O último debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para esta sexta-feira (23), na TV Globo, será a última oportunidade para os candidatos se confrontarem diretamente diante dos eleitores antes do segundo turno. A disputa chega à televisão em um cenário apertado, no qual as campanhas buscam conquistar indecisos e mobilizar quem ainda não decidiu se comparecerá às urnas.A história eleitoral brasileira reúne episódios em que um confronto na televisão alterou estratégias de campanha, produziu crises políticas ou mudou a percepção pública sobre os candidatos.
O caso mais controverso ocorreu em 1989, quando a edição de um debate entre Fernando Collor e Lula provocou uma discussão sobre a cobertura jornalística e levou a TV Globo a modificar suas práticas.Outros confrontos, como os de Lula e Geraldo Alckmin em 2006, Dilma Rousseff e Aécio Neves em 2014 e Lula e Jair Bolsonaro em 2022, também ganharam destaque pela agressividade, pelos ataques pessoais e pelo espaço que ocuparam na reta final das eleições.Leia tambémEconomist trata Lula como ‘azarão’ no 2º turno mais acirrado desde a redemocratizaçãoA publicação lembra que “nenhum candidato que perdeu o primeiro turno conseguiu, até hoje, vencer o segundo”Lula pode encerrar carreira política com derrota para Flávio, diz The New YorkerRevista americana vê eleição brasileira como parte de avanço da direita na América Latina e afirma que presidente enfrenta dificuldades para mobilizar eleitoresEmbora sejam frequentemente lembrados como momentos decisivos, demonstrar que um debate mudou o resultado de uma eleição é mais difícil.
Pesquisas realizadas após os encontros indicam que a repercussão pode ser ampla, enquanto a parcela do eleitorado que admite ter alterado o voto costuma ser menor.1989: a edição que provocou uma criseO confronto entre Fernando Collor de Mello (PRN) e Lula, em 14 de dezembro de 1989, permanece como o episódio mais controverso da história dos debates presidenciais brasileiros.Três dias antes da votação, os candidatos participaram de um encontro transmitido por quatro emissoras.
Lula havia reduzido a diferença nas pesquisas e chegava à reta final em situação de empate técnico com Collor.No dia seguinte, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem que selecionava momentos do debate. A edição foi acusada de favorecer Collor, destacando seus melhores desempenhos e as dificuldades do adversário.Exército do Lula e Tropa do Flávio: como lógica do BBB chegou na eleição presidencialSegundo o próprio acervo Memória Globo, Collor recebeu um minuto e meio a mais de exposição na reportagem.
O PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pedindo direito de resposta, mas a solicitação foi rejeitada.A controvérsia ganhou dimensão nacional e provocou protestos de artistas e intelectuais diante da sede da emissora. Anos depois, a Globo reconheceu o problema e adotou a orientação de não editar debates políticos.Collor venceu a eleição com aproximadamente 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula.
A proximidade entre o debate e a votação transformou o episódio em um dos mais citados nas discussões sobre influência da televisão nas eleições.O impacto exato da edição sobre o resultado nunca foi demonstrado de maneira conclusiva. O episódio, entretanto, produziu uma mudança duradoura na cobertura jornalística dos debates.Lula ou Flávio: quais são as propostas para tirar os brasileiros das dívidas?2006: Alckmin surpreende LulaDezessete anos depois, outro confronto obrigou uma campanha a rever sua estratégia.
Na eleição de 2006, Lula buscava a reeleição e havia decidido não participar dos debates do primeiro turno.A disputa acabou sendo levada ao segundo turno contra Geraldo Alckmin (PSDB), que adotou uma postura mais agressiva no primeiro encontro entre os dois, realizado pela Band em 8 de outubro daquele ano.Alckmin abriu o debate lembrando que Lula havia faltado aos confrontos anteriores.
Em seguida, passou a cobrar explicações sobre escândalos de corrupção que atingiram o governo petista, incluindo o mensalão e o caso dos chamados aloprados, relacionado à tentativa de compra de um dossiê contra adversários do PT.Lula reagiu com críticas à gestão tucana em São Paulo e comparações entre os resultados econômicos de seu governo e os da administração de Fernando Henrique Cardoso.O que Flávio poderia fazer com um Congresso mais à direita em 2027A mudança de postura de Alckmin chamou atenção porque o candidato vinha sendo apresentado como um político de perfil moderado.
A Folha de S.Paulo registrou que integrantes das duas campanhas foram surpreendidos pelo tom do confronto.Nos debates seguintes, a agressividade passou a ser uma questão estratégica. Alckmin reduziu o tom em alguns momentos, enquanto Lula procurou recuperar a iniciativa com críticas às privatizações realizadas durante governos do PSDB.O petista acabou reeleito com 60% dos votos válidos.
O desempenho de Alckmin no primeiro confronto produziu repercussão política e obrigou os candidatos a adaptar suas estratégias, mas não foi suficiente para reverter a vantagem de Lula nas pesquisas.2014: Aécio vence debate, mas Dilma ganha a eleiçãoA eleição de 2014 produziu uma das disputas mais acirradas da história recente.
Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) chegaram ao segundo turno separados por poucos pontos nas pesquisas, em uma campanha dominada por acusações de corrupção, questionamentos sobre a economia e ataques pessoais.Nos encontros anteriores ao último debate, Dilma cobrou explicações sobre a construção de um aeroporto em Cláudio, Minas Gerais, durante o governo de Aécio.
O tucano respondeu com críticas à Petrobras e aos escândalos investigados durante a gestão petista.O confronto final, realizado pela Globo em 24 de outubro, teve repercussão entre os eleitores. Pesquisa Datafolha divulgada no dia seguinte mostrou que 60% dos entrevistados haviam acompanhado o programa, integralmente ou em parte.Entre aqueles que assistiram, 36% consideraram Aécio o melhor no debate, contra 27% que apontaram Dilma.
Outros 27% não souberam indicar quem teve o melhor desempenho.Entre os indecisos que acompanharam o encontro, 25% avaliaram que o tucano se saiu melhor, enquanto 7% escolheram a petista.Apesar dessa percepção favorável a Aécio, Dilma venceu a eleição dois dias depois, com 51,64% dos votos válidos, contra 48,36% do adversário.O episódio mostrou que a avaliação do desempenho em um debate e a escolha do candidato na urna podem seguir caminhos diferentes.
Também evidenciou a dificuldade de separar o efeito do programa das demais informações recebidas pelo eleitor na reta final da campanha.2018: a ausência de Bolsonaro Em 2018, a controvérsia envolveu a falta de confrontos diretos entre os finalistas. Jair Bolsonaro (PSL) deixou de participar dos debates após sofrer um atentado a faca durante um ato de campanha em Juiz de Fora, em setembro.
O candidato ficou internado por três semanas e manteve uma agenda pública limitada durante a recuperação.Mesmo depois da melhora de seu quadro clínico, Bolsonaro decidiu não participar dos encontros com Fernando Haddad (PT) no segundo turno.Em 18 de outubro, o então presidente do PSL, Gustavo Bebianno, comunicou oficialmente a decisão.
A justificativa apresentada incluía o desgaste físico provocado pela recuperação da cirurgia e a avaliação de que o candidato não precisava comparecer aos programas.A decisão tornou-se um dos assuntos da campanha. Haddad passou a cobrar a presença do adversário, enquanto Bolsonaro priorizou entrevistas e comunicações com seus apoiadores.O candidato do PSL venceu com 55,13% dos votos válidos.
A eleição mostrou que a participação nos debates não é condição necessária para conquistar a Presidência, especialmente em uma campanha na qual as redes sociais já desempenhavam papel importante na circulação de mensagens eleitorais.2022: 2% relatam mudança de votoO segundo turno de 2022 voltou a colocar frente a frente dois candidatos em um confronto direto: Lula e Jair Bolsonaro.
O primeiro debate ocorreu em 16 de outubro, em um encontro organizado por Band, Folha, UOL e TV Cultura. Os adversários trocaram acusações sobre corrupção, economia, pandemia e políticas sociais.A repercussão foi acompanhada pelo Datafolha.
Em pesquisa divulgada três dias depois, apenas 2% dos eleitores disseram ter mudado de voto após assistir ao debate ou receber informações sobre o confronto.O instituto também mediu a percepção sobre o desempenho dos candidatos. Entre aqueles que assistiram ao programa integralmente ou em parte, 47% consideraram Bolsonaro o melhor, enquanto 38% escolheram Lula.Na população entrevistada como um todo, a diferença era menor.
Cerca de 34% apontaram Bolsonaro e 32%, Lula, configurando empate técnico.O último confronto, na Globo, em 28 de outubro, foi marcado por novas acusações e discussões sobre salário mínimo, corrupção e programas sociais. O programa registrou 27 pontos de audiência na Grande São Paulo.Dois dias depois, Lula venceu a eleição com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, na disputa presidencial mais apertada até então desde a redemocratização.O que os debates podem mudar em 2026?A experiência das últimas eleições indica que debates podem produzir repercussões políticas importantes, especialmente quando um candidato comete um erro, muda de estratégia ou tem uma declaração amplamente reproduzida depois do programa.O impacto sobre a intenção de voto, entretanto, depende de fatores que vão além do desempenho durante a transmissão.
A pesquisa de 2022, por exemplo, mostrou que o alcance do debate foi maior do que a parcela de eleitores que afirmou ter mudado sua escolha.Em 2014, Aécio foi considerado o melhor no último confronto por uma parcela maior dos espectadores, mas Dilma confirmou a reeleição. Em 1989, o principal legado do debate acabou sendo uma mudança nas práticas editoriais da emissora responsável por sua cobertura.Para Lula e Flávio Bolsonaro, o encontro desta sexta será a última oportunidade de confrontar diretamente as propostas e responder às críticas antes da votação de domingo (25).Em uma eleição com diferenças pequenas nas pesquisas, até oscilações reduzidas poderão ter relevância.
O histórico, porém, recomenda cautela ao atribuir a um único debate a responsabilidade pelo resultado das urnas.
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