247 – Antes de sua prisão e da liquidação do Banco Master em novembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro e seu sócio Flávio Carneiro negociaram a aquisição do jornal Correio Braziliense por meio do abatimento de débitos com precatórios federais, vindo a assumir o controle editorial do veículo de comunicação, informa o Metrópoles.
A operação envolvia o aproveitamento de títulos de precatórios junto à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para abater passivos fiscais do periódico, cuja dívida ativa com a União alcança R$ 589,4 milhões — montante que integra um débito consolidado de R$ 1,4 bilhão do grupo Diários Associados, conglomerado controlador da empresa que se encontra às vésperas de ingressar com pedido de recuperação judicial.
Mensagens obtidas em aparelhos celulares apontam que a ingerência sobre o conteúdo do jornal já ocorria meses antes da formalização do negócio. Em 10 de abril de 2025, Flávio Carneiro enviou um relatório a Vorcaro detalhando o modelo financeiro estruturado e confirmando o domínio sobre a redação: “Diários Associados: anexo o modelo de negócio que eu bolei com o Leo Palhares.
Temos mais 35 dias para apresentar os precatórios na PGFN [Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional]”, escreveu o sócio, ressaltando que o grupo “assumiu o editorial do Correio” desde o dia 1º daquele mês. A influência do empresário e de seu interlocutor no diário da capital federal vinha sendo articulada desde o início de 2024.
Em janeiro daquele ano, Carneiro reportou tratativas com uma profissional de imprensa para “o projeto Correio Braziliense”. Questionado por Vorcaro — “Não fechamos nada com ela, né?” —, o sócio respondeu: “Não, mas tá apalavrado que dando certo o projeto do Correio Braziliense, ela vem para assumir a coluna e gerar audiência”.
Em abril do mesmo ano, durante discussões sobre a divulgação da presença do proprietário do Master no I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, Carneiro sugeriu: “Se quiser, eu planto uma nota no Correio Braziliense amanhã cedo”. A utilização da estrutura de imprensa para fins de blindagem e propaganda se intensificou em 30 de março de 2025, dois dias após o anúncio da aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
Insatisfeito com a repercussão do negócio, Vorcaro cobrou a publicação de análises favoráveis no veículo e no site Platô: “nenhum veículo nosso fez uma matéria de análise positiva”, reclamou o banqueiro. Em seguida, ordenou a investida editorial: “Amanhã todos têm que ter análises com os fundamentos que passamos.
Temos que desmascarar essas matérias compradas com a realidade. E a realidade é que a chance do Bacen não aprovar é zero”, declarou o dono do Master.
Contudo, seis meses após a exigência, o Banco Central vetou a fusão das instituições, desdobramento que culminou na prisão de Vorcaro e no encerramento das atividades do Banco Master. Os diálogos também demonstram o uso da cobertura jornalística para atritos políticos.
Em 3 de agosto de 2025, Carneiro anunciou que viajaria à capital federal a fim de “alinhar” com as redações do Platô e do Correio Braziliense uma série de matérias contra o ex-candidato ao governo do Distrito Federal Ricardo Cappelli (PSB), crítico frequente das operações envolvendo o Master e o BRB.
Diante do comando de Vorcaro para “moer” o opositor, Carneiro concordou: “Vamos desancar esse desgraçado”. A formalização do contrato para a compra do Correio Braziliense foi confirmada por Carneiro em 12 de agosto de 2025: “Correio assinado.
Agora depende só de nós”. Ao ser indagado por Vorcaro sobre “pra quem”, o parceiro comercial detalhou: “Pro veículo que estamos montando, com a minuta que fizemos sem precisar alterar nada.
Unânime”, declarou. Apesar dos desdobramentos, questionamentos externos e pendências contratuais travaram o desfecho da transferência.
Seis dias após o anúncio da assinatura, Carneiro repassou a Vorcaro oito perguntas enviadas por repórteres a respeito das “negociações com o Correio Braziliense”. Já em setembro de 2025, o sócio cobrou agilidade do banqueiro ao relatar que estava “segurando na unha o tema do Correio e dos Diários”.
Carneiro explicou o impasse: “Tá tudo parado numa pendência do Ricardo conversar contigo pra ele alinhar algo que não quis me falar entre vocês dois. Você pode escrever pra ele? Documento está pronto pra ser assinado, só depende de você agora”, acrescentou.
A cartada para consolidar a aquisição do tradicional veículo de comunicação acabou naufragando antes da liquidação judicial do banco.
Brasil 247