O mapa geopolítico da América do Sul consolida uma das configurações mais heterogêneas das últimas décadas. Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, somada aos governos de esquerda e centro-esquerda no Uruguai e nas Guianas, desenha-se um quadro em que o Brasil opera como uma espécie de “ilha” cercada por uma expressiva “onda azul” - um cinturão de governos de direita e extrema-direita que inclui Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Equador e Colômbia.
A Venezuela permanece sob forte influência americana desde a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026. A despeito da polarização ideológica e da retórica de certos líderes regionais, como o presidente argentino, Javier Milei, a dinâmica geopolítica sul-americana aponta para uma coexistência pragmática.
Diante da intensificação da disputa pela hegemonia entre Estados Unidos e China, do fantasma de um neomonroísmo americano e de desafios transnacionais como o crime organizado, os interesses econômicos e comerciais emergem como a principal força de coesão do continente, conforme especialistas ouvidos pelo Valor.
Segundo o ex-embaixador Roberto Jaguaribe, conselheiro consultivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a atuação de Washington na América Latina voltou a ser pautada por um alinhamento defensivo contra a crescente presença chinesa na região. Sob a sombra do ressurgimento de princípios análogos à Doutrina Monroe, criada no século XIX para afastar potências estrangeiras e consolidar a hegemonia americana no continente, o governo dos EUA tem buscado refazer a sua área de influência direta no hemisfério sul por meio das eleições.
Uma outra expressão material dessa estratégia, observa Jaguaribe, é o projeto Escudo das Américas, iniciativa de cooperação em defesa e segurança para governos ideologicamente alinhados da região. “Vejo um cenário complexo.
Mas o Brasil é o país mais importante da América do Sul. Somos importantes para todos.
Esse é um trunfo, ainda que as demais nações sul-americanas também sejam importantes para nós”, diz Jaguaribe. “É preciso, indubitavelmente, melhorar as relações centrais, ampliando a integração regional.
Mas não de forma ideológica. A ideologia é inimiga do entendimento.
Essa negociação tem que envolver a todos, inclusive as comunidades de fronteira”, afirma o ex-embaixador. “Ao Brasil, além dessa integração, será importante manter boas relações com EUA e diversificar os mercados.
Uma Europa forte pode contribuir para um maior dinamismo comercial, já que os europeus possuem capital, conhecimento e competência global.” Para Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais na ESPM, as prontas congratulações enviadas ao presidente Lula pelos governos da região, com falas eloquentes até mesmo de líderes conservadores, são sinais positivos.
Refletem, em sua avaliação, a preocupação em manter o pragmatismo econômico e preservar o relacionamento diplomático com o Brasil, além da percepção de que os democratas devem obter maioria nas eleições de meio de mandato nos EUA, o que reduziria a disposição para qualquer tipo de tensionamento com o governo Lula.
Trevisan pondera, contudo, que uma integração profunda no momento tende a esbarrar em problemas estruturais, tanto no Brasil quanto nos países da “onda azul”. Ele cita como exemplo o Chile, onde o presidente José Kast, com sete meses de mandato, enfrenta uma rejeição superior a 60% diante da dificuldade em controlar a inflação e cumprir as promessas de campanha.
“Tensionar a relação não é conveniente. O Brasil tem um peso importante para esses países e o quadro não favorece internamente e nem externamente.”
No que tange às relações bilaterais com a Argentina, tanto Jaguaribe quanto Trevisan coincidem em apontar que os atritos diplomáticos não devem se sobrepor aos interesses estratégicos e comerciais. Segundo o ex-embaixador, a postura de Milei carrega forte carga retórica de um governo desgastado.
Os insultos, aponta ele, são negativos, mas Brasil e Argentina são “parceiros inevitáveis e imprescindíveis”. Essa resiliência institucional e comercial frente às oscilações políticas locais é reforçada por Gonzalo Müller, professor de ciência política na Universidad del Desarrollo (UDD), no Chile.
Em sua opinião, a reeleição de Lula consolida uma dinâmica de acomodação que já estava em curso. “Se produziu um sinal de continuidade.
Recordemos que o resto das mudanças já aconteceram nos demais países. Portanto, essa coexistência pragmática já ocorre”, argumenta.
Na visão de Müller, o pragmatismo reflete a busca por um equilíbrio entre Washington e Pequim. “A China vê a eleição de Lula como um alívio, mas todos os países buscam esse balanço.
A China é o parceiro comercial relevante e os EUA, o aliado em segurança. Na economia e no livre comércio, a China impulsiona; na defesa, os americanos”, avalia.
Ele destaca que essa convergência preserva os projetos regionais. “A integração logística não depende de governos de turno, pois nenhum deles - Chile, Argentina, Paraguai ou Brasil - tem uma agenda anti-integração.”
Nico Pose, professor no Programa de Estudos Internacionais da Udelar, no Uruguai, afirma que, para a maioria das nações sul-americanas, a escolha entre China e EUA não é uma opção viável nem desejável, já que alinhar-se de forma automática a um ou outro traz mais custos do que benefícios.
“Enquanto Pequim se consolidou como o principal parceiro comercial, comprador de commodities e fonte de financiamento em infraestrutura, Washington permanece sendo um parceiro incontornável em matéria de defesa, investimento direto e segurança”, diz. Além disso, o professor da Udelar ressalta que a vitória de Lula oferece a nações vizinhas, como o Uruguai, um importante escudo de contenção e margem de manobra frente a pressões americanas.
Pose e Müller apontam o combate ao crime organizado transnacional como o principal ponto de tensão na agenda regional. Para os especialistas, a adesão de governos conservadores às diretrizes de segurança americanas contrasta com a postura de Lula, que recusou a integração do Brasil ao programa Escudo das Américas.
Müller alerta que o tema é um ponto sensível para o futuro, embora ressalte que, no nível operacional, as forças policiais já atuam de forma coordenada contra o crime transnacional. Pose enfatiza que a cooperação só terá sucesso se mantida no plano estritamente técnico e operacional.
“Se transformar-se em uma disputa político-ideológica ou sofrer interferências externas, a confiança entre os países será corroída, reduzindo drasticamente a eficácia das ações no continente”, alerta.
Valor