Lula busca nomes heterodoxos para Copom e mira Selic menor

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Fonte da notícia: Valor Valor

Inconformado com a alta taxa de juros, que, na sua avaliação, trava a economia, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva começou a ouvir auxiliares e economistas sobre alternativas para viabilizar a queda da Selic em seu quarto mandato. Nesse contexto, busca perfis mais heterodoxos para quatro vagas na diretoria do Banco Central (BC) que poderá preencher até fevereiro de 2027, na tentativa de provocar uma mudança de rumo do Comitê de Política Monetária (Copom), que priorizou a cautela no ciclo atual de redução dos juros.

Lula alinhou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que deverá encaminhar à instituição, ainda neste mês, os nomes para as duas vagas no BC que estão abertas desde janeiro, relativas às diretorias de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, e de Política Econômica.

No ano que vem, no final de fevereiro, vencem os mandatos dos diretores de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, e de Política Monetária, Nilton Schneider David, ambos nomeados por Lula, e que atuam em sintonia com o presidente Gabriel Galípolo. No entanto, nos bastidores do governo e do BC, há incerteza se serão reconduzidos para mais quatro anos, diante do desejo do presidente de “arejar” o colegiado.

Nesse contexto, um nome que tem circulado é o do economista André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI. Apesar da insatisfação com o ritmo de corte dos juros, Lula tem se reunido com Galípolo para se atualizar sobre as medidas do Banco Central de enfrentamento ao superendividamento da população.

Na quarta-feira (28), eles se reuniram no Palácio da Alvorada. O Copom volta a se reunir nesta terça-feira (3) para definir se mantém ou revisa a taxa Selic, atualmente de 13,75% ao ano.

Em meio a esses movimentos, a informação publicada no domingo (1) pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, de que Lula poderia se reunir nesta semana com o economista André Lara Resende acendeu o sinal amarelo no mercado financeiro. Isso porque as ideias de um dos pais do Plano Real para a queda da Selic, que envolvem até uma meta para a taxa de juros, são consideradas excessivamente heterodoxas.

Por sua vez, a ex-ministra de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann, derrotada na eleição para o Senado no Paraná, afirmou em seu perfil nas redes sociais, no mesmo dia, que o artigo de Lara Resende “é fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”.

No mesmo domingo, Lula publicou um vídeo nas redes sociais rebatendo notícias falsas que circularam nos últimos dias de que ele acabaria com programas sociais, e de que o governo recuaria da extinção da escala de trabalho 6x1. Ele observou que as políticas públicas serão mantidas e, eventualmente, ampliadas - o que demandaria mais gastos.

“Em uma semana que fiquei sem falar, a mentira tomou conta deste país outra vez”, criticou o presidente no vídeo. “Nenhum programa social será extinto neste país”, reforçou.

Lula acrescentou que, ao contrário, novos programas sociais podem ser criados, ou os que estão em funcionamento poderão ser melhorados. “Tudo aquilo que foi prometido na campanha, pode ficar certo de que vai acontecer.”

Para conter a escalada da tensão entre os investidores, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o presidente do PT, Edinho Silva, entraram em campo para negar a suposta agenda de Lula com Lara Resende. Ao Valor, Durigan explicou que vários economistas entraram em contato com ele e com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, e se colocaram à disposição para dialogar com Lula, mas, segundo o chefe da Fazenda, nenhum encontro foi programado até agora.

Durigan ainda rechaçou que estejam no radar do governo propostas como fixar meta de juros ou gastar reservas internacionais, mecanismos defendidos por Lara Resende em artigo para reduzir os juros. O economista prevê fixar a taxa Selic em um intervalo entre a meta de inflação (3%) e a soma da inflação com o crescimento real potencial da economia brasileira (5,5%), com a diminuição gradual até atingir o índice recomendado.

Em meio ao esforço de Durigan para acalmar o mercado, Gleisi voltou às plataformas digitais na segunda-feira (2) para calibrar sua postagem anterior. Na nova publicação, a ex-ministra - que é cotada para assumir um novo cargo no Lula 4 - criticou o “nervosismo” do mercado, ressalvando que Lula ouvir uma proposta “não significa encampá-la”.

Ela enfatizou ainda que o presidente sempre foi “responsável fiscalmente” e reafirmou que ele não incorrerá em “estelionato eleitoral”. O debate interno sobre eventual mudança de perfil dos integrantes do Copom ocorre, paralelamente, às discussões sobre as possíveis medidas para equilibrar as contas públicas depois do pleito.

Interlocutores do mercado financeiro têm alertado a equipe econômica sobre o risco de se repetir a frustração com o pacote fiscal anunciado em 2024, quando a repercussão negativa entre os investidores fez o dólar ultrapassar a marca dos R$ 6. Esse alerta está em linha com um argumento que circula no Executivo sobre a necessidade de se avançar em medidas estruturais de controle de gastos, inclusive em relação a despesas obrigatórias.

Mas outro grupo, que reúne integrantes da ala política e dirigentes do PT, resiste a medidas que possam ser apontadas como “estelionato eleitoral”. O desafio ainda implica o convencimento do próprio Lula de que tais medidas são cruciais para a credibilidade do governo no início do Lula 4.

Estão sobre a mesa medidas para impor limites a determinadas despesas, a possibilidade de mirar o centro da meta fiscal, a ampliação do contingenciamento para despesas obrigatórias e a perpetuação de gatilhos que limitam o crescimento de alguns gastos. Na visão do mercado, esses instrumentos podem ajudar na gestão do fluxo das despesas, mas não resolvem o problema fiscal.

A tendência é que apenas iniciativas capazes de afetar de forma permanente as despesas, as receitas e o resultado primário sejam incorporadas às expectativas. O déficit primário do governo central acumulado em 12 meses está em R$ 49,5 bilhões, o equivalente a 0,38% do Produto Interno Bruto (PIB).

Há uma avaliação no setor privado de que, se os mecanismos em discussão forem efetivos e tiverem aplicação imediata, até poderiam reduzir parte da pressão. Ainda assim, um pacote concentrado nessas iniciativas ficaria aquém do esperado e seria insuficiente para fazer indicadores como câmbio e taxas de juros futuros retornar aos níveis anteriores.

Fontes do governo estão cientes desse cenário e reconhecem que há preocupação com o efeito do câmbio sobre a inflação. Pelo lado das despesas, a Previdência é apontada como a principal pressão.

Para agentes do mercado, sem mudanças nessas grandes despesas, os ajustes pontuais em discussão poderão melhorar a composição do Orçamento, mas não alteram o nível total de gastos. Como o governo também não bateu o martelo sobre uma mudança no arcabouço fiscal, a despesa deve permanecer em torno de 19% do PIB nos próximos anos.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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