Flávio e Lula chegam à reta final em disputa com muitos conflitos e poucas propostas

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Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

Se até há pouco tempo as eleições presidenciais tinham algum debate concreto sobre questões que afligem o país, isso foi definitivamente enterrado no pleito atual. Cada vez mais acirrada, a polarização deixou de ser um sintoma da crise política e tornou-se a principal arma eleitoral dos presidenciáveis do PT e do PL.

Focados na maior parte do tempo em pregar para convertidos e inflamar a própria base, Lula e Flávio Bolsonaro — ambos com chances de vitória no domingo 25 — fazem anúncios rasos e apresentados a toque de caixa, trocam ataques pessoais sistematicamente e protagonizam embates que muito têm de briga ideológica e pouco oferecem em soluções para os problemas da nação.

Os reflexos dessa aposta na mobilização política em detrimento do debate consistente aparecem em uma recente pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, que retrata um eleitorado postado em trincheiras, que se alinha automaticamente a seu candidato nos temas importantes, independentemente de ele ter alguma proposta ou trabalho relevante sobre o assunto.

MUDANÇA – Eleitores de Flávio em manifestação na Paulista: ofensiva para barrar a reeleição do petistaNicolas Hernandez/Anadolu/Getty Images Um exemplo disso é a maneira como eleitores dos dois lados avaliam seu candidato como o mais preparado para promover a democracia.

Embora sejam amplas as evidências que associam o bolsonarismo à tentativa de golpe de Estado tramada entre o final de 2022 e o início de 2023, inclusive com a condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, a maioria do eleitorado (49%) acha que seu filho, Flávio Bolsonaro (PL), é o mais preparado para defender o sistema democrático.

Lula, que voltou ao Planalto em 2022 com um discurso forte em defesa da democracia, ficou 2 pontos atrás do rival nesse quesito. O que permite a Flávio uma dianteira nesse campo é a pregação de que a direita e seu pai são perseguidos por um Judiciário alinhado a Lula, com magistrados comprometidos moralmente e apresentados como “ditadores de toga”.

Trata-se de um discurso que sensibiliza os eleitores à direita. Nesse contexto, o presidenciável do PL é visto pelo seu público como alguém capaz de recompor a democracia.

PRIORIDADE - Operação policial no Complexo da Penha, no Rio: segurança pública lidera preocupação dos eleitoresEgberto Ras/Ag. Enquadrar/Folhapress/.

Mesmo em temas onde um dos dois candidatos vai muito mal, o apego ideológico do eleitor acaba influenciando na hora de dizer quem pode enfrentar melhor determinado desafio. Um bom exemplo é a questão do enfrentamento à criminalidade, principal preocupação dos brasileiros segundo as pesquisas, em que 43% apontam Lula como o presidenciável mais preparado.

Isso soa como um contrassenso diante das históricas dificuldades da esquerda na área e do fato de o atual governo ter uma avaliação ruim no combate à criminalidade. Recentemente, em uma guinada radical de posição sobre o assunto, Lula decidiu apoiar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, uma bandeira histórica da direita, com o objetivo de reduzir eventuais perdas eleitorais contra um rival que sempre teve a segurança como tema central e tem a seu lado uma profusão de aliados que fazem disso a pregação principal.

Diante disso, seria de imaginar que Flávio tivesse uma larga vantagem sobre o adversário. Não é o que ocorre.

O senador consegue convencer pouco mais da metade do eleitorado (53%) de que é mais preparado que o adversário no combate ao crime. Continua após a publicidade

FOCO - Família com geladeira vazia em São Paulo: renda e combate à pobreza fazem candidatos mudar discursosClaudio Gatti/. Em outras áreas, a preferência ideológica também calibra a avaliação do eleitor.

Em meio ambiente, por exemplo, há um empate numérico (47% a 47%) sobre quem é mais preparado, Lula ou Flávio. O investimento e a posição política de ambos no tema são diametralmente opostos.

O petista fez disso uma bandeira, fortaleceu agências ambientais, trouxe a COP30 para o Brasil e deu uma guinada no discurso externo sobre o assunto em relação ao que se viu nos anos Jair Bolsonaro. Flávio, por sua vez, tem dado pouca ênfase ao assunto na campanha.

No Parlamento, votou a favor de flexibilizar exigências ambientais e anunciou que seu eventual governo vai reorganizar as competências de órgãos como Ibama e ICMBio. Embora sejam bem-vindas as ideias dele a respeito da simplificação de alguns processos, esse tipo de discurso serviu de munição à campanha adversária para carimbar mais uma vez o bolsonarismo como inimigo do meio ambiente.

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  Os rumos da política externa brasileira tampouco fogem à polarização ideológica eleitoral.

O alinhamento aos Estados Unidos e a proximidade do clã Bolsonaro com Donald Trump são bandeiras de campanha de Flávio — não por acaso, a flâmula americana é exibida com frequência em manifestações bolsonaristas. Lula, por sua vez, apontou risco de intromissão de Trump no processo eleitoral para eleger o aliado e apostou no discurso de soberania nacional e na aproximação com a China, hoje o maior parceiro comercial do Brasil.

As duas posições antagônicas produziram mais um placar apertado: 47% consideram Lula o melhor para conduzir a política externa, enquanto 49% acham que é Flávio. “Mais do que eleitores, hoje temos duas torcidas movidas por paixões”, avalia Luiz Alberto de Farias, professor titular de opinião pública da USP.

Uma das consequências foi a dificuldade tanto de Flávio quanto de Lula de avançar sobre eleitores não alinhados aos dois lados da polarização. “As campanhas fracassam ao pregar para a grande massa de convertidos e deixar de lado o eleitor fora da bolha”, diz o cientista político Antonio Lavareda, do Ipespe.

PARCERIA - Lula e Xi Jinping, presidente da China: aliança política e econômicaRicardo Stuckert/. Continua após a publicidade

A divisão claramente ideológica sobre quem está mais pronto para lidar com diferentes temas também é consequência da estratégia dos candidatos de modular o discurso. Um exemplo são os programas sociais, historicamente uma área que alavancou Lula e a esquerda.

Na campanha, Flávio passou a defender benefícios criados pelo PT, como Farmácia Popular e Minha Casa, Minha Vida. Além disso, prometeu ampliar e reajustar o Bolsa Família.

Como consequência, igualou o jogo com Lula (48% a 48%) quando o assunto é quem é mais preparado para combater a pobreza e a desigualdade social. ALINHADOS - Flávio, Eduardo e Trump na Casa Branca: proximidade estratégicaReprodução/Truth Social/.

Outra meia-volta se deu quando Flávio votou pelo fim da escala de trabalho 6×1, projeto petista que ele havia tentado barrar no Congresso. O senador atribuiu a mudança ao fato de ser a “vontade da maioria do povo”, como de fato mostram as pesquisas.

Por outro lado, Lula, tardiamente, calibrou seu discurso em relação a um terreno onde vem perdendo eleitores: o do empreendedorismo. Flávio, que sempre teve discurso mais consistente nessa seara, anunciou o Ministério da Prosperidade.

Em reação, Lula apresentou um pacote de bondades para microempreendedores individuais. Continua após a publicidade

No geral, os dois candidatos tateiam em um universo profundamente cindido, como mostra a pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta 21. Ao responder à pergunta “Para você, o que é melhorar de vida?”, 65% dos eleitores de Lula disseram que era ter uma carteira assinada, enquanto 62% dos votantes em Flávio afirmaram que era abrir o próprio negócio.

“O empreendedorismo virou parte indissociável do debate sobre pobreza e renda. Há uma nova classe de trabalhadores autônomos que veem incentivos fiscais e alívio tributário como políticas de combate à desigualdade”, diz Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel.

Há também um componente histórico que ajuda a explicar por que os dois lados se entrincheiraram nos últimos anos. O racha ideológico em praticamente todas as áreas reflete um alinhamento cada vez maior dos brasileiros a pautas da direita, o que aumentou a confrontação com a esquerda em diversos temas.

Calculado anualmente pela Ipsos-Ipec, o Índice de Conservadorismo dos brasileiros chegou a 0,68 em 2026, maior marca em nove anos, em uma escala que vai de zero (totalmente progressista) a 1 (totalmente conservador). O indicador é puxado pelo maior aval da população à redução da maioridade penal, à prisão perpétua para condenados por crimes hediondos e à pena de morte — neste último, o apoio passou de 43% em 2025 para 52% neste ano (a maior taxa da história).

A proporção de eleitores que se enquadram em “alto grau de conservadorismo” cresceu de 49% para 55% no mesmo período. O resultado do fortalecimento da direita foi visto no primeiro turno, quando o PL de Flávio elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado e o maior número de governadores (cinco).

TENSÃO - 8 de Janeiro: prisões e condenações na JustiçaJoedson Alves/Agencia Brasil/. Continua após a publicidade

Um quadro sintomático do racha ideológico é exatamente a visão dos brasileiros sobre valores democráticos, algo que foi testado pelo estudo Pulse of Democracy, publicado em setembro pela Universidade Vanderbilt (EUA). Para 31% dos entrevistados, o princípio basilar da democracia é a liberdade, enquanto 30% apontam a igualdade como elemento principal e 22% dizem que é a aplicação devida da lei.

Não é difícil traçar paralelos entre as respostas e os discursos de campanha: historicamente, a agenda de esquerda é focada na tentativa de distribuição igualitária de renda e oportunidades, ao passo que a direita bolsonarista tem a liberdade como pilar de sua identidade — em ambos os lados, há insatisfação com a prática de ilegalidades e a impunidade.

DEBATE RUIM - Lula e Flávio na Band: primeiro confronto teve poucas ideias e muitos ataquesMaira Erlich/Bloomberg/Getty Images A fenda ideológica do país, ampliada pela cacofonia das redes sociais, é de fato um problema na hora de discutir qualquer tema relevante e, mais que isso, em alguns casos, pode ofuscar a visibilidade de eventuais concordâncias.

Um exemplo disso é que os eleitores, quando são questionados diretamente sobre pautas sem conexão com esse ou aquele candidato, demonstram um surpreendente consenso sobre temas diversos. Uma pesquisa Real Time Big Data publicada nesta semana indica que 90% da população apoia a redução da maioridade penal para 16 anos, enquanto 80% defendem a extinção de ao menos dez ministérios da máquina pública e 74% são favoráveis a uma ampliação do programa Farmácia Popular para incluir exames e acompanhamento médico entre os benefícios.

Outro ponto é que há uma certa demonização do eleitor do outro espectro que, muitas vezes, não corresponde à realidade. Um outro estudo, publicado em agosto pela Ipsos-Ipec, revela que apoiadores de Flávio e Lula têm grande dificuldade em avaliar as opiniões uns dos outros.

Por exemplo: 94% dos bolsonaristas disseram apoiar a igualdade salarial para homens e mulheres que exercem o mesmo cargo, mas os lulistas acreditavam que apenas 73% dos rivais endossariam essa ideia. Em outra etapa, os bolsonaristas estimaram que 72% dos eleitores de Lula concordariam que “a família é a base de tudo”, quando a concordância com essa afirmação entre os petistas chega a 95%.

“A polarização é alimentada não apenas por diferenças reais de opinião, mas sobretudo por percepções equivocadas sobre quem está do outro lado. Encontramos valores compartilhados, inclusive em temas que costumam ser apresentados como divisores”, diz Márcia Cavallari, head da Ipsos-Ipec.

POLÊMICAS - Operários em fábrica e fiscais do Ibama em ação: candidatos divergem sobre escala 6×1 e fiscalização ambientalJin Haoyuan/Xinhua/AFP e Vinícius Mendonça/Ibama/. A poucos dias do fim da disputa eleitoral, o fato inegável é que o clima de guerra de torcidas, o deserto de ideias ou a maneira açodada como várias “soluções mágicas” foram apresentadas no meio da campanha deixam a sensação de que o país perdeu a oportunidade de fazer da eleição presidencial, que deveria ser o ponto alto de um jogo democrático, uma arena para debates aprofundados — e não um fla-flu contaminado pela divisão ideológica do país.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018 Publicidade

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