Historiador James Green, da Universidade Brown: ‘Os argumentos de Flávio [sobre suposta fraude] são muito fracos’ Arquivo pessoal
Para o historiador brasilianista James N. Green, o candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro adotou um caminho arriscado ao atrelar seu destino ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Não sei se essa aliança tão forte com os Estados Unidos beneficia muito Flávio”, afirmou ele ao Valor, especulando que o Brasil se torne um tema “secundário” para o americano. Nascido nos EUA há 71 anos, Green é professor emérito de História e Cultura Brasileira na Universidade Brown e se aprofundou em estudos sobre o Brasil, país onde morou no fim da década de 1970 e que ainda visita com frequência.
Próximo de atores do campo progressista, o também escritor e ativista acompanhou em território brasileiro os dois meses finais da disputa e manifestou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Green é presidente do conselho diretor do Washington Brazil Office (WBO), uma organização que se define como suprapartidária e atua nas relações dos dois países em áreas como democracia e direitos humanos.
Na conversa por videochamada, feita em seu retorno ao país após o segundo turno, o historiador afirmou que a legitimidade do pleito teve amplo reconhecimento internacional e que Flávio usou argumentos “muito fracos” para questionar o processo eleitoral. Green considera que a situação política do senador, agora abrigado nos EUA, está longe de ser prioridade do governo Trump, mais preocupado no momento com a possibilidade de derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato, marcadas para esta terça (3).
O especialista não descarta, porém, que Flávio e sua influência sobre a direita brasileira possam ser úteis ao trumpismo, sobretudo em questões de interesse do secretário de Estado, Marco Rubio. A seguir, os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: Como tem avaliado o reconhecimento internacional ao resultado da eleição brasileira? O que mudou em relação a 2022, quando o senhor foi um dos que trabalharam pelo reconhecimento imediato por parte do governo dos EUA? James Naylor Green: O grande problema de 2022 era que Jair Bolsonaro estava planejando, desde o começo da campanha, a possibilidade de dar um golpe para permanecer na Presidência, articulação pela qual foi condenado.
De outro lado, tínhamos na Casa Branca Joe Biden, que desde o começo de 2021 tinha muito claro que o governo americano não apoiaria um golpe de Estado no Brasil e deixou uma mensagem nítida para as Forças Armadas [brasileiras], que racharam. Então, o golpe não prosperou.
Desta vez, o problema era Donald Trump, porque ele tem ligações com a família de Bolsonaro, são aliados [Trump vem repetindo que não tomou lado na eleição]. A meu ver, ele não endossou Flávio publicamente porque as pessoas em volta, no Departamento de Estado, aconselharam o presidente a não falar nada, porque isso podia incentivar um nacionalismo e um antiamericanismo, prejudicando as possibilidades de vitória de Flávio.
O fato de que Lula ganhou por 4,4 milhões de votos de diferença é muito forte. A acusação de fraude baseada nos cerca de 34 mil votos de pessoas que votaram depois das 17h é ridícula.
Flávio também pediu que as urnas ficassem abertas por mais duas horas, assim como o PT. Eles ignoram esse fato.
Eles falam que as eleições foram fraudulentas, foram roubadas, porque precisam de uma narrativa para os seguidores repetirem nos próximos quatro anos. Então, os argumentos dele [Flávio] são muito fracos.
Valor: Flávio pode se beneficiar dessa aliança com Trump? Green: Os Estados Unidos querem manter Flávio para o caso de a conjuntura política mudar no Brasil e haver uma possibilidade de projetá-lo como uma alternativa, mas creio que isso não vá prosperar.
O PL já entendeu que, melhor do que entrar nesse barco de negar os resultados eleitorais, é organizar a oposição, derrotar Lula no Congresso. Tarcísio de Freitas, que quer ser candidato à Presidência em 2030, está reconhecendo os resultados.
Os próprios dois membros do Tribunal Superior Eleitoral que também são membros do Supremo Tribunal Federal [Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Bolsonaro] endossaram os resultados. As comissões internacionais de observação enviadas pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pelo Carter Center, entre outras, reconheceram os resultados.
Trump tem grandes problemas para resolver, e o Brasil não vai estar na lista prioritária” Nesse aspecto, Flávio já perdeu.
Ele tinha que recuar. Em vez de falar que é o “presidente eleito”, ele depois falou que era apenas “o líder da oposição” em exílio.
Agora, outros atores vão querer diminuir sua força. Só ficará um cenário mais favorável se houver um atrito entre Brasil e Estados Unidos em que Flávio possa cumprir um papel fundamental [como intermediador], mas é ruim, neste momento, ele ficar tão associado ao Trump.
Quando estou no Brasil, gosto de conversar sobre política com os motoristas de Uber e táxi. Quando falo que sou um americano querendo entender a realidade brasileira, eles também me perguntam como está o nosso presidente [Trump].
Eu respondo que é o pior presidente da história do país, e eles concordam comigo. Os próprios bolsonaristas sabem que Trump é louco.
Não sei se essa aliança tão forte com os EUA beneficia muito Flávio. Valor: Ainda assim, é relevante que o presidente dos EUA difunda insinuações de fraude na eleição brasileira.
As falas de Trump podem ter algum impacto mais sério? Green: Não acho, porque mesmo Javier Milei [na verdade, uma porta-voz do governo argentino] e Nayib Bukele, presidente de El Salvador, endossaram a eleição de Lula.
Essa batalha já foi vencida. Agora, a questão vai ser, na extensa relação de medidas que os democratas vão ter que tomar, se ganham o controle da Câmara na terça-feira à noite e talvez do Senado, vai ser a posição do Brasil nessa lista.
Não sei se vai ser prioridade deles organizar uma CPI [comissão parlamentar de inquérito] ou algo nesse sentido. Não é porque não haja deputados e senadores conscientes e informado sobre a realidade brasileira, porque há - o que é uma coisa nova, já que, em geral, os americanos não sabem nada sobre o Brasil além de uma série de estereótipos.
Mas há tanta coisa para acertar nos Estados Unidos, com a necessidade de preparar a oposição ao governo Trump para as eleições de 2028, que não sei até que ponto o Brasil vai entrar como uma grande questão. Valor: Trump, apesar de lançar falsas alegações sobre a eleição, reiterou que se dá bem com Lula.
Parece ser um discurso calculado? Green: Creio ter a ver com o aspecto subjetivo de Trump, da necessidade de ser amado por todo mundo.
Por isso, como Lula é muito carismático, ele pode [ter considerado isso]. Esse traço psicológico de Trump pode ajudar o Brasil, como em certo momento ajudou, quando os presidentes se encontraram no ano passado na Organização das Nações Unidas.
Mas outras pessoas vão insistir em uma campanha contra Alexandre Moraes, pedindo ajuda nisso, como quando os EUA implementaram a Lei Magnitsky contra o ministro e sua esposa. O bolsonarismo tem certo acesso a forças dentro do Departamento de Estado, encabeçado por Marco Rubio, e penso que isso vai seguir.
Rubio quer criar condições para ser o candidato favorito para as eleições de 2028, contra o vice-presidente J. D.
Vance, e ele precisa de uma vitória visível, porque ele não vai ter vitória na guerra do Irã, nem na da Ucrânia. Acho que o que Rubio vai mais tentar, nos próximos dois anos, será uma derrota do governo de Cuba, seja uma negociação, seja uma pressão muito mais forte, seja uma mudança de governo.
É preciso ver se o Brasil será útil para ele nesses esforços, como um elemento numa campanha internacional contra o comunismo, eventualmente usando Flávio para mobilizar a opinião pública. Valor: O senhor diria que Flávio, neste momento, enfrenta um enfraquecimento no ambiente brasileiro, mas parece ampliar a sua atuação no cenário internacional?
Green: Não sei em que medida ele pode estar se fortalecendo, porque pode ser visto como uma pessoa inconsequente, que nós [EUA] mantemos aqui, damos asilo para ele ficar perto da gente, mas não o deixamos apitar muito. Vai depender também da dinâmica do Congresso no Brasil.
Por exemplo, se haverá um movimento por anistia, num acordo entre várias forças para conseguir eleger o presidente do Senado ou o da Câmara, em troca de alguma alívio de pena para Jair Bolsonaro. Ou ainda como será resolvida a questão da crise do Supremo, com várias acusações de envolvimento no escândalo do Banco Master.
Essas dinâmicas políticas podem indicar para os americanos se Flávio está se fortalecendo ou perdendo espaço nas forças da extrema-direita. Valor: Qual o risco para a liderança dele, por estar ausente do país?
Green: Alguns vão querer minimizar a importância dele. Michelle Bolsonaro, há tempos, está fazendo isso.
Ela tem interesse de se projetar como possível candidata a presidente ou a vice-presidente em 2030. Tarcísio também quer diminuir essa força, para assumir a direção da oposição e se posicionar para ser candidato.
Acho que Flávio está muito enfraquecido. As quatro versões da declaração dele [na carta em que primeiro se declarou “presidente eleito” e por fim se autodenominou “líder do Brasil”] são uma indicação.
Ele está recuado. Valor: Neste contexto, qual o grau de probabilidade de um abalo nas relações entre os dois países?
Green: É cedo para saber exatamente. A [provável] derrota de Trump na Câmara e talvez no Senado vai provocar uma nova conjuntura.
Ele tem grandes problemas para resolver, e o Brasil não vai estar na lista prioritária. Tem que resolver a questão da guerra do Irã, porque não pode manter os preços de combustíveis tão altos como estão.
Tem a questão da Ucrânia. Mas, em algum momento, Trump pode achar que é importante destacar Flávio, se for necessário, em alguma jogada internacional.
A única coisa que vejo como potencial de conflito mais profundo, neste momento, seria se Trump insistir muito na questão de que PCC [Primeiro Comando da Capital] e CV [Comando Vermelho] são organizações terroristas. Na questão das eleições, se foram legítimas ou não, Trump sempre fala, quando ele ou seus aliados têm chance de perder, que é porque existe fraude.
Os Estados Unidos receberam Flávio [após a fuga], oferecendo a ele um visto humanitário, o que me dá um ódio, porque eu estava no Brasil até estes dias, não há ditadura militar. Eu sei o que é uma ditadura militar, porque vivia no Brasil de 1976 a 1982.
Argumentar que ele tem direito a esse tipo de acolhimento dos Estados Unidos, enquanto há pessoas que estão fugindo de guerras civis, ameaças de morte e riscos reais, e elas estão sendo expulsas daqui ou tendo seus pedidos de asilo político negados, é uma hipocrisia. Valor: Como analisa a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de determinar a entrega dos passaportes, o que gerou controvérsia e foi apontado por Flávio como cerceamento e perseguição a um adversário político do governo?
Green: Foi muito justa [a decisão], porque ele [Flávio] já tinha planejado esse roteiro de fuga antes, então era totalmente correto dizer que ele, sendo investigado pela Polícia Federal, tinha possibilidade de fugir do país. Valor: Vê continuidade no apoio à família Bolsonaro no Brasil?
Green: É importante entender que a fidelidade à família Bolsonaro, como uma seita, ainda existe e vai existir durante um tempo. E há uma tradição de nostalgia em relação a líderes fortes do passado.
A força de Getúlio Vargas, inclusive entre comunistas que ele prendeu durante o Estado Novo, permaneceu por décadas. Então, esse respeito à família Bolsonaro ainda vai existir para aqueles 20% que são fanáticos, que acreditam fielmente.
Valor: O que lhe chamou a atenção durante o período eleitoral, enquanto esteve no Brasil? Green: A campanha no primeiro turno estava muito morna.
Ouvindo os motoristas de Uber, a grande maioria tendia a votar na direita e apoiar Flávio, mas me surpreendi ao ver quantas pessoas, antes do primeiro turno, dizendo que Lula ia ganhar, mesmo que votassem em Flávio. Era, para mim, uma indicação de certo desânimo com as possibilidades.
Os petistas achavam que Lula ia ganhar porque todas as pesquisas indicavam isso, e a derrota para Flávio no primeiro turno jogou um balde de água fria neles. Depois, eles despertaram e começaram a se engajar na campanha.
Acompanho eleições no Brasil desde 1994 e nunca tinha visto esse tipo de mobilização. Temos que lembrar que, desde que há democracia verdadeira no Brasil, foram poucos os períodos de plenitude democrática, na sua história de 526 anos.
Felizmente, esta eleição vai proteger conquistas democráticas garantidas pelas lutas sociais nos últimos anos. Espero ver Lula, como presidente, permitindo que a voz desses movimentos sociais seja ouvida por ele, ao compor o governo e formular as políticas.
Valor