“Lula 4 precisa ser Lula 1”, diz economista da FGV ao defender responsabilidade fiscal

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisará recuperar o pragmatismo econômico e o compromisso com a responsabilidade fiscal que marcaram seu primeiro mandato, entre 2003 e 2006, para enfrentar os desafios de sua quarta gestão. A avaliação é da economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro IBRE, da Fundação Getulio Vargas (FGV), que defende uma equipe econômica com autonomia, revisão criteriosa dos gastos públicos e medidas capazes de garantir a sustentabilidade das contas nacionais.

Em entrevista ao InfoMoney, Silvia Matos afirmou que a vitória de Lula na eleição presidencial não significa necessariamente uma aprovação integral da política econômica adotada pelo governo. Para ela, o resultado apertado das urnas revela uma sociedade dividida entre a demanda por equilíbrio fiscal e a preservação de direitos e benefícios sociais.

“O objetivo do Lula 4 é ser Lula 1. Não precisa inventar nada”, afirmou a economista, ao recordar a orientação econômica do início do primeiro governo petista, quando Lula escolheu Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central.

Segundo Matos, o presidente precisará recuperar a confiança na condução da economia em um cenário de desaceleração da atividade, inflação pressionada, juros elevados e crescimento das despesas obrigatórias. “Ficou claro que a vitória do PT não é uma vitória endossando a política econômica do PT.

Metade da população faz uma avaliação muito ruim da economia”, declarou. A economista também criticou a atuação do Congresso Nacional, que, apesar de contar com uma maioria de direita, tem apoiado iniciativas de expansão dos gastos públicos.

“O Congresso, apesar de ser de direita, tem se mostrado com uma capacidade enorme de fazer populismo fiscal, que está sendo ecumênico. É de esquerda e de direita.

E isso está levando a uma falta de espaço para orçamento público”, afirmou. Revisão de gastos e preservação das políticas sociais

Silvia Matos defende que o ajuste fiscal seja realizado de maneira gradual e criteriosa, com prioridade para a revisão da qualidade das despesas públicas e a eliminação de benefícios tributários concedidos a setores que não necessitam de apoio governamental. “O Brasil resolveu ter um estado de bem-estar para todo mundo antes de ter dinheiro”, afirmou, ao questionar isenções fiscais e programas que beneficiam grupos econômicos privilegiados.

Nesse contexto, classificou como “inaceitável” a proposta defendida pelo ex-candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) de retomar benefícios como os do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), diante das limitações orçamentárias enfrentadas por áreas essenciais.

Para a economista, a responsabilidade fiscal deve servir justamente para preservar a capacidade do Estado de financiar políticas sociais e investimentos estruturantes. Ela destaca a importância de direcionar recursos para educação, saneamento básico e infraestrutura, áreas consideradas fundamentais para elevar a produtividade e sustentar o crescimento econômico.

Matos também alerta que a expansão indiscriminada dos gastos pode produzir efeitos contrários aos desejados quando a inflação e os juros permanecem elevados, dificultando a atuação do Banco Central. “A gente precisa ter uma ponte para o futuro.

E hoje o que a gente tem? A gente não tem essa ponte para o futuro, a gente só tem uma bomba fiscal que está estourando”, afirmou. Alckmin, Rafael Fonteles e outros nomes são citados

A escolha da equipe econômica será, segundo Silvia Matos, um dos principais sinais sobre os rumos do novo governo. Ela defende um ministro da Fazenda com autonomia, capacidade de articulação política e disposição para promover reformas, sem abrir mão do diálogo com o Congresso e com a sociedade.

“Você não faz revolução, ministro não pode ser revolucionário. Tem que ser reformista, saber como comprar as brigas, que brigas e ser político e humilde também com as pessoas.

Porque, se você for arrogante, você não vai conseguir”, declarou. Entre os nomes mencionados pela economista estão o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), reeleito com 70,90% dos votos e apontado como possível integrante da futura equipe econômica.

Na avaliação de Matos, Alckmin reúne atributos como “previsibilidade, sustentabilidade e credibilidade”, enquanto Fonteles apresenta experiência na administração das contas públicas e na implementação de políticas de desenvolvimento, educação e tecnologia. A economista também mencionou Camilo Santana, além de lideranças como Eduardo Paes, Eduardo Leite, Paulo Hartung, João Campos e Gilberto Kassab, como exemplos de dirigentes com experiência administrativa e capacidade de articulação política.

Adesão à OCDE e regras permanentes Outra proposta apresentada por Silvia Matos é o avanço do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que, em sua avaliação, poderia contribuir para estabelecer padrões duradouros de governança e responsabilidade fiscal.

A economista argumenta que mecanismos de avaliação de políticas públicas, revisões periódicas de gastos e critérios de produtividade poderiam reduzir a influência de pressões políticas sobre o orçamento e melhorar a eficiência da administração pública. Para Matos, a política fiscal precisa deixar de depender exclusivamente das decisões de cada governo e passar a ser orientada por compromissos institucionais de longo prazo.

A economista considera que a combinação de estabilidade macroeconômica, investimentos produtivos e preservação das políticas sociais será fundamental para o desempenho do quarto mandato de Lula. Em sua avaliação, o caminho passa menos pela criação de uma nova orientação econômica e mais pela recuperação de princípios que marcaram o início da trajetória do presidente no Palácio do Planalto.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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