'Se a IA consegue passar, esse é o exame errado', diz vice-presidente do comitê de educação da OCDE

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Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

A facilidade de produzir uma redação, resolver exercícios ou elaborar um relatório com inteligência artificial cria um dilema para escolas e universidades: como aproveitar a tecnologia sem eliminar o esforço necessário para aprender? Para Charles Fadel, pesquisador de Harvard e vice-presidente do comitê de edudação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a resposta passa por mudanças na forma como ensinamos, avaliamos e preparamos estudantes para o mercado de trabalho.

Na avaliação de Fadel, a facilidade de obter respostas prontas pode comprometer o aprendizado. Ao delegar a resolução de uma atividade à IA, o estudante deixa de exercitar o raciocínio e as habilidades que deveria desenvolver ao realizá-la.

“O problema é que, se alguma coisa lhe oferece uma solução, se a IA lhe dá uma solução, você vai dizer: por que me dar ao trabalho de pensar? Isso é muito perigoso. Por isso, fico satisfeito que estejamos dando um passo atrás e dizendo: isso é muito poderoso, seria como manipular dinamite.

Vamos ter um pouco de cuidado com a maneira como vamos usá-la”, afirma o especialista, que veio ao Brasil em setembro para participar de um evento sobre educação pública promovido pela Saber Educação, da Cogna. Fundador e presidente do Center for Curriculum Redesign (Centro para Reformulação Curricular, em português; CCR), sediado em Boston, nos EUA, Fadel distingue três frentes que frequentemente aparecem misturadas no debate: aprender sobre IA, aprender com IA e aprender por meio de tutores inteligentes.

A primeira envolve conhecer o funcionamento, as possibilidades e as limitações da tecnologia. A segunda exige ferramentas e orientações que ajudem o estudante a avançar sem fornecer imediatamente toda a solução.

A terceira aposta no acompanhamento personalizado, mas ainda depende de pesquisa e de integração com o trabalho dos professores. Essa distinção também ajuda a definir o momento de introduzir a tecnologia.

Fadel defende que os primeiros anos escolares sejam dedicados a brincadeiras e experiências sem dispositivos digitais. Nas etapas seguintes, propõe uma adoção acompanhada, com limites que diminuem à medida que os estudantes aprendem a utilizar os sistemas com autonomia.

A comparação é com as rodinhas de uma bicicleta: elas oferecem apoio até que seja possível pedalar sozinho. Jovens em sala de aula

Rovena Rosa/Agência Brasil O que deve permanecer no currículo

A introdução da IA esbarra em um problema que já existia antes da tecnologia. Na avaliação de Fadel, os currículos acumulam conteúdos e deixam pouco tempo para investigar problemas e aplicar conhecimentos.

Abrir espaço para essas atividades exige definir o que todos os estudantes precisam aprender e o que pode ser aprofundado em uma especialização. Isso não significa que o conhecimento perca a validade a cada avanço tecnológico.

Fadel cita a computação, na qual linguagens e ferramentas mudam rapidamente, enquanto fundamentos de lógica continuam relevantes. Para ele, a sensação de que tudo precisa ser revisto ao mesmo tempo reflete, em parte, mudanças que os sistemas de ensino adiaram.

“Há muitas coisas que não variam nas disciplinas. O que temos é um grande acúmulo de modernizações que os sistemas de ensino não fizemos nos últimos 50 anos.

Agora, tudo está chegando de uma vez. Mas, depois desse grande salto, a mudança se torna mais gradual.

Não é tão ruim quanto pensamos”, pondera. A reorganização dos conteúdos depende também de mudar o que se cobra dos estudantes.

Se as provas continuam premiando a reprodução de informações, argumenta Fadel, escolas e universidades têm menos espaço para desenvolver a aplicação do conhecimento. “Se você consegue passar em um exame de direito ou de medicina apenas recitando coisas de memória, esse é claramente o exame errado.

Se a IA consegue passar, esse é o exame errado”, confirma. Como alternativa, Fadel inclui recuperar formatos como provas orais e demonstrações práticas, nos quais o estudante precisa mostrar o que sabe fazer.

São avaliações que podem exigir mais tempo e recursos, mas que permitem acompanhar o raciocínio e examinar como o aluno mobiliza o que aprendeu diante de uma situação concreta “Há 100 anos, não tínhamos sistemas automatizados de tabulação.

Então, o que fazíamos? Provas orais. E tínhamos demonstrações: mostre o que você consegue fazer”, afirma.

“Nós nos livramos disso porque queríamos automatizar as avaliações e torná-las mais baratas.” A própria IA pode contribuir para acompanhar a evolução dos estudantes e ajudar professores a identificar dificuldades.

Fadel também admite seu uso na correção de atividades, desde que existam diretrizes institucionais, possibilidade de revisão humana e explicações que permitam compreender o resultado. Atribuir uma nota não basta se o aluno continua sem saber como melhorar.

“Pode ser útil. Tem de ser feito com diretrizes cuidadosas e com alguma flexibilidade preservada para que o ser humano possa rever a decisão”, afirma.

O objetivo, em sua avaliação, deve ser acompanhar o progresso e orientar intervenções ao longo da trajetória escolar.m Como se preparar para o trabalho

A defesa de uma educação mais ampla ganha peso diante da dificuldade de prever quais atividades serão automatizadas e como as profissões vão se reorganizar. Fadel recomenda construir um repertório diversificado antes de aprofundar uma especialidade, combinando essa base com projetos e estágios.

A imagem que utiliza é a de um canivete suíço. Diferentes conhecimentos funcionariam como lâminas que podem ser acionadas conforme a situação.

A especialização viria depois, como o ato de afiar uma delas, sem perder as demais possibilidades de atuação. Isso não significa assumir que a IA eliminará ocupações inteiras na mesma velocidade com que automatiza tarefas.

Para ele, essa distinção é essencial para discutir o futuro do trabalho. “É muito difícil dizer o que vai acontecer com os empregos.

Mas há uma diferença entre resolver uma tarefa e fazer um trabalho, porque um trabalho é composto de muitas tarefas diferentes. Algumas podem ser automatizadas, mas nem tudo.

E você também precisa conectar essas tarefas, encadear as coisas”, afirma. Ao mesmo tempo, Fadel evita tratar a criação de novas profissões como uma consequência garantida do avanço tecnológico.

“Historicamente, pelo menos, toda vez que surge uma nova tecnologia, ela cria novos empregos. Mas precisamos nos perguntar: isso continuará sendo verdade, agora que temos uma tecnologia cognitiva? Antes não tínhamos uma tecnologia cognitiva.

Não sabemos.” Diante dessa incerteza, preservar a disposição para aprender exige também prática deliberada sem assistência tecnológica.

Questionado sobre como enfrentar a tendência de delegar cada vez mais atividades à IA, Fadel recorre a uma comparação com o condicionamento físico. “Como você combate a perda de forma física? Vai à academia, anda de bicicleta, faz alguma coisa”, diz.

Ao ouvir que o equivalente poderia ser ler mais e escrever sem recorrer ao ChatGPT, concorda: “Exatamente. Você precisa se obrigar a fazer isso.”

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