Resultado das urnas deve afetar de política fiscal a nomeações de Trump

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Fonte da notícia: Valor Valor

Analistas políticos e econômicos traçam cenários para os principais temas que devem dominar Washington após a eleição de meio de mandato, na próxima terça-feira. O resultado pode ter implicações em áreas como fiscal e tecnologia, ainda que políticas importantes, como comercial e migratória, devam seguir nas mãos do presidente Donald Trump - porém, sob maior escrutínio.

Uma vitória dos democratas, por exemplo, deve implicar aumento de gastos em saúde, enquanto republicanos olhariam mais para a redução dos impostos sobre ganho de capital, aponta a Oxford Economics. No campo econômico, uma série de temas está em jogo.

O principal deles, provavelmente, é o aumento do teto da dívida que, se não for aprovado, pode paralisar o governo americano até meados de 2027. “Caso os democratas retomem o controle de uma ou de ambas as casas do Congresso, será do interesse deles aprovar recursos de curto prazo e adiar a discussão para o ano seguinte, quando terão maior influência na definição da agenda de gastos”, diz a Oxford.

Analistas esperam que democratas usem o tema como barganha para aprovar outras pautas, o que pode atrasar e tumultuar bastante o processo. Trump expandiu muito o alcance do Executivo neste segundo mandato, diversas vezes com a validação da Suprema Corte, e, por isso, reverter várias de suas decisões não será tarefa fácil para o parlamento.

Mas um Congresso democrata deve, ao menos, usar seus poderes de supervisão e investigação para tentar responsabilizar o presidente e entorno por suas políticas, diz William Galston, ex-assessor de Bill Clinton e pesquisador da Brookings Institution. Além disso, aponta, se os democratas conquistarem também o Senado, Trump poderá ter dificuldades para confirmar seus indicados a cargos no Judiciário, por exemplo.

E, ainda que Trump mantenha poder, um Congresso democrata também poderia contestar as ações do presidente a cada passo, retardando - e talvez até interrompendo, através de mobilização - algumas dessas medidas. Com a política doméstica travada, especialistas esperam que Trump se volte ainda mais para a política externa - o que, inclusive, é comum após eleições de meio de mandato, dizem.

As estratégias, no entanto, devem ser diferentes para disputas comerciais e militares. No âmbito comercial, Ryan Hass, diretor do Centro John L.

Thornton para a China, diz esperar um “ativismo implacável”, até como forma de Trump desviar a narrativa das investigações que um Congresso democrata deve impor sobre suas ações, as de sua família e do governo. As tarifas, por exemplo, podem ser usadas por Trump para testar os limites de sua autoridade e buscar aumentar influência sobre outros países.

Ao mesmo tempo, como Trump reclassificou a política tarifária como competência do Executivo, sob a alegação de questões de segurança nacional e de balanço de pagamentos, um Congresso democrata teria dificuldades para revertê-la. Em relação a confrontos militares, é possível que Trump reduza o número de tropas no Oriente Médio, dependendo dos rumos da guerra no Irã, e na Europa, por exemplo, já que a repatriação é uma medida popular entre americanos atualmente, observa Hass.

Ao mesmo tempo, especialistas não descartam uma ação discricionária de Trump em Cuba, mas, para evitar mais desgastes domésticos, teria de ser rápida e cirúrgica como a feita contra Nicolás Maduro na Venezuela, afirmam. O problema, dizem, é que Trump não parece ter encontrado ainda um aliado local para reproduzir o método usado com Delcy Rodríguez.

O futuro da guerra no Irã - que está por trás da elevação do custo de vida, a principal preocupação dos americanos nesta eleição - é um grande tema para o próximo Congresso. Os democratas sentirão a pressão e agirão para conter o conflito, mas isso é mais fácil de dizer do que de fazer, observa Scott Anderson, ex-diplomata e advogado do governo americano, pesquisador na Brookings.

Segundo ele, mesmo uma maioria democrata dificilmente terá o apoio de dois terços necessário para derrubar um veto presidencial e implementar restrições legislativas no tema. Ainda assim, ele diz que um Congresso democrata poderá exercer “substancial pressão” sobre o governo Trump através de “métodos alternativos” que, como minoria, já tem usado, a exemplo de pedidos de urgência e de tramitação prioritária, promulgação de medidas não legislativas (resoluções, por exemplo) contrárias às políticas do governo e até a exploração de novas opções de litígio.

Será difícil também para um Congresso democrata alterar o grande símbolo da política migratória de Trump: a atuação do Serviço de Imigração, o ICE. Foi por meio de decretos presidenciais que Trump expandiu o alcance do ICE já no seu primeiro mandato.

O que os Congressistas podem fazer é restringir o orçamento federal para essas e outras áreas. Cortar o financiamento nem sempre é uma alternativa politicamente viável, pondera Anderson.

Uma área em que analistas esperam mais mudanças - e que interessa ao Brasil - é a agenda climática e de transição energética, que ficou de lado com o desinteresse de Trump misturado às pautas específicas de um Congresso republicano. Tentativas de maior regulação também são esperadas por um Congresso democrata visando setores econômicos estratégicos na atualidade, como Inteligência Artificial (IA) e criptomoedas.

O Morgan Stanley aponta que a manutenção de uma maioria republicana seria o cenário mais favorável para IA e data centers, com menor atrito regulatório, licenciamento mais simples e expectativas de menos restrições. Já uma vitória democrata ampla seria o cenário mais desafiador, devido ao potencial aumento de restrições ou oposições.

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