247 – As bolsas de valores dos Estados Unidos registraram fortes perdas nesta quinta-feira (5), pressionadas pela desvalorização de empresas de tecnologia, fabricantes de semicondutores e operadoras de centros de dados. O Nasdaq, índice que concentra algumas das principais companhias do setor, recuava mais de 3% e se aproximava da confirmação de uma correção, em meio às preocupações com o futuro dos investimentos em inteligência artificial (IA).
Segundo a agência Reuters, a queda ocorreu um dia depois de uma recuperação generalizada dos mercados, impulsionada pela ampla vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas de meio de mandato. O resultado eleitoral, entretanto, também provocou dúvidas sobre a continuidade dos incentivos concedidos pelo governo de Donald Trump à expansão da infraestrutura de inteligência artificial, especialmente em estados onde cresce a resistência à instalação de novos centros de dados.
Às 9h57, no horário da costa leste dos Estados Unidos, o índice Dow Jones Industrial Average perdia 351,87 pontos, ou 0,66%, chegando a 53.004,25 pontos. O S&P 500 recuava 1,66%, para 7.560,88 pontos, enquanto o Nasdaq Composite registrava queda de 3,09%, aos 24.941,44 pontos.
Fabricantes de chips lideram perdas no mercado O setor de semicondutores esteve entre os principais responsáveis pelo desempenho negativo das bolsas.
As ações da Qualcomm despencaram 9% depois que a fabricante de chips apresentou vendas de componentes para smartphones no quarto trimestre abaixo das estimativas de Wall Street. O resultado refletiu a demanda enfraquecida e a redução das receitas relacionadas à Apple, fatores que ampliaram as preocupações dos investidores com as perspectivas de crescimento da companhia.
O índice de semicondutores da Bolsa da Filadélfia, conhecido como SOX, acumulava perdas de 7,1%. Entre as empresas atingidas estavam Nvidia, Advanced Micro Devices (AMD), Intel e Marvell Technology, cujas ações também registraram desvalorizações expressivas.
A pressão sobre essas companhias ocorre em um momento de questionamentos sobre o ritmo de expansão dos investimentos em inteligência artificial, um dos principais motores da valorização das empresas de tecnologia nos últimos anos. Vitória democrata coloca incentivos à inteligência artificial em discussão
A mudança na composição política do Congresso estadunidense passou a influenciar as expectativas sobre o ambiente regulatório das empresas de tecnologia. A analista sênior do Swissquote Bank, Ipek Ozkardeskaya, avaliou que o fortalecimento dos democratas poderá resultar em maior fiscalização dos projetos de inteligência artificial incentivados pela administração Trump.
“Agora existe a possibilidade de que os dois anos de incentivo extra do governo Trump para o desenvolvimento da IA sejam de alguma forma reduzidos, porque muita coisa relacionada ao comércio de IA foi ignorada pela atual administração”, afirmou Ozkardeskaya à Reuters. A especialista acrescentou: “Suspeitamos que haverá algum escrutínio sobre essa implementação agressiva de IA.”
O resultado das eleições também ganhou importância para empresas que investem na construção de centros de processamento de dados. Em determinados estados estratégicos para essa infraestrutura, a expansão acelerada das instalações enfrenta resistência de comunidades preocupadas com seus impactos.
Empresas de centros de dados sofrem desvalorizações de até 13% A deterioração das expectativas atingiu diretamente companhias responsáveis pela operação e pelo desenvolvimento de infraestrutura destinada à inteligência artificial.
As ações das operadoras de centros de dados IREN, Hut 8 e Applied Digital registraram quedas entre 6% e 11%. Entre as empresas especializadas em oferecer capacidade de computação em nuvem para aplicações de IA, a CoreWeave perdeu 9,3%, enquanto o Nebius Group recuou 13,4%.
A fabricante de servidores Dell também sofreu uma desvalorização expressiva, de 10,5%, refletindo a pressão sobre empresas ligadas à infraestrutura tecnológica. Companhias de energia e fornecedoras de equipamentos que participam da expansão dos centros de dados também operavam em baixa.
Entre elas estavam GE Vernova e Constellation Energy. O movimento revela que a retração não ficou restrita às fabricantes de chips, alcançando diferentes segmentos da cadeia de investimentos em inteligência artificial.
Tesla despenca 9,5% após derrota eleitoral dos republicanos As empresas ligadas ao empresário Elon Musk também registraram perdas significativas na sessão.
A Tesla, fabricante de veículos elétricos comandada pelo bilionário, recuava 9,5%, enquanto a SpaceX apresentava desvalorização de 6,7%, prolongando as perdas anteriores. Musk destinou quase meio bilhão de dólares ao financiamento de candidatos republicanos, incluindo iniciativas para preservar o controle do partido no Texas, estado onde estão sediadas as duas companhias.
A derrota eleitoral dos republicanos acrescentou um componente político às incertezas enfrentadas por empresas associadas ao empresário, embora a sessão também tenha sido marcada por uma queda generalizada das ações de tecnologia. Entre outras gigantes do setor, a Meta Platforms recuava 3,4%, enquanto Amazon e Alphabet, controladora do Google, registravam perdas mais moderadas.
Mercado reavalia cenário político e política monetária dos EUA O desempenho negativo desta quinta-feira contrastou com o pregão anterior, quando o S&P 500 registrou sua maior valorização percentual diária em três meses.
Na quarta-feira (4), a redução das incertezas eleitorais havia estimulado a procura por ativos de maior risco. Parte dos investidores interpretou a perspectiva de um governo dividido em Washington como um possível fator de contenção de mudanças legislativas abruptas.
Analistas também consideram que a nova configuração política poderá dificultar a aprovação de medidas de expansão dos gastos públicos, em um cenário de deterioração das contas fiscais dos Estados Unidos. Além das questões políticas, os investidores acompanham a trajetória dos preços do petróleo e seus efeitos sobre a inflação.
Bancos centrais de diferentes países têm reconhecido a persistência das pressões inflacionárias, agravadas pela alta do petróleo associada ao conflito no Oriente Médio. Nesta quinta-feira, a presidente do Federal Reserve de Cleveland, Beth Hammack, manifestou preferência por uma trajetória gradual de elevação dos juros para reduzir a inflação.
O mercado agora concentra suas atenções na divulgação do relatório de empregos dos Estados Unidos referente a outubro, prevista para sexta-feira (6). Os dados poderão influenciar as expectativas sobre os próximos movimentos do Federal Reserve.
Após a elevação dos juros em setembro, operadores trabalham com a possibilidade de um novo aumento das taxas na reunião de dezembro. Snap perde 12%, enquanto AppLovin dispara 32%
Apesar da tendência negativa predominante, os resultados corporativos produziram movimentos distintos entre empresas de tecnologia. As ações da Snap, controladora do Snapchat, caíram 12% depois que a companhia apresentou receita do terceiro trimestre inferior às projeções dos analistas.
Em sentido contrário, a AppLovin, plataforma especializada em soluções de marketing, registrou valorização de 32% após divulgar lucro trimestral acima das expectativas do mercado. O balanço geral da sessão, contudo, mostrou predomínio das perdas.
Na Bolsa de Nova York, a proporção de ações em queda em relação às que avançavam era de 1,36 para 1. No Nasdaq, essa relação chegava a 2,17 para 1.
O S&P 500 contabilizou 69 ações atingindo suas maiores cotações em 52 semanas e três registrando novas mínimas. No Nasdaq, foram 132 novas máximas e 247 novas mínimas.
Entre os 11 principais setores do S&P 500, cinco operavam em território negativo. Tecnologia e consumo discricionário lideravam as perdas, enquanto o segmento de energia apresentava o melhor desempenho.
A combinação de desvalorização das empresas de tecnologia, incertezas sobre os incentivos à inteligência artificial e expectativas de novos aumentos dos juros colocou Wall Street sob pressão, revertendo parte do otimismo registrado imediatamente após as eleições legislativas.
Brasil 247