Trump é obstáculo ao próprio partido nas eleições, diz ex-assessor de Bush

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Fonte da notícia: Valor Valor

O presidente dos EUA, Donald Trump, tornou-se um fardo eleitoral para os candidatos republicanos nas eleições legislativas de terça-feira, e sua baixa popularidade torna altamente provável a perda do controle da Câmara dos Deputados pelo partido, afirma Douglas Heye, estrategista republicano e ex-diretor de comunicação do Comitê Nacional Republicano (RNC).

Para Heye, que também foi porta-voz da agência federal de apoio às pequenas empresas durante o governo do republicano George W. Bush, criador da chamada “Guerra ao Terror”, o cenário atual guarda muitas semelhanças com o de 2006, quando a impopularidade do conflito no Iraque contribuiu para desgastar o então presidente republicano e seu partido.

Bush perdeu o controle das duas Casas do Congresso nas eleições daquele ano. O estrategista alerta ainda que uma retomada do controle da Câmara pelos democratas abriria caminho para uma série de investigações sobre o governo federal, abrangendo desde a guerra no Irã e as ações americanas na Venezuela até a demolição da ala leste da Casa Branca para a construção de um salão de festas.

Segundo ele, os democratas passariam a presidir comissões parlamentares com poder para convocar autoridades e exigir documentos, o que representaria um risco significativo para Trump. Heye baseia suas teses nas pesquisas que mostram o alto grau de desaprovação de Trump.

A sondagem divulgada no dia 15 pelo Centro de Pesquisas de Assuntos Públicos da Associated Press-Norc mostrou que oito em cada dez eleitores registrados desaprovam a maneira como Trump lida com o custo de vida. O levantamento também aponta que 47% dos eleitores registrados preferem que o Partido Democrata controle a Câmara dos Deputados, percentual que chega a 46% no caso do Senado.

Em ambas as Casas, 38% defendem a manutenção da maioria republicana. A economia e o custo de vida, por sua vez, estão entre os temas considerados mais importantes pelos eleitores na hora de decidir seu voto, citados por 85% e 84% dos entrevistados, respectivamente.

Na sequência, aparecem a saúde (69%) e a impopular guerra com o Irã (64%), que tem pressionado os preços dos combustíveis há meses. Outra sondagem, da Reuters/Ipsos, divulgada em 26 de outubro, mostrou que a aprovação de Trump subiu apenas um ponto percentual, para 32%, após atingir a mínima histórica de 31% na semana anterior.

Na mesma pesquisa, os democratas aparecem com 47% das intenções de voto para o Congresso, ante 36% dos republicanos. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Pesquisas recentes mostram os democratas à frente dos republicanos na intenção de voto dos eleitores, enquanto os índices de aprovação do presidente Trump permanecem em níveis historicamente baixos. Qual é o tamanho do risco de uma derrota republicana em novembro, na sua avaliação?

Douglas Heye: Bem, no caso da Câmara dos Deputados, parece que a disputa já está decidida. Considerando o nível de aprovação do presidente e a maioria muito pequena [de deputados] que os republicanos têm atualmente, é quase impossível imaginar como eles conseguiriam manter o controle da Câmara.

O Senado é uma questão muito diferente. A cada dois anos, é um grupo diferente de senadores que disputa a eleição, o que sempre torna um pouco mais difícil prever o resultado.

E não vi nada que realmente nos permita dizer com segurança o que exatamente vai acontecer no Senado neste momento. Há muitas disputas acirradas, nas quais os candidatos estão dentro da margem de erro das pesquisas.

Tirando a possibilidade de os democratas conquistarem uma cadeira na Carolina do Norte, todas as outras disputas são difíceis de prever neste momento. Acho que eles [democratas] também vão vencer em Ohio, mas, depois disso, fica muito difícil determinar quem ganhará no Maine, em Michigan, no Texas ou no Alasca.

É muito difícil fazer previsões. Valor: Estamos diante de uma reação típica contra o partido que ocupa a Casa Branca nas eleições de meio de mandato ou de algo mais profundo?

Heye: Acho que é muito semelhante ao que vimos em 2006, quando o presidente Bush não era popular e tínhamos uma guerra em andamento no Oriente Médio que também era impopular. Além disso, há a questão da inflação e dos preços, que já é um problema há vários anos.

Tudo isso contribuiu para que o índice de aprovação de Trump esteja tão baixo, especialmente em relação à economia, e explica por que os republicanos estão em uma situação tão difícil nesta eleição. Trabalhei em uma campanha para o Senado em 2006 e me lembro de como era difícil fazer nossa mensagem chegar aos eleitores.

O noticiário do dia era predominantemente negativo, e o presidente tinha um índice de aprovação baixo. E, independentemente do que tentássemos fazer, tudo o que nosso adversário precisava fazer era falar sobre o meu candidato e Bush.

Isso bastava para definir a opinião dos eleitores. Os democratas estão fazendo exatamente a mesma coisa agora, associando os republicanos ao presidente Trump na maior intensidade que conseguem.

Valor: O senhor já comentou anteriormente a situação difícil enfrentada por candidatos republicanos que desejam se distanciar de algumas políticas do presidente Trump, mas correm o risco de afastar seus apoiadores ou provocar ataques do próprio presidente. Trump se tornou um problema eleitoral para os republicanos em disputas competitivas?

Heye: Ah, sem dúvida. A única razão pela qual algumas dessas disputas são competitivas é o nível de aprovação de Trump.

Ele está com 36% ou 37% [em algumas pesquisas]. Se estivesse com 47%, a disputa na Carolina do Norte [pelo Senado] seria muito mais favorável aos republicanos.

Susan Collins estaria muito mais tranquila em relação à sua reeleição. O mesmo vale para Mike Rogers e John Husted, em Michigan e Ohio.

Trump é um peso para esses candidatos republicanos. O desafio é que, primeiro, Trump não pretende sair de cena.

Então, ele está fazendo campanha, mas não necessariamente ajudando. Além disso, existe uma parcela da base republicana que apoia Donald Trump acima de tudo.

Por isso, os candidatos republicanos estão em uma posição muito difícil, tentando não afastar esses eleitores, o que torna a campanha muito mais complicada para eles. Valor: Como esses candidatos podem conquistar eleitores independentes e moderados sem perder a base Maga? E o senhor acredita que o Partido Republicano se tornou excessivamente dependente do apelo político pessoal de Trump?

Heye: Sem dúvida se tornou. E é por isso que a Câmara dos Deputados já está politicamente perdida para eles.

E, potencialmente, o Senado também. Eles precisam tratar das questões sobre as quais os eleitores estão falando o dia inteiro, todos os dias.

E, mais uma vez, isso começa pelo preço das coisas. Qualquer tempo gasto com outros assuntos não ajuda esses candidatos.

E parte do desafio que enfrentam é que Trump faz com que o debate não se concentre nos temas de que os candidatos republicanos precisam tratar. Nesta semana mesmo, por exemplo, ele disse que estava feliz porque as pessoas estavam ganhando dinheiro com os preços elevados da gasolina [apesar do impacto sobre consumidores].

Nenhum candidato republicano quer falar sobre isso. Ou então ele nega que os preços estejam altos, ou fala que a guerra no Irã, que tem afetado os preços, pode continuar indefinidamente.

Nada disso ajuda os candidatos republicanos. Valor: A política externa do presidente Trump, particularmente a guerra com o Irã e sua postura em relação à Rússia, tem provocado críticas de alguns candidatos e parlamentares republicanos.

Até que ponto essas questões estão aprofundando as divisões dentro do Partido Republicano? Heye: Bem, acho que ainda não sabemos.

E parte disso se deve ao fato de que primeiro precisamos ter as eleições. À medida que os resultados forem conhecidos, eles nos dirão algo sobre os rumos do partido.

Se os republicanos perderem só a Câmara, ainda poderá haver alguma sustentação política para o presidente. Mas, se ele perder a Câmara e o Senado, muita gente vai apontar o dedo para Trump.

Teremos John Thune passando de líder da maioria para líder da minoria no Senado. Teremos o presidente da Câmara, Mike Johnson, deixando de ocupar o cargo.

E políticos e candidatos vão procurar responsáveis pela derrota. Muitos desses dedos serão apontados para o presidente.

Valor: Há algo que os republicanos possam realisticamente fazer nos últimos dias de campanha para convencer os eleitores de que estão mais preparados para enfrentar as preocupações econômicas e reduzir os preços? Heye: Neste momento é muito difícil fazer isso.

Basicamente, falta menos de uma semana para as eleições, e a maioria dos eleitores já tomou sua decisão. Então, o que estamos vendo agora é que tanto republicanos quanto democratas estão concentrados não exatamente em tentar persuadir os eleitores independentes, mas em levar seus próprios eleitores às urnas e maximizar a participação eleitoral da melhor maneira possível.

Valor: Se os democratas retomarem o controle da Câmara dos Deputados, ou das duas Casas do Congresso, até que ponto isso limitaria a agenda do presidente Trump nos dois últimos anos de seu mandato? Poderíamos assistir a investigações parlamentares mais agressivas e pedidos de impeachment?

Heye: Bem, acho que tudo começa pelas investigações. E é por isso que, no caso desta Casa Branca, eles não parecem tão preocupados com a possibilidade de perder a Câmara quanto eu esperaria que estivessem, nem estão gastando tanto dinheiro com isso.

Porque haverá todos esses novos presidentes de comissões, presidentes democratas, que terão poder para emitir intimações. E eles passarão muito tempo investigando absolutamente todas as questões relacionadas a este governo: desde o Irã até se Trump agiu ou não dentro da lei na Venezuela, ou ao demolir a ala leste da Casa Branca para construir um salão de festas maior, e todas as questões comerciais relacionadas a isso.

É um risco real para o presidente. Em termos legislativos, não vejo muita coisa acontecendo com um governo dividido.

E parte disso também se deve ao fato de que Trump não se importa muito com a legislação. Ele quer um Poder Executivo forte, uma Presidência forte, para poder fazer as coisas que deseja.

Não necessariamente ter de negociar isso com um Congresso republicano ou democrata. E, por fim, sobre a questão do impeachment, acho que ainda não sabemos.

Isso será algo que os democratas terão de resolver por conta própria. Minha impressão é que haverá um debate bastante intenso dentro da bancada democrata sobre essa questão.

Alguns desses parlamentares, esses novos integrantes que são socialistas democráticos e assim por diante, vão querer abrir processos de impeachment contra o presidente ou contra vários integrantes de seu gabinete. Mas a liderança democrata pode estar menos disposta a fazer isso.

Então, acho que ainda não sabemos como essa situação vai se desenrolar.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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