteles passou a circular nas discussões sobre a composição da equipe econômica do próximo mandato. Uma eventual indicação para o Ministério da Fazenda exigiria sua renúncia ao governo do Piauí, cargo para o qual acaba de ser reeleito.
Nazareno Fonteles afirmou à Folha que ainda não conversou com o filho sobre uma possível transferência para Brasília e considera que ele poderia inicialmente colaborar com a equipe econômica federal. Marcelo Castro, por sua vez, avalia que o governador estaria preparado para assumir novas responsabilidades.
“Ele é um homem de decisão. Se precisa tomar decisão importante, ele toma com toda tranquilidade.
Não é de recuar”, declarou. A possível escolha de Fonteles colocaria no comando da política econômica um dirigente petista com experiência direta na administração fiscal, defensor de investimentos públicos e de uma relação pragmática com o setor privado.
Até o momento, porém, não há confirmação de convite ou indicação formal para o Ministério da Fazenda.
Brasil 247