Na gíria de rua do Rio, “ret” quer dizer um cigarro apertado de maconha. Mas não foi por isso que Filipe Ret, nascido Filipe Cavaleiro de Macedo da Silva Faria, escolheu o sobrenome artístico.
Foi pelo “xarpi” — a pichação ilegal de rua, rabiscos de muros, marquises, fachadas de prédios, uma questão urbana que o músico, hoje com 41 anos, conhece com intimidade. Quem picha tem uma tag, um codinome, quase sempre curto e meio andrógino, e Filipe, que começou aos 11 anos de idade (“Dei trabalho para os meus pais em relação a isso”, lembra), criou o seu inspirado em Let, lendário pichador carioca que morreu nos anos 2000.
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The Cure: Mais shows e músicas novas em 2027 A rua foi a escola do rapper nascido e criado no Catete, Zona Sul do Rio, como ele conta ao GLOBO nesta entrevista feita por chamada de vídeo.
Bem à vontade do sofá de casa, sem camisa e fumando cigarro, Filipe Ret repassa sua trajetória desde a adolescência turbulenta até sua consagração como um dos grandes nomes do rap da sua geração — recentemente ele foi o primeiro rapper brasileiro que ultrapassou a marca de dez bilhões de streams nas plataformas digitais.
Amanhã, Ret leva para a Farmasi Arena, na Barra, Zona Sudoeste carioca, o Retianismo, um projeto inédito que, além de show, traz ativações como uma pequena exposição com itens relacionados à carreira meteórica do artista. Como foi sua adolescência e seu ambiente familiar? Deu muito trabalho para os pais?
Quando eu era criança, gostava muito de desenhar. Desenhava pra me encontrar, lidar com as minhas imperfeições, meu desajuste, tá ligado? Logo na pré-adolescência, com 11 anos, pichei meu primeiro muro.
Não foi uma escolha consciente, foi intuitivo, no sentido de encontrar uma identidade. Dei trabalho para os meus pais em relação a isso.
Nos anos 1990, não tinha internet, a rede social era a rua. Rodei pra polícia algumas vezes.
Tudo isso compõe meu imaginário do Rio de Janeiro. Minha família não era abastada, mas a gente teve o digno, nunca passou fome.
Minha mãe foi professora municipal e de colégio particular, onde fui bolsista. Consegui uma base de educação, com muito empurrão dela, porque senão eu teria repetido de ano várias vezes.
Sempre me considerei um cara com certa limitação cognitiva, para ser sincero. Meu pai é arquiteto, um artista, lembro dele desempregado, pintando quadro para vender.
E como foi o começo no rap? Fui um moleque da rua, criei minha identidade na rua, e comecei a fazer show na rua.
Tenho o espírito de um artista de rua que vendeu CD de mão em mão. Acho muito importante o trabalho físico de estar na rua, e transmito isso para a molecada.
Minha adolescência foi na Lapa, juntando trocado para comprar cerveja. A Lapa era o lugar mais democrático, com mais coisas diferentes.
Eu era um moleque com muita dificuldade de se comunicar e uma grande necessidade de se expressar. Também tive crises muito fortes, tive que tomar remédios pesados.
Para parar de tomar esses remédios, por sobrevivência, comecei a escrever num blog para organizar minha cabeça. O Retianismo me fez pensar sobre isso tudo.
Os três elementos, o desenho, a pichação e a lírica como salvação. Tudo isso explodiu em forma de música.
Esse moleque que tinha extrema dificuldade de se comunicar virou um dos artistas de maior sucesso da sua geração. Para mim, é um milagre.
Quais lembranças tem desse começo na Lapa? Eu juntava trocado para comprar o máximo de cerveja possível para lidar com a baderna da Lapa e tentava entrar nas casas.
Se tinha microfone, eu pegava e rimava. Eu era esse moleque chato pra caramba, tentando pegar o microfone.
Comecei a participar das batalhas. Ali vi que aquilo era muito humano, e vi que eu queria me expressar daquela forma.
Você se formou em Jornalismo. De que maneira a faculdade de Comunicação agregou na construção de sua persona artística?
Fui pela Comunicação Social e, de fato, pensava que eu precisava aprender a me expressar sem tanta dificuldade. Tenho melhorado, porque a vida social foi me levando a falar mais com as pessoas, mas sempre tive essa questão.
No meu show eu não falo tanto, não sou um cara que fica discursando. Fui fazer Comunicação por intuição e lá tive contato com outros pensadores, aula de Filosofia, que eu me amarrava.
Foi um lugar interessante para conhecer autores, ler mais, me aprofundar na lírica, reforçar a minha personalidade. Você lançou um primeiro disco em 2009, mas estourou mesmo com o segundo, “Vivaz”, de 2012.
Como analisa a evolução do seu som de lá para cá? Eu diria que ficou mais objetiva no trap.
Mas nunca perdeu a intenção filosófica, de questionar, existencial, de identidade de rua. Passa por partes românticas, filosóficas, mais objetivas, às vezes mais materialistas e consumistas, porque a cena também ficou dessa forma, e para me comunicar com a galera do momento, talvez.
Você tem duas músicas com “Deus” no título, “Acima de mim só Deus” e “Absolvido por Deus”. Você é um cara religioso?
Minha relação com Deus é estreita. Tenho a pretensão de falar diretamente com Deus.
Me sinto nesse lugar de intimidade, que acho pretensioso. Sempre foi assim.
Viralizou uma resposta sua a um seguidor no Instagram. Ele pedia: “Pelo amor de Deus, me tira do tráfico”, e você respondeu mostrando uma conta de quanto dava para ganhar vendendo quentinha.
Recebe muitas mensagens assim? Não quero falar sobre isso.
A direita agora pegou isso pra me atacar, já fez fake news. As pessoas confundem.
A gente tem que fazer a nossa parte, e, na hora de votar, eu voto em quem tem mais espírito público. Sente peso, responsabilidade, com a molecada te vendo como exemplo?
Não sei se é exatamente peso, mas preciso questionar, continuar pensando e progredindo, me atualizar como qualquer artista. Todo artista é progressista.
Preciso estar conectado, a gente não pode estar ao lado de ideias que vão retroceder. A gente sempre vai ser a favor de reduzir desigualdade de oportunidades.
O artista tem que ter uma visão mais ampla da sociedade, a gente lida o tempo todo com o povo, todo dia tem um moleque me contando a história dele. A função do artista é estudar, questionar e fazer as pessoas questionarem.
A ostentação é comum no meio do rap, um comportamento compreensível por ser uma afirmação de quem venceu, mas também criticado num país tão desigual. Incomoda virar notícia por causa dos seus carros, por exemplo?
Houve um momento da cena em que teve essa corrida de ostentação, mas acho que isso está diminuindo, e é muito positivo diminuir. Mas entendo como algo natural.
Quem não teve, quando conquista, nunca acha normal. Todos os dias eu penso: “Caramba, olha a casa que eu moro, o carro que estou dirigindo.” A gente imaginou e construiu uma coisa ideal, e é sempre um espanto ter uma equipe boa do meu lado, fazer shows, as pessoas cantarem as músicas.
Vivo em estado de gratidão. Mas acho mais positivo valorizar o ser do que o ter, e o Retianismo é isso, perseguir um ideal, e isso traz a riqueza material como consequência.
Como foi sua relação com as drogas ao longo da vida? Li que você deu uma desacelerada com a chegada do seu filho. Eu tive muita dificuldade, no início, de subir no palco e enfrentar o público, então sempre bebia.
Usei drogas mais pesadas durante um tempo, mas no fim fui me consertando, fui gostando de organizar a rotina, de treinar, mudando meus costumes para sobreviver. Ainda sou viciado em cigarro, mas já estou bem, mais equilibrado.
O filho me colocou num norte, para levar a vida de show um pouco mais a sério. Num show a gente gasta mais de mil calorias, como um jogador numa partida de futebol.
E a gente dorme mal, vira noite. Somos atletas da noite.
Se não se preparar fisicamente, não dá conta. Diminuí a quantidade de shows para ficar o fim de semana com meu filho, mas não posso diminuir muito, porque tenho uma equipe que depende desses shows.
Vou equilibrando. Sobre o show na Farmasi Arena, foi um conceito seu desde o início, uma apresentação única? Há plano de virar turnê? Por que fazer isso agora, neste momento da carreira?
Tudo começou com uma ideia bem mais simples, achar um nome para uma label. A gente achou “Retianismo”, lançou e vendeu quase toda a casa.
Depois fomos perseguir o que é o Retianismo e levantar o fundamento do evento. Fiz uma autoanálise: os três elementos e o quarto, a música.
Começou pelo nome, que vem do blog que eu tinha, “Máximas Retianas”, que veio da tag Ret, que trouxe a identidade, que começou nos desenhos intuitivos. Isso virou uma história e uma microexposição imersiva.
A ideia é manter como evento único. Até pode ter outra edição, mas não é o plano.
A gente quer fazer uma experiência, contar essa história: são duas coisas, a microexposição e um show totalmente novo, com músicas mais lado B, mais intimistas também.
O Globo