Retirada da proposta da pauta virou palco de um embate antigo, que mistura regimento, STF, eleição presidencial e a sucessão na Casa em 2027 O que era para ser mais uma votação de PEC virou recado direto no plenário.
Na quinta-feira (15), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), tirou de pauta a PEC da Segurança Pública, e quando o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), perguntou se o recuo atendia a um pedido do governo, Alcolumbre respondeu que a decisão era exclusivamente da Presidência.
Marinho ironizou, dizendo ser bom saber disso porque seria preciso mudar o regimento. Quando Marinho repetiu que o regimento teria de mudar, Alcolumbre devolveu: “vamos mesmo”.
A troca de farpas durou segundos, mas condensa uma disputa que vem de longe e que tem como prêmio a cadeira mais poderosa do Senado. O gatilho foi a tentativa da oposição de pendurar a redução da maioridade penal no texto.
A emenda liderada por Marinho e pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reduzia a maioridade para 16 anos na maioria dos crimes e para 14 em casos de crimes hediondos, tráfico e organização criminosa. Marinho, vale lembrar, acumula a coordenação da campanha de Flávio.
A jogada expôs racha na base. Enquanto Camilo Santana (PT-CE) e parte dos governistas viam no tema uma chance de reforçar o discurso de Lula na segurança, a cúpula do PT temia que a emenda inviabilizasse a aprovação antes da eleição.
Há ainda um problema regimental: qualquer emenda ao texto faria a PEC voltar à Câmara, enquanto o Planalto queria aprovar a proposta sem mudanças de mérito, para promulgá-la rapidamente e criar o Ministério da Segurança Pública. Alcolumbre também reagiu à acusação de manobra.
Ele disse que retirava a PEC atendendo a quem o criticou por ter votado o calendário especial no meio da comemoração pelo fim da escala 6×1, para evitar pedido de verificação. Depois, avisou à líder do governo, Teresa Leitão (PT-PE), que não haveria sessões deliberativas na semana anterior ao segundo turno.
As leituras se dividem. Marinho acusou a Presidência da Casa de blindar o Executivo de um confronto desfavorável na reta final da campanha.
Já aliados de Lula avaliam que o adiamento impede que a maioridade penal seja usada para desgastar o presidente antes do segundo turno. O conflito não nasceu agora.
Em 2023, Marinho enfrentou Rodrigo Pacheco (PSD-MG) na eleição para a Presidência do Senado, e enquanto Pacheco entregou a articulação ao aliado Alcolumbre, Marinho visitou os colegas fazendo críticas ao amapaense. No discurso de candidatura, criticou sem citar nomes a condução de Alcolumbre na CCJ e a ideia de ele voltar a presidir a Casa.
A derrota teve custo: sem Marinho na presidência, o PL ficou fora da Mesa e, inicialmente, sem comando de comissões. A conta foi acertada em 2025, com uma trégua pragmática: após reunião da bancada com Jair Bolsonaro, Marinho, ao lado de Flávio, anunciou o apoio do PL a Alcolumbre, num acordo para garantir espaço na Mesa Diretora.
Alcolumbre foi eleito com 73 votos. A trégua ruiu na pauta que mais mobiliza o bolsonarismo: o Supremo.
Em setembro, Marinho disse que o regimento dá ao presidente do Senado um poder “desmedido” para barrar processos por crime de responsabilidade contra ministros do Judiciário, e anunciou que proporia mudanças. A proposta é que, quando 49 senadores assinarem o pedido, ele seja aberto imediatamente, independentemente da vontade do presidente da Casa.
Após a eleição, subiu o tom: acusou Alcolumbre de ter se “omitido” ao não dar andamento a mais de 100 pedidos de impeachment contra integrantes do STF. O “precisamos mudar esse regimento” do plenário, portanto, não é improviso é bandeira de campanha.
Outro episódio alimentou o desgaste: Marinho criticou a reunião entre Lula e Alcolumbre na casa do ministro Alexandre de Moraes, onde a sucessão no comando da Câmara e do Senado em 2027 esteve entre os assuntos. Alcolumbre quer continuar onde está.
Ele começou a articular a reeleição para 2027, e a estratégia é se equilibrar entre os polos. Já houve aceno à direita: segundo a colunista Andreza Matais, as articulações para derrotar a indicação de Lula ao STF passaram por um compromisso da direita e do Centrão de apoiar sua recondução.
E, do lado do governo, Lula pretende respaldar a permanência de Alcolumbre caso seja reeleito e o senador colabore com o Planalto. Sobre o STF, aliados dizem que ele já sinalizou que não dará andamento a pedidos de impeachment ainda neste ano, mesmo se Flávio vencer.
Marinho quer a cadeira. Ele tem interesse declarado na presidência da Casa, e o PL trabalha para isso: o partido quis que seus candidatos se comprometessem a não votar na recondução de Alcolumbre.
Cada embate público serve para desgastar o atual presidente e consolidar Marinho como o anti-Alcolumbre. O tabuleiro mudou com as urnas.
O PL praticamente dobrou de tamanho e terá 28 dos 81 senadores, e dos 32 senadores que buscaram a reeleição, só 14 se mantiveram. Novos nomes já entraram na briga: o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP) disse que não vota em Alcolumbre e citou Marinho e Tereza Cristina (PP-MS) como opções da direita.
Ainda assim, Alcolumbre não está fora do jogo. Aliados reconhecem que a renovação e o crescimento da oposição podem dificultar sua permanência, mas avaliam que uma vitória de Lula no segundo turno pode favorecê-lo.
Somados, os 28 do PL não bastam: são necessários 41 votos, o que torna o centro o fiel da balança. Na prática, o domingo (25) decide mais do que o Planalto.
O resultado presidencial vai definir se Alcolumbre segue como interlocutor preferencial do governo ou se Marinho chega a fevereiro com o vento a favor. Joice Gonçalves é repórter do ND Mais em Brasília, de onde acompanha de perto as movimentações do Congresso Nacional, os bastidores dos Três Poderes e os rumos das Eleições 2026.
Possui sólida experiência política, tendo acompanhado ativamente os pleitos eleitorais, tanto municipais quanto gerais, nas edições de 2018, 2020 e 2022. Além de escrever matérias sobre política, processo legislativo, sociedade e comportamento, produz conteúdos que explicam decisões do governo e seus impactos na vida do leitor.
Formada em Comunicação pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), atua no jornalismo desde 2021 e tem experiência em grandes redações multimídia de TV e portais de notícia, com produção multiplataforma e projetos especiais que envolvem articulações políticas e o poder público.
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