'Vote em quem quiser': em busca de virada no Rio, ex-prefeito amplia distanciamento de Lula e retoma mote 'BolsoPaes'

'Vote em quem quiser': em busca de virada no Rio, ex-prefeito amplia distanciamento de Lula e retoma mote 'BolsoPaes' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Pressionado pelo resultado do primeiro turno, Eduardo Paes (PSD) tenta modular estratégias no duelo contra Douglas Ruas (PL), que ficou muito perto de fechar a disputa pelo governo do Rio já no último domingo — na verdade, o segundo turno pode nem acontecer a depender do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que delibera nesta quinta-feira sobre a candidatura de Anthony Garotinho (Republicanos).

Para tirar a diferença de mais de meio milhão de votos a favor do adversário, aliados do ex-prefeito da capital defendem da tática "BolsoPaes", que prega uma escolha casada com a pelo bolsonarismo no estado. Oficialmente, Paes apoia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto, mas passou o primeiro turno tentando não se vincular tanto ao postulante à reeleição.

No Rio, estado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o senador recebeu 53,01% dos votos válidos no primeiro turno, contra 39,41% do petista — uma diferença de quase 14 pontos percentuais, portanto. Ao longo da campanha, Ruas apostou na associação direta ao correligionário como principal trunfo.

Nos últimos dias, integrantes do "núcleo duro" do ex-prefeito do Rio divulgaram nas redes sociais uma cartilha na qual defendem que o eleitor "vote em quem quiser" para presidente. Segundo interlocutores, a orientação aos aliados de Paes é fazer "uma campanha de vereador", com foco nas ruas e no direcionamento do pedido de voto para cada base, usando inclusive nome e foto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), se for necessário.

Elaborada por um movimento ligado à juventude, a cartilha trata especificamente da corrida presidencial, pedindo que os apoiadores de Paes não discutam sobre a polarização nacional entre Flávio e Lula, já que "essa briga não muda o voto de ninguém". Entre os nomes que compartilharam as orientações estão o secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, Didi Vaz, e o CEO do Centro de Operações e Resiliência Rio, Thiago Curvello.

O grupo de mobilização jovem chegou a participar de um ato com petistas no Centro do Rio nesta quarta-feira. Houve, porém, um pedido de alguns militantes para evitar associar Paes a Lula em regiões nas quais o presidente não teve votação expressiva.

Paes nega que os movimentos tenham gerado algum mal estar com o presidente Lula, creditando os rumores de que o petista teria ficado descontente com a falta de apoio do aliado no primeiro turno a "intriga" e "ciúme". Segundo ele, os dois se falaram ao telefone nesta terça-feira e tiveram uma conversa "maravilhosa":

— Teve gente que votou no Siri (William Siri, candidato do PSOL), tem gente que votou no cara do PCO ou que apertou 13 para governador e eu não estou dando crise. Não estou nem aí para queixinha, o meu diálogo é direto com o presidente.

Fofoqueiros do PT de plantão, podem ficar vazando notinha, eu não vou me patrulhar um minuto. Paes tem pedido abertamente o voto dos eleitores de Flávio Bolsonaro lembrando que tem em sua aliança políticos ligados ao clã, como a família do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, que indicou sua irmã como vice da chapa, Jane Reis.

— Quem vota no Bolsonaro, por favor, vota em mim também, porque vou ser melhor para o Rio de Janeiro. Para eu ganhar a eleição eu não posso só me restringir ao voto do Lula.

O meu apoio é do presidente, eu tenho muita gratidão por toda a ajuda dele para o Rio, mas já disse que não sou do PT, não penso tudo igual ao Lula e não sou um vassalo do Lula e nem do Bolsonaro. A minha vice vota no Flávio Bolsonaro.

A gente tem que parar de ficar especulando, ficar fazendo fofoquinha, porque eleição presidencial não tem nada a ver com eleição para o estado do Rio de Janeiro — disse Paes durante caminhada na Rocinha na manhã desta quarta-feira, prometendo ainda estar presente nas agendas de campanha de Lula no Rio: — Já estamos marcando.

Vamos ter encontro e comício, ele está louco para ir para a Baixada. Petistas minimizam

Marcelo Freixo (PT-RJ), reeleito deputado federal, afirma não ter incômodo com as declarações de Paes a eleitores bolsonaristas, evitando analisar a estratégia de campanha do ex-prefeito, mas cobrando ao mesmo tempo adesão do candidato ao governo estadual à campanha nacional de Lula:

— Estou muito ocupado com a campanha do Lula para me incomodar com Eduardo Paes, ele que tem que avaliar sua estratégia. Desde domingo, estamos movimentando as ruas, e ele pode acompanhar ou não essa energia, é uma escolha.

Considero o Paes a melhor opção hoje para o Rio, então vou apoiá-lo e pedir voto, mas estou focado em eleger Lula. Espero que ele tenha responsabilidade com o Brasil e siga ao lado do presidente.

A deputada federal eleita Anielle Franco (PT-RJ) segue raciocínio semelhante, acrescentando que Paes sempre foi um político que "acena a diferentes grupos". Assim como Freixo, contudo, ela demanda que o ex-prefeito "tenha lado":

— Entre Eduardo Paes e a barbárie, eu estou com Eduardo Paes. Vou virar voto para o presidente Lula e vou virar para ele também.

Mas eu sou muito petista, muito Lula e muito Marielle. É importante mostrar o perigo que a candidatura do Flávio representa, principalmente para nós mulheres.

É importante ter um lado e honrar aqueles que mais precisam. Na sombra de Paes está a eleição de 2018.

Naquele pleito, ele perdeu para Wilson Witzel, que conseguiu surfar na onda bolsonarista na reta final de campanha. Agora, o ex-prefeito acredita que o cenário é diferente, já que conquistou 42% dos votos contra Ruas, enquanto há 8 anos bateu no teto de 20% no primeiro turno e 40% no segundo.

Para Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, o panorama atual pede união. Ele opina que a base do partido no Rio deve ser o principal palanque de Lula no estado, não o ex-prefeito:

— Eduardo tem apoio de setores bolsonaristas que não precisa perder, mas ao mesmo tempo vamos colar o máximo da base dele na nossa. Tem que ter habilidade para fazer, mas dá.

Nós, do Lula, temos que fazer nosso material com ele e falar do que o presidente fez pela cidade do Rio e pelo estado. Nós vamos fazer a campanha do presidente.

Ele (Paes) é candidato a governador e quer o voto de 100% do eleitorado. Cada campanha tem suas dinâmicas próprias, desiguais às vezes, mas combinadas.

Eduardo e Lula vão combinar isso pessoalmente, eles têm ótima relação. O resto é intriga.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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