O Brasil precisa defender seus valores e instituições também no exterior Lula foi reeleito, mas seria um erro achar que as ameaças à democracia brasileira ficaram para trás.
Mal terminou a eleição, voltou o roteiro conhecido: acusações de fraude, tentativas de deslegitimar o resultado e busca de apoio internacional contra as instituições do próprio País. A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos indica que essa ofensiva terá continuidade fora do Brasil.
A experiência dos últimos anos deveria nos preparar para o que vem pela frente. Uma oposição que não aceita a derrota eleitoral tampouco se conformará em esperar a próxima eleição.
Vai procurar os meios disponíveis para enfraquecer o governo eleito, ainda que isso custe caro ao País. Sabemos que essa estratégia pode produzir resultados.
A articulação bolsonarista com o governo Trump e as sanções, tarifas e suspensão de vistos mostraram até onde pode chegar uma campanha contra o Brasil conduzida por brasileiros. Não bastou que as acusações fossem falsas ou absurdas.
Elas encontraram quem estivesse disposto a acolhê-las e transformá-las em decisões. Com a reeleição de Lula, o Brasil precisa organizar uma resposta à altura.
A defesa de sua democracia no exterior não pode continuar a depender de iniciativas esporádicas, tomadas quando a crise está instalada. Há uma articulação internacional da extrema-direita, com recursos milionários, acesso ao poder e capacidade de fazer circular suas versões sobre o que acontece no País.
Seus integrantes frequentam gabinetes, participam de eventos, têm suas vozes amplificadas por meios de comunicação simpáticos ao poder, se aliaram aos magnatas das redes sociais e mantêm relações com quem influencia governos e organismos internacionais. A derrota nas urnas não desfaz essas conexões.
Temos uma tecnologia vital a ser exportada e cobiçada pelo mundo, a mobilização de massas A instrumentalização da desinformação, portanto, vai muito além de um ato isolado de reconhecimento ou não da vitória de Lula.
Essa operação encontra terreno no profundo desconhecimento sobre o Brasil entre as elites políticas, econômicas e culturais no exterior. Mesmo aqueles bem informados sabem pouco sobre as nossas instituições e sobre os acontecimentos dos últimos anos.
Nesse ambiente, investigações podem ser apresentadas como perseguição, a responsabilização pela tentativa de golpe como prova de uma ditadura e a derrota eleitoral como resultado de fraude. Durante muito tempo, houve a expectativa de que essas histórias não fossem longe.
O melhor seria deixar os bolsonaristas falando sozinhos. Enquanto isso, eles construíam relações, conquistavam interlocutores e ocupavam o espaço com uma versão que servia tanto a seus interesses quanto aos de seus aliados.
O Brasil precisa de uma operação permanente de produção de informações, convencimento e construção de pontes. Precisa chegar aos lugares em que se formam opiniões e se tomam decisões sobre o País.
E precisa fazer isso antes que uma nova ameaça de sanção ou intervenção obrigue o governo a correr atrás do prejuízo. O Itamaraty tem um papel central nesse esforço, mas não pode realizá-lo sozinho.
Há acadêmicos, empresários, organizações da sociedade civil e lideranças políticas de diferentes partidos com conhecimento, credibilidade e acesso a esses ambientes. Muitos atuam por conta própria.
Falta reunir essa capacidade e dar continuidade ao trabalho, com estratégia, coerência e consistência ao longo dos próximos anos. Isso se faz com viagens, seminários, conversas em gabinetes, encontros com jornalistas e contatos com centros de pesquisa, universidades e organizações internacionais.
Exige informação acessível em outros idiomas e gente capaz de explicar o que acontece no Brasil a públicos que não acompanham o nosso cotidiano. Exige também manter as relações depois que o assunto desaparece das manchetes.
Uma nota oficial pode responder a uma acusação, mas dificilmente será suficiente para mudar uma percepção construída ao longo de meses. Da mesma forma, uma reportagem favorável numa publicação de prestígio pode ser bem-vinda, mas não substitui o trabalho cotidiano de interlocução.
O País dispõe de instituições, conhecimento e especialistas para fazer isso. Precisa dar a essa tarefa a importância e os recursos que ela exige.
Uma espécie de Apex que leve ao mundo informações e análises sobre o Brasil e sua democracia, com a mesma determinação com que buscamos abrir mercados para nossos produtos. Essa rede terá de acompanhar o debate internacional, identificar campanhas de desinformação e responder a elas com rapidez.
Terá também de construir relações duradouras com quem pode ser ouvido quando surgirem novas pressões contra o País. Um lobby pela democracia brasileira, com presença entre as elites econômicas, culturais e políticas.
A operação em defesa desses direitos fundamentais pode ainda ser reforçada se o Brasil assumir um papel global na defesa da democracia. Não se trata de um gesto de generosidade a outras sociedades.
Apenas a constatação de que erguer muros contra os ventos gelados do autoritarismo não poderá ser apenas uma tarefa nacional. Diante da constatação de que a extrema-direita criou sua “internacional reacionária” aliada aos grandes conglomerados do século XXI, o Brasil pode e deve ser o protagonista no estabelecimento de uma “internacional democrática”, reunindo governos e atores que possam, juntos, formar uma trincheira contra o avanço de forças antidemocráticas.
Temos uma tecnologia vital a ser exportada e cobiçada pelo mundo, a mobilização de massas. A eleição de 2026 terminou. A disposição de recorrer ao exterior para sabotar o País, não.
A fuga de Flávio Bolsonaro deve ser lida, à luz dessa experiência, não como mais um episódio familiar destinado a desaparecer do noticiário. A democracia brasileira mostrou força nas urnas.
Agora precisa organizar-se, dentro e fora do País, para enfrentar uma ofensiva que continuará além delas e de nossas fronteiras. Do lado de lá, há recursos, articulação, muita ambição e um plano.
A defesa da democracia precisa ter o mesmo. •
Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026. Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Internacional democrática’
Jamil Chade Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.
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