Abraço de afogados

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Mendonça e Nunes Marques pagarão pelos descalabros jurídicos cometidos nas eleições e serão investigados pelas suspeitas no Caso Master? Passada a euforia eleitoral, a escancarada “mãozinha” que os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, deram à candidatura derrotada de Flávio Bolsonaro à Presidência da República voltou a ser tema de conversas e decisões em Brasília.

Embora o clima predominante seja o de olhar para a frente e arregaçar as mangas para a formação do governo Lula 4, já se discute nos corredores do Congresso Nacional e do próprio STF se a dupla bolsonarista pagará pelos descalabros jurídicos e será investigada pelas suspeitas que os envolvem no Caso Master.

A equação é complexa e envolve também a escolha do comando do Senado no próximo biênio, além das situações dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, alvos preferenciais da bancada do PL, partido que terá um terço da Casa a partir de 2027. Em seu último despacho do mês de outubro, o presidente do STF, Edson Fachin, determinou a devolução do Caso INSS a Mendonça.

Isso significa o controle de todos os autos e procedimentos relativos à Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos indevidos nos contracheques de aposentados e pensionistas do instituto. Uma das investigações na operação envolve Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente reeleito.

Ao atender o pedido de devolução feito por Mendonça, Fachin afirmou que não existem elementos concretos para a manutenção dos procedimentos sob a responsabilidade da presidência do tribunal. “Não há demonstração de circunstâncias específicas que justifiquem o afastamento das regras ordinárias de distribuição dos processos”, observou Fachin.

As visitas feitas por Daniel Vorcaro ao Instituto Iter jogam o ministro “terrivelmente evangélico” no redemoinho de suspeitas A decisão reacendeu nos bastidores do STF a discussão sobre como lidar com a notória parcialidade em prol da candidatura de Flávio demonstrada pelos dois ministros bolsonaristas nas semanas que antecederam as eleições, inclusive no Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Nunes Marques.

Apesar das tentativas de apaziguamento entre as alas do Supremo empreendidas por Fachin, uma das cartas na mesa é a possibilidade de surgimento de novas denúncias que levem os ministros a uma situação insustentável. “É um caso complexo e Fachin não tem ainda uma solução.

Aparecendo mais denúncias, com certeza isso pode apressar alguma medida mais individualizada contra algum deles. Hoje é impossível dizer qual será o final dessa história”, diz uma fonte do STF.

Essa ambiguidade é revelada em outra decisão de Fachin. Ao mesmo tempo que devolveu a Mendonça o Caso INSS, decidiu manter sob seu próprio comando por mais 90 dias o Caso Master e sua operação correspondente, a Compliance Zero, apesar do pedido de devolução feito pelo colega.

Fachin determinou à Polícia Federal que apresente um relatório com todas as referências a ministros do Supremo nas investigações sobre as fraudes perpetradas pelo banco de Daniel Vorcaro, mas o presidente do STF tem fugido do documento para evitar submetê-lo ao plenário. O desfecho provável ventilado no tribunal é o desmembramento das investigações para que o caso dos diversos ministros citados no inquérito do Master seja tratado separadamente.

A devolução do Caso Master ao antigo relator, no entanto, jamais acontecerá. As visitas feitas por Vorcaro ao Instituto Iter, criado por Mendonça em 2023, após sua chegada ao STF, jogam o ministro num redemoinho de suspeitas.

A instituição de ensino, “dedicada à formação e capacitação de profissionais através de cursos de alta qualidade, desenvolvidos por especialistas reconhecidos em suas áreas de atuação”, firmou cinco contratos com entidades privadas ligadas a recursos de institutos de previdência aportados de forma temerária por governos estaduais bolsonaristas no Master.

Um levantamento feito pela revista Piauí a partir de dados do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e do Portal de Transparência da Controladoria-Geral da União revela que 30 municípios paulistas que contrataram o Iter receberam emendas do deputado Cezinha de Madureira, do PL, que é sócio do instituto.

Esses municípios empenharam 1,45 milhão de reais no Iter e receberam 59 milhões de reais em emendas de Cezinha. Um cunhado de Mendonça, José Nagliatti, é secretário parlamentar no gabinete do deputado.

Entre maio de 2024 e setembro de 2026, o Iter faturou 12 milhões de reais em contratos, com uma carteira de clientes que inclui o governo e a prefeitura de São Paulo. Nenhum dos contratos prevê remuneração pessoal a Mendonça, que anunciou seu desligamento do Iter quando faltava apenas um mês para as eleições.

No caso de Nunes Marques, a avaliação é que suas ações em série no comando do TSE que favoreceram a candidatura de Flávio podem facilitar uma eventual punição. Os gestos amigos ao candidato do PL compõem uma lista que vai de suspensões de pesquisas eleitorais, passa pelo pedido de retirada do ar do canal “Exército do Lula”, que reuniu 10 milhões de participantes e foi decisivo para a vitória do petista, e chega à inércia diante das denúncias de falta de ônibus em diversas cidades no dia de votação do segundo turno.

Entre os pares, prevalece a visão de que, não fosse a intervenção do colegiado do TSE, o resultado das eleições poderia ter sido maculado pela ação de seu presidente. “Foi o colegiado que assegurou que a disputa transcorresse dentro das regras do jogo democrático”, disse o ministro Gilmar Mendes.

Sem mencionar o nome de Marques, o decano do STF foi duro na crítica: “De quem está na condução do órgão que organiza o pleito espera-se postura de árbitro equidistante, como pressupõe a Constituição”. A falta de ônibus no segundo turno da Bahia foi ignorada por Nunes Marques – Imagem: Manu Dias/GOVBA

No âmbito do STF, Nunes Marques ainda tem de explicar a relação de seu filho Kevin com o Banco Master. O jovem advogado, segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, recebeu um pagamento de 281 mil reais por um serviço de consultoria prestado ao banco de Vorcaro.

Outro flanco aberto do ministro diz respeito às denúncias de que teria aceitado alguns mimos da parte de Vorcaro, em um pacote que incluiu encontros com prostitutas de 10 mil reais. “A postura de ambos nesse processo eleitoral é extremamente questionável.

A maneira como Mendonça tocou os processos do Master e do INSS, escondendo dados e não revelando coisas que seriam muito importantes para a própria avaliação do eleitorado em relação aos candidatos, demonstra parcialidade, assim como sua participação nas decisões do TSE”, observou o senador reeleito Humberto Costa, do PT.

O caso de Nunes Marques, diz o parlamentar, é ainda pior: “A forma como tratou as denúncias em relação à Meta, a propagação de fake news e os nossos espaços de mobilização digital colocam uma dúvida muito forte quanto às intenções que ele tinha em relação ao processo eleitoral”. Também pesa contra Nunes Marques a existência da “turma do KN”.

A expressão surgiu quando veio a público um contrato com previsão de pagamento de 427 milhões de reais pelo Master ao escritório da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da Primeira Região. O casal faz parte do círculo de amigos mais próximos da família do ministro e, nas mensagens trocadas entre Vorcaro e um de seus auxiliares, é identificado como integrante da “turma do KN”.

O grupo e o ministro são diversas vezes mencionados em mensagens extraídas pela PF de um dos celulares do banqueiro. “A turma do KN me mandou seis nomes para colocar na lista do camarote”, diz Vorcaro em um diálogo ocorrido durante o carnaval do ano passado.

Em outra mensagem, o auxiliar diz que “o ministro Kassio pediu uma tarifa promocional no Fasano”, hotel de alto padrão. Nunes Marques tem de explicar a relação de seu filho Kevin com o Master.

Segundo o Coaf, o advogado recebeu 281 mil reais por consultoria O PT ainda não discutiu como vai proceder, mas promete recorrer à Justiça para que esta defina se cabe algum tipo de correção em relação a Mendonça e Marques.

“Os processos estão sendo preparados. Já há um encaminhamento que vai tratar da postura da Meta e, certamente, haverá algum tipo de representação que possa colocar em escrutínio a postura desses dois juízes no processo eleitoral”, diz Costa.

Líder do PT no Senado, Teresa Leitão afirma que a bancada “não discutiu essa questão ainda”, mas diz ser “público e notório” que no último período o STF passou a ser um ator político na cena nacional. “Para além do momento conjuntural e de posturas de ministros, o STF precisa ser preservado e enxergado como a mais alta Corte do País.

Cabe no momento uma discussão sobre a reforma do sistema jurídico, incluído, evidentemente, o STF”, destaca. O deputado federal reeleito Rogério Correia, do PT, classifica as atuações de Nunes Marques e Mendonça como “um desastre”, mas diz que a solução pode não ser a punição para A ou B, e sim a adoção de regras mais claras para o funcionamento do Supremo e do Poder Judiciário.

“Acho que tanto Moraes quanto Toffoli também tiveram problemas muito sérios. Sua relação com Vorcaro precisa ser investigada, assim como a de outros ministros do STF que também tiveram envolvimento com o Banco Master”, avalia Correia.

Também reeleito pelo PT, o deputado Carlos Zarattini diz que o destino dos ministros está umbilicalmente ligado à situação política no Congresso a partir do ano que vem. “Antes de discutir impeachment, precisamos reeleger o Davi Alcolumbre.

O foco é formar uma maioria antibolsonarista na Câmara e no Senado.” Com o início da próxima legislatura e um cenário no qual o PL terá influência tanto na escolha dos próximos nomes a integrar o STF quanto na condução de eventuais pedidos de impeachment a ministros, não está descartado um grande acordo que livre de uma só vez todos os ameaçados.

“A situação de Moraes e de Toffoli melhorou, por incrível que pareça, porque já estão condicionando o destino de um e de outro ao destino do Nunes Marques, que está mais na berlinda”, diz uma fonte do STF. Fachin tem fugido do relatório da Polícia Federal que trará todas as menções a ministros nas investigações da fraude perpetrada pelo Master

Já o caso de Mendonça ainda é uma incógnita, porque há elementos que precisam ser mais bem explicados. “Ele se afastou do Iter, mas o que se achou até o momento em relação ao caso o compromete muito.

Os senadores da direita não são bobos e estão jogando nessa perspectiva: se mexer do lado de cá, tem de mexer do lado de lá. A realidade é que a situação de ninguém é tranquila.” Um parlamentar, que pede anonimato, diz que a solução já pode estar no forno: “O que parece é que se arma uma pizza gigantesca.

Vai ser difícil que haja impeachment para cada um deles”. Fundado quando Mendonça já era ministro do STF, o Instituto Iter é citado no Caso Master – Imagem: Redes Sociais/Instituto Iter

Nesse contexto, a expectativa no PT é que o próprio Supremo possa encontrar uma saída. “E esta saída, necessariamente, é a de investigar todo o mundo, desde o resort Tayayá da família Toffoli, passando pelo contrato de trabalho da mulher de Moraes com o Banco Master e pelas questões relativas a Mendonça e Nunes Marques, que também têm relações promíscuas com Vorcaro”, diz um integrante do Diretório Nacional do partido.

A possibilidade de impedimento de algum ministro no Senado também dependerá de uma definição política. “Se alguém quiser impedir Moraes no Senado sem que antes tenha havido esse processo no Supremo, aí, com certeza, vão ter de entrar na dança também o Mendonça e o Nunes Marques.” •

Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026. Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Abraço de afogados’

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