O mapa do câncer

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.

Quase 75% dos tumores provocados por agentes infecciosos e parasitários surgiram nos países de baixa e média renda A incidência de câncer aumenta no mundo inteiro.

Em 2024, ocorreram cerca de 20 milhões de casos. Em 2050, devido ao envelhecimento populacional, esse número chegará a 35 milhões.

Há décadas sabemos que certos agentes infecciosos são responsáveis por parte significativa desses números. Eles estão entre as causas preveníveis mais importantes para mulheres em 141 países e em outros 58 países para os homens.

Muitos são passíveis de prevenção por vacinas, diagnósticos laboratoriais, tratamentos e práticas de sexo seguro. A International Agency for Research on Cancer (Iarc) classificou os seguintes agentes como pertencentes ao Grupo 1, em relação aos quais existem evidências suficientes de atividade carcinogênica em seres humanos.

São eles: Helicobacter pylori, vírus da hepatite B (HBV), vírus da hepatite C (HCV), papilomavírus humano (HPV), vírus de Epstein-Barr (EBV), HTLV-1, herpesvírus associado ao sarcoma de Kaposi (KSHV), Opisthorchis viverrini, Clonorchis sinensis, Schistosoma haematobium, MCV e HIV.

Em 2024, em torno de 12% dos casos mundiais de câncer (2 milhões a 3 milhões) foram causados por infecções. O agente que maior número provocou foi o Helicobacter pylori: 760 mil casos.

Em segundo lugar veio o papilomavírus (HPV): 750 mil. Em terceiro, o vírus da hepatite B (HBV): 360 mil.

Em quarto, o vírus de Epstein-Barr (EBV): 260 mil. Em quinto, o vírus da hepatite C (HCV): 160 mil.

E, em sexto, o KSHV: 35 mil. Os tumores malignos atribuíveis ao Helicobacter pilory ocorreram no corpo e no fundo do estômago.

Aqueles associados ao HPV se instalaram no colo uterino (100% dos casos), pênis, vulva, vagina, uretra, região anal, cavidade oral, orofaringe, base da língua e laringe. Causaram hepatocarcinomas os vírus da hepatite B e da hepatite C.

Houve 110 mil carcinomas de nasofaringe, 88% dos quais relacionados com o EBV. O KSHV – associado ao sarcoma de Kaposi – foi o únco agente dos 34 mil casos ocorridos naquele ano.

Perto de 75% dos casos provocados por agentes infecciosos e parasitários surgiram nos países de baixa e média renda, particularmente no Leste e no Sudeste da Ásia, e nos países abaixo do Deserto do Saara. A bactéria H.

pilory é o principal agente infeccioso envolvido na carcinogênese. A maior parte dos casos ocorre no Leste da Ásia.

Países como Japão, Coreia do Sul e China desenvolvem programas de rastreamento com endoscopia e raio X com contraste, para diagnóstico precoce e tratamento da infecção, estratégia eficaz, mas com custos que dificultam sua aplicabilidade. O tratamento da bactéria com antibióticos tem impacto maior.

Embora presentes no mundo inteiro, os cânceres associados ao HPV estão mais concentrados na região abaixo do Saara. Os subtipos HPV16 e HPV18 respondem por três quartos dos casos.

A principal estratégia preventiva é a vacinação para meninas e meninos antes do início da vida sexual. As dificuldades não são pequenas, especialmente nos países mais pobres.

Espera-se que novas vacinas e os programas baseados em dose única tenham impacto maior. Os cânceres de fígado (hepatocarcinoma e colangiocarcinoma) atribuíveis ao HBV e ao HCV atingem prevalência mais elevada no Leste e no Sudeste da Ásia e no Norte da África, sendo as regiões da Mongólia e do Egito as mais afetadas.

A OMS criou um programa para a imunização neonatal contra o HBV, promoção de práticas para injeções seguras, acesso ao teste diagnóstico e ao tratamento antiviral para ambos os vírus. Embora o EBV esteja disseminado pelo mundo, provocando carcinomas de nasofaringe, linfomas e câncer de estômago, não existem estratégias eficazes de prevenção.

Estão sendo testadas diversas preparações vacinais. A prevenção do sarcoma de Kaposi está ligada diretamente ao controle da infecção pelo HIV, objetivo alcançado pelo tratamento antiviral.

Antes da descoberta dos antivirais de alta eficácia contra o HIV, o sarcoma de Kaposi ocorria com frequência em homens que fazem sexo com outros homens. Com os medicamentos que tornam a carga viral indetectável, a doença se tornou rara.

Vale a pena lembrar que o impacto desses agentes não está limitado aos tumores malignos. Eles também estão associados a doenças que são benignas, mas causam problemas clínicos que afetam a saúde e a qualidade de vida: cirrose hepática (HBV e HCV), mononucleose (EBV), gastrite, úlcera péptica e sangramento digestivo (H.

pilory), entre outros. •

Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026. Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O mapa do câncer’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital. Drauzio Varella Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil.

Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003. Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

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Publicação Original Carta Capital cartacapital.com.br
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