Arte Alex Silva/Valor Uma nova literatura feminina brasileira revelada na última década se apoia em temáticas comportamentais, sociais e políticas.
Escritoras como Carla Madeira, de 62 anos; Socorro Acioli, 51; Aline Bei, 39; e Mariana Salomão Carrara, 40, conquistaram um público que faz fila para vê-las em eventos como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ou as bienais do Rio e de São Paulo, onde, além de garantir fotos e exemplares autografados, as ouve em palestras e debates.
Paralelamente a essas autoras inspiradas pelas pautas da atualidade, uma outra leva de escritoras também arrasta multidões depois de ter despontado com obras voltadas a jovens que não se viam representados no mercado editorial. Algumas delas, como a fluminense Ariani Castelo, 27; a paulista Ray Tavares, 33; e a paranaense Adrielli Almeida, 28, formam uma safra que despontou na internet e alcança a identificação do leitor com tramas de diferentes perfis, mas marcadas por leveza, pertencimento e a esperança da superação.
A editora-executiva Rafaella Machado, de 40 anos, dos selos Galera e Verus, da Record, líder no segmento jovem, afirma que houve uma transformação na última década devida ao avanço da internet e das redes sociais. Entusiasmados com fenômenos como as séries “Harry Potter”, da britânica J.
K. Rowling, e “Crepúsculo”, da americana Stephanie Meyer, os editores brasileiros passaram a ouvir os jovens que, com menos interação social, ainda mais depois da pandemia, buscam viver experiências por meio da literatura.
Segundo Machado, a ficção serve como ferramenta de construção da empatia e, diante de atividades presenciais menos frequentes, ajuda na descoberta de formas de vida e culturas diversas. “Essa bagagem vai amadurecer com eles e, com o tempo, os jovens se interessarão por obras de Gabriel García Márquez ou Carla Madeira”, aposta Machado.
“Quem lê histórias de fantasia encontra mais facilidade para uma imersão no realismo mágico.” A paulistana Babi A.
Sette, de 47 anos, escreveu o primeiro romance, “Entre o amor e o silêncio”, em 2014, e fez sucesso com “A aurora da lótus” (2021), ambientado no Egito Antigo e protagonizado por sacerdotes, generais e escravas. Desde então, publicou outros dez títulos, como “O beijo da neve” (2023), que superou 100 mil cópias comercializadas.
“Eu falo de luto, abandono parental e disputas de poder com leveza”, diz. “Como escritora, sou a mesma menina apaixonada por contos de fadas que procura um alívio para o cotidiano.”
O mais recente livro de Sette, “Meu mafioso favorito”, lançado em agosto pelo selo Verus, da Record, enfoca o amor improvável entre um contraventor e uma atriz na Chicago dos dias atuais. A autora conversa com os leitores por meio das redes sociais e procura descobrir quais temas despertam a curiosidade deles.
“Em meio a tantas telas e opções, o desafio é conquistar o tempo das pessoas”, afirma. “Cuido do marketing dos meus livros e me inspiro nessa troca de informações.”
Os jovens não se interessam mais por personagens tão éticos e idealizados” Conectada com as possibilidades da internet, a fluminense Ariani Castelo, de 27, tornou-se best-seller com “O abismo de Celina” (2023) e o recente “Coração de cristal partido”, editados pela Rocco, superando os 30 mil exemplares vendidos.
Para divulgar as obras, a autora dispara quinzenalmente uma newsletter, criou páginas específicas de cada livro e construiu uma comunidade de fãs que discutem suas ficções. “A internet eliminou as barreiras entre autor e leitor e alavanca as vendas”, diz.
“Quando um jovem posta um conteúdo sobre uma obra e viraliza, não ficamos reféns de divulgações burocráticas.” “O abismo de Celina” enfoca uma garota que enfrenta o reino da morte e “Coração de cristal partido” traz uma princesa que se alia a um vilão para se vingar de quem tentou enfraquecer os seus poderes.
“Os jovens não se interessam mais por personagens tão éticos e idealizados”, explica Castelo. “Falo isso por mim porque, aos 14 anos, comecei a escrever histórias em fanfics, já que não me identificava com a literatura para a minha idade.”
Fanfics são formas de escrita independentes amplificadas no Brasil a partir da popularização do Orkut, a pioneira da febre das redes sociais, no começo da década de 2000. Nelas, o desfecho de narrativas e o destino de personagens já existentes eram remodelados pelos internautas.
Foi nesse contexto que a paulista Ray Tavares, de 33 anos, testou a vocação que a consagraria com o romance “Os doze signos de Valentina”, publicado em 2017 pelo selo Galera e inspiração para uma série da Netflix que estreia em dezembro. A trama, que rendeu cinco continuações e cobriu a protagonista dos 15 aos 30 anos, mostra uma garota que aposta na astrologia para encontrar o namorado ideal.
“Confissões de uma ex-popular” (2019), sobre os desafios de uma garota expulsa da escola, e “O roteiro do amor” (2025), que mostra o romance entre dois adaptadores de um livro para o cinema, são outros sucessos de Tavares. “Percebi que a expectativa do primeiro beijo já tinha ficado no passado e o jovem queria saber como poderia ser a primeira decepção amorosa ou a demissão do trabalho”, afirma Tavares, que ainda se destaca como roteirista de séries e filmes.
“A literatura brasileira tem uma produção infantil e infantojuvenil impecável, mas deixou por décadas o jovem carente.” A paranaense Adrielli Almeida, de 28 anos, reconhece que desenvolveu um estilo graças ao exercício nas fanfics.
Leitora obcecada da série “Crepúsculo”, ela conta que vem de uma família humilde e a internet tornou a escrita uma atividade possível. “Os autores saíram de uma caverna, se livraram de um mercado restritivo, e a gente recebia retornos imediatos de quem nos lia”, comenta.
“Mas o meu objetivo sempre foi chegar ao livro físico, que, devido ao controle das telas, voltou a ser tendência.” Há uma safra de escritoras que despontou na internet e alcança a identificação do leitor com tramas de diferentes perfis, mas marcadas por leveza, pertencimento e a esperança da superação
Arte Alex Silva/Valor O romance “Enquanto o universo não desmoronar”, publicado pela Rocco em 2024, aborda a aproximação de dois jovens traumatizados pelo luto.
Seu mais recente livro, “Perfeitos estranhos” (2025), lançado pela Globo Livros, é sobre uma garota traída pelo namorado que tem o dom de enxergar o destino dos outros. Questionada sobre o desejo de migrar para os livros adultos, Almeida garante que a sua vocação é se comunicar com os adolescentes.
“Temos grandes autores infantis que passaram a vida escrevendo para as crianças, e ninguém cobrou deles uma mudança”, observa. “É um preconceito de que só autores jovens compreendem leitores jovens.”
A mineira Daniella Vinci, de 33 anos, venceu o concurso “Livros do Futuro”, promovido pelo TikTok Brasil para revelar autores, com sua obra de estreia, “Cinco, seis, sete, oito”. Lançada pela Globo Livros em abril, a história traz o encontro cheio de rivalidades entre Lara, uma bailarina clássica que sofre um acidente, e Michel, um dançarino de hip-hop.
“É uma trama sobre recomeços e incertezas, questões da adolescência que perseguem os adultos”, diz Vinci, que desbancou 2.500 concorrentes. Construída sob dois pontos de vistas, os de Lara e Michel, a história busca uma pluralidade de vozes, algo que pode ser visto como um sintoma das redes sociais.
A transformação recente, segundo Vinci, é que a leitura, antes vista como atividade solitária, passou a ser coletiva, com o compartilhamento de informações em tempo real. “A internet virou um clube do livro que socializou a leitura”, compara.
“O leitor não é mais aquela pessoa passiva no sofá e rejeita tramas com visões unilaterais.” Clara Alves, carioca de 33 anos, confessa que se acostumou tanto com o retorno imediato da internet que estranhou a transição para o livro físico.
Para ela, literatura sempre representou acolhimento. Porém, o sucesso de “Conectadas” (2019), publicado pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras, a fez entender que suas narrativas também serviam de apoio aos leitores.
“Eu me entendi bissexual durante a escrita de ‘Conectadas’”, afirma ela, que vendeu mais de 100 mil exemplares em sua estreia. “Lendo o livro, no isolamento da pandemia, muitas meninas se sentiram espelhadas.”
“Conectadas” mostra a relação entre duas garotas que se aproximam como avatares em jogos eletrônicos e não sabem o gênero uma da outra. O livro seguinte, “Romance real” (2022), tem duas jovens que se conhecem em Londres, e o mais recente, “Cupidos não se apaixonam” (2025), traz uma protagonista que, ao tentar aproximar duas amigas, se interessa por uma delas.
“Quem está por volta dos 30 cresceu sem ter uma biografia LGBTQIAPN+”, afirma Alves. “O adolescente quer ler sobre o que eles são naquele momento, e tenho conversado com um público cada vez mais jovem, de 13 ou 14 anos, que conheço em grandes eventos.”
Devido à repercussão das séries “Fazendo meu filme”, publicada entre 2008 e 2012, e “Minha vida fora de série”, desenvolvida desde 2011, a mineira Paula Pimenta, de 51 anos, se transformou em fenômeno e foi editada em países da Europa e América Latina. Com 20 títulos lançados em duas décadas, ela vendeu 2,5 milhões de exemplares e, somente na 28ª Bienal do Livro de São Paulo, em setembro, comercializou 2.700 cópias do recém-lançado “A música da minha vida”.
“Eu comecei a escrever os livros que queria ler e não existiam na minha adolescência”, conta. “O jovem que descobre a literatura como entretenimento vira leitor para a vida.”
O novo romance, editado pela Gutenberg, selo do Grupo Autêntica, usa a metáfora da música para apresentar uma adolescente que entende que cada um deve compor a sua trilha sonora. A história traz de volta personagens de “Fazendo meu filme” e “Minha vida fora de série” e propõe morais como a de que a tristeza tem valor para o amadurecimento.
“Não faz sentido enxergar o adolescente com o preconceito do ‘aborrescente’, comum na minha geração”, afirma Pimenta. “Enquanto não espelharmos a voz e a imagem deles, vamos continuar reclamando de que a garotada não gosta de ler - o que não é verdade.”
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