COP na Armênia tenta equilibrar meta e recursos para a biodiversidade

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Fonte da notícia: Valor Valor

A revisão do desempenho de metas ambientais é o mote da COP17, a conferência das Nações Unidas sobre biodiversidade que ocorre na capital da Armênia, com previsão de encerramento no fim de semana. O balanço não é estimulante - a intenção é acelerar o passo.

Mas ambição requer mais recursos, equação muito improvável de ser solucionada nas horas finais da reunião em Yerevan. A pauta da conferência não é das mais turbulentas, mas de alta complexidade.

Até agora, as tensões têm sido sutis. “Mas sempre pode haver drama no final”, diz um negociador.

A reunião em Yerevan, uma das cidades mais antigas do mundo, não é das COPs mais congestionadas - 18 mil participantes de 196 países em comparação aos 23 mil da edição anterior, em Cáli, na Colômbia, em 2024. Em alguns momentos, há mais interesse no que acontece fora dos corredores do centro de exposição Meridian - a disputada eleição no Brasil, a fuga de Flavio Bolsonaro, a eleição em Israel e, agora, as de meio de mandato nos EUA.

Em Yerevan acontece a primeira revisão global do Marco da Biodiversidade Kunming-Montreal, acordo de 2022. Conhecido como o Acordo de Paris da Biodiversidade, o pacto busca deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030 e estabeleceu 23 metas de ação global rápida.

Uma das mais famosas é a de proteger pelo menos 30% das terras, 30% dos oceanos e 30% das águas continentais até 2030. Outra é recuperar 30% de todos os ecossistemas degradados terrestres e marinhos.

Há uma meta também que pretende reduzir pela metade a introdução e a propagação de espécies invasoras. A outra ponta do esforço de proteção de países com mais biodiversidade - concentrados no Hemisfério Sul - é ter recursos.

O compromisso firmado foi de se conseguir US$ 200 bilhões ao ano, de fontes públicas e privadas, para apoiar as metas - deste total, pelo menos US$ 30 bilhões ao ano deveriam vir dos países ricos. Não há transparência na contabilidade.

Países ricos, via OCDE, dizem que chegaram perto dos US$ 20 bilhões em 2025, o que não é tido como confiável pelos em desenvolvimento. A suspeita é de que os mesmos recursos são contabilizados para ações climáticas e biodiversidade.

O balanço mostra que o desempenho nas metas não é positivo nem uniforme. No caso do Brasil, com recorde no combate ao desmatamento, por exemplo, a tendência de implementação do acordo é tida como positiva.

Uma das quedas de braço é que países ricos, principalmente da União Europeia, querem resgatar o espírito do acordo de 2022 e reverter a perda de biodiversidade. Os com biodiversidade concordam.

Mas o hiato de financiamento só cresce. Há quatro anos a estimativa era de déficit anual de US$ 700 bilhões, revisada para quase US$ 1 trilhão.

Os volumes da ajuda ao desenvolvimento caíram 25% em 2025 ante 2024 e os recursos do Global Environment Facility (GEF), tradicional fundo para projetos ambientais, tiveram queda de quase 30%. “O envelope do GEF é de US$ 3,8 bilhões para cobrir várias convenções ambientais.

Só em biodiversidade, o gap é estimado em US$ 1 trilhão”, diz um delegado que participa da COP17. Cientistas, governos e ambientalistas exploram alternativas de financiamento.

O TFFF, fundo para florestas tropicais, é uma modalidade que busca investimentos para manter florestas em pé e proteger a biodiversidade. “É preciso pensar fora da caixa”, reconhece um ambientalista.

Em paralelo, muitos eventos discutiram créditos de biodiversidade - algo ainda polêmico e nebuloso. Há resistência à ideia de se “carbonizar a natureza”, em referência aos créditos de carbono do debate climático.

Indicadores para medir a biodiversidade são muito mais complexos que emissões de carbono. Os países ricos empurram a discussão para a revisão de incentivos danosos à natureza, algo próximo a US$ 500 bilhões anuais.

Os delegados dos países em desenvolvimento concordam que existem, mas entendem que há um desvio político para a falta de compromisso real do mundo desenvolvido com a conta da proteção à biodiversidade. O Brasil procura inserir nos textos em negociação a palavra bioeconomia para iniciar a discussão de uso sustentável da biodiversidade.

A Arábia Saudita observa com atenção os esforços de sinergia entre as três convenções ambientais da RIO 92 - de clima, biodiversidade e combate à desertificação. Os sauditas temem que o debate sobre o fim da exploração dos combustíveis fósseis contamine outras fronteiras de negociação.

Os europeus puxam a discussão de que o mundo mudou, há novos países ricos e a base de doadores deveria ser ampliada. A China, por sua vez, observa o debate em silêncio.

Outro tema é o Fundo Cáli, um mecanismo financeiro global criado para repartir benefícios pelo uso comercial de informações de sequenciamento digital dos recursos genéticos da biodiversidade. É assunto complexo, mas que busca beneficiar povos indígenas e comunidades tradicionais que preservam a natureza.

Quem deve pagar são empresas de cosméticos, medicamentos e alimentos, que lucram com os recursos da biodiversidade. O mecanismo, contudo, trouxe até agora poucos recursos.

A jornalista viajou à COP17 a convite do Instituto Climainfo

Publicação Original Valor valor.globo.com
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