Protótipos de Rosies

Protótipos de Rosies - Foto
Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Brasileiras trabalham até dez horas por dia para impulsionar a corrida pelo robô doméstico perfeito A empregada doméstica Francisca*, que vive em Ilhéus, na Bahia, escolheu dedicar-se exclusivamente aos cuidados dos três filhos e da casa, mantendo-se apenas com a renda do marido.

Quando uma colega lhe mostrou um post do Instagram que oferecia o trabalho de filmar as próprias atividades domésticas recebendo 4 dólares por hora, percebeu a oportunidade de ter um salário sem precisar abrir mão das próprias escolhas. Ela então se cadastrou na KGeN, uma das quatro plataformas que contratam mão de obra para treinamento de Robot IA e a cujo grupo interno de mensagens a reportagem de CartaCapital teve acesso.

As trabalhadoras concordaram em conversar com a revista, desde que não fossem identificadas, pois temem perder o cadastro e a oportunidade de continuar prestando o serviço. Após improvisar um top de ginástica para fixar o celular na testa, Francisca iniciou as filmagens e passou a registrar o preparo de alimentos e a limpeza da casa ao longo de cinco horas diárias.

Cada dia trabalhado lhe rendeu 125 reais, pagos a cada 72 horas. A doméstica se empolgou e intensificou os trabalhos.

“A pessoa vê que o dinheiro é real e pode chegar ao ponto de passar o dia inteiro com a câmera ligada”, descreve. Mas, em pouco tempo, a alegria deu lugar à culpa.

Após uma intensa semana, percebeu que havia se afastado dos filhos. Deixava o mais novo sob os cuidados do mais velho e se dedicava aos registros para aumentar o lucro.

“Se eu gravasse três horas por dia, já ganhava mais do que na CLT”, compara. Mesmo vendo vantagens, reduziu as gravações a uma hora por dia, pois sentiu que estava ficando ausente da vida da família.

Francisca improvisou um top de ginástica para fixar o celular na testa e registrar o preparo de alimentos e a limpeza da casa por cinco horas diárias A doméstica integra a maioria da mão de obra feminina de um universo de quase 12 mil trabalhadores do mercado de treinamento de robôs programados por Inteligência Artificial no Brasil, protótpios de Rosie, a doméstica de aço do desenho animado futurista Os Jetsons.

Os dados não são consolidados, mas esse é o contingente acompanhado pelo estudo Autoetnografia e a Economia Afetiva do Trabalho com Dados de IA no Sul Global, realizado pelo Laboratório de Trabalho, Plataformização e Saúde da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná. Autor do estudo, o pesquisador Matheus Viana Braz filma a própria rotina doméstica há um ano e já acumula 40 horas de produção.

Ele explica que as imagens geradas por esse mercado são “dados egocêntricos”, produzidos por trabalhadores que utilizam câmeras acopladas à cabeça para registrar movimentos e interações físicas, e destinam-se ao aprendizado de robôs por imitação. Os Estados Unidos e a China disputam a produção de um robô humanoide com desempenho perfeito em tarefas domésticas.

“A corrida por esse feito tem alimentado esse mercado, que teve um boom na Índia e agora migra para o Brasil”, resume Viana. A perspectiva é de expansão incentivada por “investimentos da ordem de 1,5 bilhão a 50 bilhões de dólares nos próximos anos”, além dos 30 milhões de reais anunciados pela KGeN e a Humyn Labs, em junho de 2026”, complementa o pesquisador.

As trabalhadoras são contratadas por quatro empresas: KGeN, Hub, MimixAI e Claru, que atuam como intermediárias da Baker Data, empresa de San José, Califórnia, no coração do Vale do Silício, maior polo tecnológico do mundo e dona do Minute, aplicativo que canaliza todas as imagens produzidas no Brasil.

Diretor-executivo do Data Privacy, o pesquisador Rafael Zanatta explica que essas gigantes da tecnologia têm mirado países do Sul Global por terem ampla economia informal, uma população conectada com dispositivos, além de mão de obra barata e acessível para captar esses dados. O Brasil possui uma cultura de trabalho precarizado, uberizado e marcado por acentuada divisão sexual.

As mulheres dedicam 9,6 horas a mais ao trabalho doméstico do que os homens, diz o IBGE, explicando a presença majoritária delas nesse mercado. As mulheres passam, em média, até dez horas filmando atividades domésticas, diz o autor do estudo.

Yasmin Curzi, professora de direitos humanos da Fundação Getulio Vargas Direito, no Rio de Janeiro, avalia que esse mercado está valorizando, “de forma irônica”, o trabalho de cuidado. “Agora passa a ter valor de mercado como dado de treinamento, mas o lucro vai ficar com as empresas”.

Joyce*, de 45 anos, sobrevivia vendendo bala nos sinais de trânsito de São Paulo. Ela, que cursou até o 6º ano do ensino fundamental, decidiu mudar-se com o marido para Mongaguá, no litoral paulista, pois não via muitas oportunidades para melhorar de vida.

Aficionada por limpeza, afirma que sempre gostou de fazer serviço doméstico. Sua filha a inscreveu na KGeN e, em setembro, ela iniciou as jornadas de filmagens, das 8 às 11 horas.

Esse tempo máximo de trabalho ocorre quando “é aquela faxina pesada”, conta. Trabalhador da plataforma KGeN mostra a marca na testa causada pelo suporte de celular usado para a geração de imagens domésticas – Imagem: Redes Sociais

Após sofrer com a informalidade nas ruas de São Paulo, Joyce, que hoje fatura entre 2,8 mil e 3,5 mil reais, encara as filmagens como a melhor oportunidade da vida. “Quando faltava algo em casa, eu dizia: ‘Vou me matar’.

Hoje, graças a Deus, entra dinheiro para eu poder ir no mercado. Está me ajudando, tanto na vida financeira quanto na parte pessoal”, conta.

Recentemente, ela passou por uma cirurgia de tireoide e precisou reduzir as horas de trabalho. Em meio à recuperação, se diz angustiada com notificações que informam que gravações já quitadas foram registradas com a câmera na posição incorreta.

“Mas esses vídeos estão do mesmo jeito que sempre gravei”, defende-se. Ela diz sentir-se ainda mais angustiada porque a notificação vem de um robô, com quem não pode argumentar.

“Receber a mensagem e não ter um contato telefônico, uma pessoa com quem eu possa falar, me deixou muito mal e eu corro o risco de não ter mais a minha renda”, lamenta. Clara*, do Rio de Janeiro, exibe orgulhosa, no grupo de trabalho, as horas que consegue filmar diariamente na plataforma.

Surpresas e ávidas por uma dica preciosa, as colegas, que tentam ampliar a produção, perguntam como ela consegue essa marca, já que a rotina diária de uma mulher é repleta de outras obrigações. “Sou doméstica, gravo no trabalho e em casa”, esclarece.

A patroa de Clara não sabe que o seu ambiente doméstico está sendo filmado e comercializado em contratos de cláusulas perpétuas. Zanatta enxerga irregularidades a partir do momento que as empresas não apresentam informações claras sobre quem são os controladores dos dados e qual a sua finalidade específica.

Ainda segundo ele, “não há transparência sobre o ciclo de vida desses dados, pois as pessoas assinam contratos perpétuos, sem possibilidade de eliminação”, observa. “As pessoas assinam sem ter noção de que estão consentindo”, diz o diretor do Data Privacy, enquanto frisa que os designers colocam dark patterns, recursos que se valem de padrões psicológicos e da falta de atenção para fazer o usuário tomar decisões que beneficiam a empresa e não o usuário.

“Sem clareza da finalidade, esses dados podem ser usados para outros propósitos sem que ninguém saiba”, conclui. Ao ser questionada se teme quanto ao uso de seus dados, Francisca responde que nem um pouco: “Eu já posto no Instagram sem ganhar nada.

Aqui meus filhos nem aparecem, só minhas mãos”. Para a professora da FGV, o que essas mulheres, na prática, estão fazendo é uma terceira jornada de trabalho, como produtoras de dados, sem remuneração adequada.

“A oportunidade de renda para quem não tem emprego formal, que embala essa oportunidade, é, obviamente, precarização, como grande parte dos trabalhos de dados que permitem às plataformas pagar por tarefa, sem vínculo empregatício nem proteção social”, afirma. “O jeito como alguém cozinha ou arruma a casa é fruto de anos de experiência.

Esses dados inerentes à personalidade não podem ser comercializados a perder de vista”, diz Rafael Zanatta Já Zanatta avalia que a estratégia desse mercado é eliminar a consciência de classe trabalhadora desses profissionais.

Ou seja, “é uma plataformização neoliberal atomizada, em que as pessoas são mantidas sem voz, numa pura relação de consumo, não se sentem trabalhadoras na indústria de robótica”, resume. Ele defende que as empresas poderiam contratar associações de colaboradores, negociar termos mais justos nos contratos, criar canais para as pessoas conversarem, a exemplo de plenárias online.

Mas, ao contrário, as pessoas ficam sozinhas, negociando com um contrato de adesão, feito por uma empresa com advogados da área de serviço. “Não tem negociação, é uma assimetria de poder completa”, conclui.

Por fim, o especialista explica que “já há inventário suficiente para que a Agência Nacional de Proteção de Dados atue na regulamentação desse mercado”. A forma como as empresas atuam, segundo Zanatta, “violam diversos artigos da Lei Geral de Proteção de Dados”.

Com a regulação, as pessoas poderiam formar sindicatos e associações da categoria, obrigando as grandes empresas a fazer acordos de licenciamento. Nesse arcabouço, ele propõe que “o direito à personalidade componha o repertório de regulação”, pois considera que essas pessoas estão compartilhando habilidades que dizem respeito às suas identidades.

“O jeito como alguém cozinha, como arruma a casa, é fruto de anos de experiência. Esses dados inerentes à personalidade não podem ser comercializados a perder de vista”, acrescenta.

Já Curzi explica que a ANPD pode agir porque essas gravações expõem a intimidade dessas mulheres e de terceiros que não consentiram. “Mas o mínimo seria garantir remuneração justa e limites de jornada”, recomenda.

Não há no Congresso Projetos de Lei que tratem do mercado de treinamento de dados. A recomendação dos especialistas é que a pauta deveria ser abordada na regulamentação das big techs.

Em nota, o coordenador nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do MPT, Rodrigo Castilho, informou que criou o “Projeto Estratégico Nacional Trabalho Decente em Plataformas Digitais de Cloudwork”, que visa “assegurar que o trabalho realizado por meio dessas plataformas observe os direitos fundamentais dos trabalhadores”.

Afirma ainda que o MPT pode ser acionado por meio de denúncias presenciais ou pelo site. •

Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026. Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Protótipos de Rosies’

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Publicação Original Carta Capital cartacapital.com.br
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