Especialista em contas públicas defende nome na Fazenda que promova choque de expectativas

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O economista José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e atual chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, defende que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolha rapidamente um nome de peso para comandar o Ministério da Fazenda em seu quarto mandato. Na avaliação do especialista, o futuro ministro deverá ter capacidade de liderança, compromisso com a estabilidade macroeconômica e força política para promover um choque positivo de expectativas, em um cenário de preocupação com a dívida pública e o crescimento econômico.

Em entrevista ao jornal O Globo, Senna afirmou que o governo precisa aproveitar os próximos meses para iniciar mudanças na política fiscal, antes da posse de um Congresso com maior presença da oposição. Segundo ele, a demora na adoção de medidas pode agravar os desequilíbrios das contas públicas e aumentar o risco de recessão em 2027.

“Precisamos de um nome que seja viável politicamente, e capaz de dar um choque de expectativas”, afirmou o economista. Senna considera que o principal desafio da próxima gestão será recuperar a estabilidade macroeconômica.

Ele aponta que a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB) aumentou cerca de dez pontos percentuais durante a atual administração, alcançando 82,9%. Para enfrentar esse quadro, o economista recomenda que Lula se inspire no início de seu primeiro mandato, quando escolheu Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e montou uma equipe econômica voltada à estabilização das contas públicas.

Na avaliação de Senna, aquele período representou a melhor experiência de gestão macroeconômica dos governos petistas. O especialista ressalta que o próximo ministro não precisa ser necessariamente um técnico, mas deve reunir capacidade de articulação política, conhecimento econômico e habilidade para formar uma equipe qualificada.

“É preciso um ‘big name’, identificado com o ajuste macroeconômico, com capacidade de liderar uma equipe de gente que entende do riscado”, declarou. Questionado sobre os nomes do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), mencionados nas discussões sobre a futura composição ministerial, Senna reconheceu qualidades em ambos, mas avaliou que o governo precisaria de um nome com maior identificação pública com uma agenda de ajuste fiscal.

Ajuste gradual e revisão das despesas Na avaliação de Senna, o ajuste necessário nas contas públicas seria equivalente a algo entre 2% e 3% do PIB.

Ele defende que as medidas sejam implementadas gradualmente, com redução de desperdícios, revisão de gastos e contenção do crescimento das despesas obrigatórias. Entre as mudanças sugeridas estão a revisão da vinculação de benefícios previdenciários ao salário mínimo, dos pisos constitucionais de saúde e educação e de outros mecanismos de indexação orçamentária.

O economista argumenta que o crescimento das despesas previdenciárias acima das receitas exige uma revisão das regras atuais para evitar o agravamento da trajetória da dívida pública. Senna também criticou o atual arcabouço fiscal, por considerar que sua sustentabilidade depende excessivamente do aumento da arrecadação tributária.

“Não tem como um programa de gasto público ser baseado no aumento permanente da carga tributária”, afirmou. Segundo ele, o Brasil já apresenta uma carga tributária elevada em relação ao seu nível de desenvolvimento econômico, o que pode limitar investimentos privados e a atividade empreendedora.

Sua proposta enfatiza a necessidade de uma liderança econômica comprometida com a disciplina orçamentária, em vez da dependência exclusiva de regras fiscais que, segundo ele, podem ser flexibilizadas por exceções. Juros elevados e ameaça de recessão

Outro ponto de preocupação do economista é a política monetária. Senna avalia que a deterioração das expectativas de inflação e a valorização do dólar reduzem significativamente a margem do Banco Central para continuar cortando os juros.

Com a cotação da moeda americana em torno de R$ 5,35 e as expectativas de inflação para 2027 próximas de 5%, ele considera que a autoridade monetária enfrenta dificuldades para estimular a atividade econômica. “O melhor remédio em matéria de política macroeconômica para lidar com essa desaceleração da atividade é a redução de juros.

Só que agora o espaço é zero para fazer isso”, declarou. Senna também chama a atenção para o endividamento simultâneo do governo, das famílias e das empresas.

Segundo ele, quando esses agentes precisam reduzir suas dívidas, tendem a conter gastos e investimentos, provocando uma desaceleração da demanda. “Eu vejo uma ameaça de recessão em 2027.

É uma ameaça, não sei o que vai acontecer”, afirmou. Apesar de reconhecer que o mercado de trabalho permanece aquecido, o economista considera que a combinação de endividamento elevado, pressões inflacionárias e restrições à redução dos juros representa um desafio importante para o próximo governo.

Na avaliação de Senna, a escolha do futuro ministro da Fazenda será decisiva para alterar as expectativas econômicas. Ele sustenta que uma sinalização rápida de compromisso com o equilíbrio fiscal poderia contribuir para reduzir incertezas, melhorar as condições de financiamento e criar um ambiente mais favorável à retomada do crescimento.

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