Na primeira declaração após o assalto em que foi baleada três vezes, na semana passada, a arqueóloga Tania Andrade Lima, de 81 anos, não poupou agradecimentos às pessoas que a socorreram. Foram várias, como ela descreveu em áudio transcrito pelo GLOBO, ressaltando que “é reconfortante receber tantas manifestações de força e de apoio que restauram a nossa crença na Humanidade”.
Nesta lista de personagens solidários, figuram dois agentes da Polícia Militar: os sargentos Rafael Novaes e Anderson Oliveira acompanharam os primeiros momentos do atendimento à vítima, atacada no início da tarde de 15 de outubro, na Rua General Venâncio Flores, no Leblon, Zona Sul do Rio, depois de fazer um saque em uma agência bancária.
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Lotado no programa Segurança Presente Leblon, Novaes foi alertado sobre uma mulher baleada em uma tentativa de assalto. Da base do programa, na Praça Antero de Quental, ele e um colega seguiram de viatura até o local, a cerca de um quarteirão.
Tomada de decisão O sargento encontrou pessoas tentando conter o sangramento da vítima — um taxista recorreu a um cadarço para improvisar um garrote.
Novaes logo percebeu a gravidade da situação. Decidiu então colocá-la na viatura e levá-la diretamente ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, em vez de aguardar a chegada do Corpo de Bombeiros, como prevê o procedimento.
— Como eu vi que ela estava meio desorientada e perdendo muito sangue, achei melhor levar para o hospital de imediato. Ela poderia ter um choque hipovolêmico (consequência da diminuição anormal do volume sanguíneo) e morrer — conta o policial, há 15 anos na corporação.
No trajeto, Rafael Novaes conversou com Tania para mantê-la acordada. Também entrou em contato com o marido da professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pediu ao policial para falar com o sobrinho dela.
Na chegada à emergência, o militar contou com a ajuda de um profissional de saúde para colocar a vítima em uma cadeira de rodas, e a equipe médica assumiu o atendimento. Naquele momento, Novaes ainda não havia percebido que a arqueóloga tinha sido baleada: estava mais impressionado com a quantidade de sangue.
Tania Andrade Lima foi atingida no braço esquerdo e no polegar da mão direita, e uma bala, depois de acertar o pescoço, ficou alojada perto da coluna cervical. — Eu não imaginava que tinham sido três disparos, que tinham perfurado.
Na hora, tudo o que vi era muito sangue. Achei que ela só tinha sido atingida por estilhaços — lembra ele.
A aflição, diz o policial, foi acompanhada pela preocupação de salvar a vida da vítima. — A gente se coloca um pouco no lugar, não como policial, mas como se fosse um familiar nosso.
Estava ali precisando, aflita, com medo. A gente fica com muito ímpeto de ajudar e salvar aquela vida.
Uma senhora de idade, uma brutalidade dessa que aconteceu, ser jogada no chão, ser alvejada, arrastada. Até vendo o vídeo você não acredita, pensa que foi armado.
Suspeito morto em perseguição em Botafogo tinha 27 passagens pela polícia; carro passou por seis bairros em 1h22 Já no Miguel Couto, outro PM, o sargento Anderson, assumiu a ocorrência e permaneceu por cerca de duas horas e meia na unidade.
Lotado no 23º BPM (Leblon), o policial, que tem 24 anos de corporação, encontrou Tania lúcida, mas muito agitada. Foi ele quem identificou as três perfurações dos disparos.
O sargento procurou acalmá-la, explicou o que havia acontecido e acompanhou os exames. À medida que a arqueóloga se tranquilizava e ganhava confiança, ela conseguiu relatar o que se lembrava do assalto e os objetos levados pelos criminosos.
O sargento Anderson Alexandre Cassiano
A prioridade do policial, segundo ele, era transmitir segurança à vítima, diante da gravidade dos ferimentos. Anderson diz ter se surpreendido com o estado de Tania após o ataque e se considera grato por contribuir para o bem-estar da professora.
Depois do atendimento inicial, a arqueóloga foi transferida para a Casa de Saúde São José, no Humaitá. Na unidade, passou por cirurgia para retirar o projétil alojado no pescoço e reconstituir a mão ferida.
Ela já recebeu alta. Em seus agradecimentos, chamou o sargento Anderson de “meu anjo da guarda”.
Quadrilha é investigada A investigação do crime levou a polícia a apurar a atuação de uma organização criminosa especializada em roubos e furtos na Zona Sul.
Na quarta-feira, Luiz Fernando Rodrigues dos Santos, apontado como um dos chefes do grupo, morreu durante uma perseguição policial em Botafogo. Segundo os agentes, ele integrava a quadrilha da qual também faria parte o principal suspeito da tentativa de latrocínio contra a arqueóloga, James Dean Chagas Lindoso, que segue foragido.
Oposição a Ruas começa a se organizar na Alerj, mas tamanho dependerá da eleição de Lula ou Flávio Bolsonaro Na quinta-feira, o delegado Alexandre Netto, titular da 14ª DP (Leblon), afirmou que o grupo é formado por 11 integrantes, com funções definidas, e age com violência.
Segundo ele, a organização tem ligação direta com o Comando Vermelho (CV) e escolhe a Zona Sul como área de atuação. — Já temos conhecimento de pessoas dentro dessa facção que dão suporte para que esse crime aconteça.
Não é uma ação isolada, é uma estrutura bem organizada — afirma Netto. *Estagiária sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga
O Globo