Minha vida de best seller

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Raphael Montes, autor de suspenses de sucesso e de séries para o streaming, diz que a elite literária ainda tem um pé atrás com livros de gênero Na Bienal do Livro de São Paulo, em setembro, Raphael Montes viu seu novo romance, o thriller erótico A Estranha na Cama, tornar-se o mais vendido do estande da Companhia das Letras.

Ao todo, ele emplacou oito títulos entre os 15 mais vendidos da editora, que, além de publicar seus livros, criou em outubro uma coleção com a marca Raphael Montes, voltada a obras de suspense, terror e crime. A Estranha na Cama também virou filme, ainda inédito, da Netflix.

Nesta entrevista, Montes, de modo descontraído e risonho, reflete sobre a marca que construiu, sem negar que se tornou, ele mesmo, um produto; fala da reviravolta pela qual passou a literatura de gênero no Brasil; e conta que, não fosse o streaming, ainda estaria esperando para fazer a sua primeira novela.

CartaCapital: Da outra vez em que falou com CartaCapital, três anos atrás, você parecia viver o auge da carreira, com livros vendendo muito, uma novela sendo escrita para a HBO e uma série na Netflix. De lá para cá, esse sucesso se ampliou.

Na última Bienal, você era uma estrela. Esse frisson não atrapalha a escrita – algo que, geralmente, requer certo silêncio, certo isolamento? Raphael Montes: Não vou ser hipócrita.

Sou um autor que gosta de ser lido e, para mim, é uma realização poder viver daquilo que gosto de fazer e ser pago, por exemplo, para escrever roteiros. No caso dos livros, me emociono com a relação de cumplicidade que se estabelece entre escritor e leitor.

Os leitores têm a sensação de que me conhecem e eu tenho a sensação de que a gente compartilhou uma experiência. Um livro não é como um filme.

Você leva o livro para a praia, por exemplo, e sempre vai se lembrar da obra que levou para aquelas férias. Uma coisa que escuto muito é que a pessoa estava, há muito tempo, sem conseguir ler e, de repente, meu livro a fez voltar a gostar de ler.

E aí são mil histórias: o casal que se conheceu por causa dos meus livros; ou a mãe que leu um livro meu com a filha, que estava doente – e foi a última coisa que fizeram juntas antes de ela morrer. Isso tudo me faz muito bem.

O que acontece é que todo esse barulho cria uma certa pressão, e escrever sob pressão não é bom. E, como você disse, escrever, especialmente literatura, requer um olhar para si mesmo, um certo silêncio e um certo ócio que não combinam com tudo isso.

Mas hoje estou num lugar mais maduro do que quando a gente conversou, no lançamento de A Mágica Mortal. Criei uma estrutura que me permite ser alguém público e, ao mesmo tempo, ter o meu tempo de recolhimento.

Versões, adaptações e originais. A série Bom Dia, Verônica, da Netflix, a novela Beleza Fatal, da HBO Max, o longa-metragem Uma Família Feliz e o filme A Menina Que Matou os Pais, doPrime Video, são algumas das obras criadas pelo romancista e roteirista – Imagem: Netflix, HBO Max e Prime Vídeo

CC: Essa estrutura é a Casa Montes, sua produtora? RM: Sim. O CEO da empresa é meu marido, o Victor Prataviera, e eu sou o artista.

Ele gerencia uma estrutura que me permite criar. O Victor foi a pessoa que, em 2016, me disse que eu tinha que pedir demissão da TV Globo, onde era roteirista com carteira assinada, para aceitar o convite da Netflix para fazer uma série policial, Bom Dia, Verônica.

Esse projeto mudou minha carreira no audiovisual. Daí, em 2021, também por conta do sucesso da série, foram chegando muitos convites.

E o Victor falou: “Rafa, um autor como você, nos Estados Unidos, tem uma estrutura para que ele faça o trabalho dele”. Aí a gente contratou uma social media, depois passamos a ter um assistente… Durante muito tempo, eu emitia minhas notas fiscais.

Hoje temos o financeiro, o jurídico, enfim, estruturamos as coisas de modo que meu trabalho seja dar entrevistas, fazer eventos e escrever. Sou um autor presente nas redes sociais.

Como faço isso? Tenho dois ou três dias por mês em que gravo o conteúdo. A Thalita, que trabalha comigo, gerencia e protege a minha agenda.

Ou seja, profissionalizamos a estrutura da Casa Montes para que eu pudesse me dedicar à coisa que só eu posso fazer: escrever. CC: Imagino que tenha precisado entender que você mesmo virou um produto.

RM: Foi um processo. Minha empresa não fabrica outra coisa, e eu não tenho ninguém que escreva uma linha por mim.

Não é a IA, não é uma equipe, sou eu quem escreve. Essa estrutura foi sendo criada aos poucos.

CC: A Estranha na Cama vai virar filme da Netflix, dirigido pelo Esmir Filho. Saber dessa dupla existência das obras não altera a sua escrita como romancista? RM: Brinco que são dois “Raphaéis” que se sentam à escrivaninha para escrever, ou seja, tenho que virar uma chave na cabeça.

Literatura, só consigo escrever se tiver muitas horas no dia. Demoro para entrar no livro.

Releio, em geral, as 15 últimas páginas antes de começar a escrever a primeira linha do dia. Para revisar um livro, preciso de alguns dias.

Um roteiro você lê em algumas horas. Além disso, no roteiro, para fazer o diálogo de uma cena, eu, geralmente, vejo só a cena anterior.

São duas posturas, mas, obviamente, são duas posturas numa mesma pessoa. Quando escrevo literatura, não tenho como desligar a cabeça visual.

Mas ainda faço um esforço para que o livro não seja uma versão literária do filme ou da série. “Profissionalizamos a estrutura da Casa Montes para que eu pudesse me dedicar à coisa que só eu posso fazer: escrever (…).

O futuro é ser o Walt Disney do terror”, diz, rindo CC: A Estranha na Cama parece bem visual.

Como se deram os dois processos nesse caso específico? RM: A Laura, a protagonista, tem toda uma história – de como ela é como mulher, da relação que tem com o marido – muito literária. Muito da construção dessa personagem não está no filme.

Não é só a maneira de contar que é diferente. A própria história diverge um pouco.

O livro traz uma construção complexa sobre essa mulher, monstrando a origem familiar mais humilde e a relação com o pai e a mãe. No filme, partimos de um casal em crise, e não tem muita investigação de quem ela é antes de a história começar.

Tem um diálogo em que a sogra diz: “Deve ser difícil pra você, que nunca foi próxima da sua família…”. O espectador entende que tem alguma coisa ali, mas isso não é aprofundado.

Inclusive, os finais são distintos. CC: Por que você fez isso? RM: Primeiro, porque acho interessante haver histórias complementares.

Depois, porque o final do livro não funcionava no cinema. É um final que você fica remoendo depois de ter fechado o livro.

Gosto desse pequeno incômodo que o livro pode deixar. No caso de um filme, especialmente para o streaming, isso não cabe.

CC: E você notou isso assim que terminou o livro? RM: Na verdade, não. No roteiro, escrevi o final que o livro tem.

Depois decidi tirar. Acho que sou um dos poucos autores que têm o luxo de escrever livros, filmes e séries.

Meu tesão é investigar isso: será que isso aqui funciona no filme se eu fizer desse jeito? E, às vezes, uma cena que está de um jeito na página, quando transportada para a tela vira outra coisa. CC: O que você faz me parece ser diferente da ideia de adaptação.

Não se trata exatamente de pegar um livro e adaptar para o audiovisual. RM: Realmente… É quase um exercício de ter uma ideia e entender como é essa ideia em palavras e em imagens.

No caso de A Estranha na Cama, quando comecei a fazer o roteiro, eu estava na metade do livro. Mas, com Uma Família Feliz, fiz o roteiro e só depois o livro.

Ou seja, foi uma adaptação inversa. CC: A Casa Montes vai trabalhar apenas com obras de gênero, como thrillers e suspenses? RM: É o que eu sei fazer.

Contratamos uma empresa de branding para criar a marca, que é um M que vai aparecer em todas as capas. O futuro é ser o Walt Disney do terror (risos).

O thriller A Estranha na Cama foi o livro mais vendido da Companhia das Letras na Bienal. A editora também lançou uma edição comemorativa dos 10 anos de Jantar Secreto

CC: Durante muito tempo, se dizia que o Brasil não sabia fazer terror ou suspense. Essa percepção mudou? RM: Quando comecei, se dizia que a literatura de gênero brasileira não dava certo.

Naquele momento, coisas estrangeiras, como Garota Exemplar e Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, tinham começado a vender bem. Mas, quando lancei os primeiros livros, eu sentia um pé atrás.

Bom, esse pé atrás ainda existe numa certa elite da literatura que, sem nunca ter lido, não gosta dos que faço. E ainda faltam colegas meus publicados por editoras fortes, com grandes campanhas de lançamento, para termos um movimento de literatura policial e de suspense.

O que eu acho que mudou é que, quando comecei, os principais autores da Bienal do Livro eram estrangeiros. Na programação deste ano, havia Socorro Acioli, Itamar Vieira Júnior, Carla Madeira… A literatura brasileira contemporânea vive um bom momento.

CC: E o audiovisual? RM: Como roteirista, posso dizer que o streaming abriu a oportunidade para novos talentos. Quando eu estava na Globo, tinha 23 anos e queria fazer novela.

Trabalhei com o João Emanuel Carneiro, e ele me disse que eu só ia conseguir escrever uma novela quando tivesse 40 anos. Se a Netflix não tivesse chegado ao Brasil, eu estaria lá até agora, esperando fazer 40 anos para escrever minha novela.

• Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Minha vida de best seller’ Ana Paula Sousa Editora de Cultura da edição impressa de CartaCapital.

Doutora em Sociologia pela Unicamp. Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

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Publicação Original Carta Capital cartacapital.com.br
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