Yuriy Nazarenko, 28 anos, ucraniano, criou o OnlyFake, site que vendia documentos de identidade falsos a US$ 15 cada, o equivalente a cerca de R$ 80. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos informou que o negócio faturou mais de US$ 1 milhão, cerca de R$ 5,4 milhões.
Nazarenko se declarou culpado e agora, um ano depois de deixar a prisão e passar por detenção do serviço de imigração americano, vive na Ásia e conta pela primeira vez como montou a operação. A história começa no apartamento do avô, na Ucrânia.
Nazarenko passava mais de 12 horas por dia diante de quatro monitores, um deles com o Telegram aberto, outro com a foto de um passaporte no Photoshop. Ele ajustava à mão o código MRZ, a faixa de leitura ótica impressa no pé dos documentos, e cada documento de alta qualidade consumia até uma semana de trabalho.
A produção manual não escalava. Nazarenko criou modelos prontos e depois um site que preenchia automaticamente os dados pedidos pelo cliente.
Quando a inteligência artificial generativa se popularizou, ele incorporou a ferramenta ao processo e batizou o negócio de OnlyFake. O site não entregava apenas o arquivo do documento.
Produzia fotos realistas do passaporte ou da carteira de motorista sobre um sofá, um tapete, uma mesa, como se o cliente tivesse tirado o documento da carteira e batido uma foto com o celular. Uma licença de motorista da Califórnia abria conta em corretora de cripto no nome de outra pessoa, um passaporte britânico abria empresa no exterior.
Tudo em minutos, tudo pago em Bitcoin. A escala do OnlyFake era outra coisa.
O sistema gerava centenas ou milhares de documentos de uma vez. Em fevereiro de 2024, quando o site veio a público, especialistas em segurança notaram que a qualidade dos arquivos enganava tanto revisores humanos quanto sistemas automáticos de verificação.
O KYC, sigla em inglês para conhecer o seu cliente, é o protocolo que bancos e corretoras usam para confirmar que a pessoa do outro lado é quem diz ser. O envio de um documento com foto é a etapa central desse processo.
Se qualquer pessoa com US$ 15 em Bitcoin consegue fabricar uma foto convincente de passaporte, a muralha que separava o dinheiro do crime organizado deixa de existir. Não é teoria.
O próprio Nazarenko relata que trabalhadores de tecnologia da Coreia do Norte usaram o OnlyFake para se passar por profissionais de outros países e conseguir empregos remotos. O esquema é conhecido, norte-coreanos infiltrados em empresas ocidentais para desviar salários ao regime de Pyongyang.
O OnlyFake também pariu concorrentes. O sucesso do site mostrou ao submundo que havia mercado para falsificação em escala industrial.
Sites clonados apareceram nos meses seguintes, alguns com preços ainda menores. O Birô Federal de Investigação, o FBI, rastreou Nazarenko até a Ucrânia, e o Departamento de Justiça americano construiu o caso que terminou em confissão.
A operação não atingiu apenas o criador do OnlyFake. O governo americano fechou concorrentes que operavam no mesmo modelo, numa ofensiva contra a infraestrutura da fraude documental digital.
Nazarenko cumpriu um ano de prisão nos Estados Unidos. Depois da sentença, ficou detido pelo ICE, o serviço de imigração americano, antes de ser liberado.
Hoje, vivendo na Ásia, ele diz que quer contar o que fez. A confissão encerra o caso individual, mas não o problema estrutural.
A tecnologia que o OnlyFake popularizou continua ao alcance de qualquer pessoa. Modelos de IA generativa hoje produzem imagens de documentos ainda mais convincentes do que as que Nazarenko ajustava pixel a pixel.
Bancos e corretoras digitais passaram a reforçar a verificação. Prova de vida por vídeo, checagem de biometria facial contra bases governamentais e cruzamento de metadados dos arquivos enviados viraram padrão nos grandes bancos.
Nenhum desses mecanismos é infalível, mas todos encarecem e complicam a fraude. Para o leitor brasileiro, a lição é dupla.
Quem tem conta em banco digital ou corretora de cripto precisa saber que a foto do documento, sozinha, já não basta como prova de identidade. Quem tiver o documento vazado corre o risco de ver o próprio nome usado para abrir contas ou empresas no exterior.
No Brasil, a Receita Federal e o Banco Central vêm endurecendo as regras de identificação para fintechs e exchanges de criptoativos. As exigências mais recentes incluem reconhecimento facial obrigatório e verificação de origem dos recursos em operações acima de determinado valor.
O OnlyFake não foi o primeiro site de documentos falsos, mas foi o primeiro a transformar a falsificação artesanal em produto de massa acessível. A muralha do KYC continua de pé, agora mais alta e mais cara.
O que Nazarenko provou é que ela nunca foi intransponível.
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