Cézar Mendes lança álbum com parcerias que vão de Caetano a Marisa Monte e homenagem a João Gilberto: 'Meu ídolo'

Cézar Mendes lança álbum com parcerias que vão de Caetano a Marisa Monte e homenagem a João Gilberto: 'Meu ídolo' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Cézar Mendes chama o seu apartamento, em Ipanema, de “casa de baiano”. A pessoa toca o interfone, é autorizada a entrar no prédio e logo depois, no primeiro andar, abre a porta que dá para a sala.

— Essa porta não fecha. O último que sai fecha e joga a chave pela janela — conta ele.

Por causa da doença de Parkinson, que prejudica seu equilíbrio, ele passa boa parte do dia sentado, frequentemente dedilhando seu violão. É uma espécie de Buda a receber amigos e discípulos.

Quando O GLOBO estava lá, chegou o cantor e compositor Pedro Miranda, que teve dicas de violão à distância durante a pandemia e estreitou a relação. “Itapuano”, que chega hoje às plataformas de áudio pela Uns Produções, é o segundo álbum de Cézar — ou Cezinha, como todos o chamam.

Para se ter uma ideia do prestígio, participam do trabalho, entre outros, Caetano Veloso, Marisa Monte, Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, António Zambujo e Mônica Salmaso. Cézar Mendes

Bob Wolfenson/Divulgação Ele não é cantor, mas sua voz se ouve, discreta, em cinco das 12 faixas.

— Pretendo fazer meu próximo disco só cantando — anuncia. — Não desafino nem semitono.

Todas as músicas do novo álbum têm letras de Arnaldo Antunes, o parceiro mais frequente. Oito já tinham recebido gravações e quatro são inéditas.

O sistema da dupla é sempre o mesmo: Cézar assobia a melodia pelo WhatsApp e Arnaldo retorna com os versos. “A intenção da canção está presente na origem de tudo que faz.

Ele vive disso, por isso, para isso. E se dedica tão integralmente que cada nota, divisão ou acorde acaba sendo crucial para a carga de emoção que desencadeia”, escreveu o letrista num dos depoimentos preparados para o projeto.

A canção que abre o álbum se chama “João” e é interpretada por Caetano Veloso. A criação da homenagem a João Gilberto foi acompanhada pelo próprio.

Ele, nos últimos anos de vida, ia quase diariamente à casa de Cézar (ou “Cezinho”). Este foi mostrando o que estava compondo.

— Ele poderia ser o meu parceiro na canção. Quando não gostava, só mexia o dedinho.

Às vezes concordava. Quando Arnaldo fez a letra e eu cantei, ele ficou emocionadíssimo — recorda o melodista, que escuta João desde a infância.

— Mudou minha vida, mudou minha música. Meu ídolo.

Memórias da Bahia Cézar nasceu em 1951 em Santo Amaro da Purificação, a terra de Caetano e Maria Bethânia.

É irmão de outro compositor, Roberto Mendes, que ainda vive na cidade baiana. Aprendeu violão ouvindo e vendo os outros, sem educação formal.

Com o tempo se tornaria um professor muito requisitado, em Salvador e no Rio. Deu aulas, por exemplo, para os três filhos de Caetano: Moreno (canta “Se não dá, não dá” no álbum), Tom (“Umbigo”) e Zeca.

Na capital baiana, morou 25 anos em Itapuã, o que ajuda a explicar o título do novo trabalho — também derivado de “Itapuana”, canção que ele divide com Mônica Salmaso. — Ainda volto para Itapuã, com fé em Deus.

Mas ainda tenho muita coisa para fazer aqui — garante ele, que não pisa no mar do Rio. — Nessa água fria? Na Bahia é morna.

O primeiro álbum, “Depois enfim”, de 2018, ele diz ter aceitado fazer por insistência de Marisa Monte, com quem trabalhara como violonista nos Tribalistas. A produção foi de Marisa, Arto Lindsay e Mario Caldato.

“Cézar Mendes é um verdadeiro joalheiro das canções. Sempre com violão no colo, ele lapida cuidadosamente cada harmonia e melodia com rigor e paixão, dando brilho, forma e personalidade à sua produção autoral”, escreveu Marisa, que canta “Amor se acalme” em “Itapuano”.

Além dos Tribalistas, ele já acompanhou no palco Adriana Calcanhotto — que participa agora em “O culpado é o cupido”. Mas é algo que detesta fazer.

— Passo muito mal. Vou para o palco porque preciso ganhar dinheiro.

Compositor não ganha mais dinheiro — lamenta. — Adoro dar aula.

É a coisa que eu mais gosto de fazer. Uma de suas alunas (“faltosa”, segundo ele) é Sophie Charlotte, que está em “Enquanto passa outro verão”.

Outra da nova geração, Alice Caymmi, interpreta “Papel de bobo”. Pedro Miranda faz duo com o autor em “Desistiu de mim”.

António Zambujo canta “Apenas milagre”. E tem Chico Buarque, a quem Cézar não queria incomodar, mas que gostou de “Também pede bis” após sua filha Helena mostrar.

A inédita “Colibri” foi pensada para Mario Adnet. Ele é o autor de todos os arranjos e toca o violão em todas as faixas.

Cézar diz que, em função do Parkinson, está com dificuldade na digitação. ‘O que vem dele é bom’

Os dois se conheceram na década passada e nunca se afastaram. Quando compôs com Tom Veloso “Talvez”, Cézar disse ao amigo: “Queria que você cuidasse dessa música”.

O registro de Caetano e Tom, arranjado por Adnet, ganhou o Grammy Latino de gravação do ano em 2021. — Cézar é um excelente melodista, que indica as possibilidades harmônicas.

Qualquer coisa que venha dele é boa — afirma Adnet, contestando que o compositor seja um intuitivo por não ter tido formação. — Pensa com o coração, mas pensa.

“Itapuano”, segundo Cézar, é dedicado a João Gilberto e Fernanda Montenegro. No álbum de estreia, a atriz cantou “Aquele frevo axé”, a primeira composição do violonista, com letra de Caetano e que foi título de disco de Gal Costa em 1998.

— A gente conversa muito. É a primeira pessoa que ouve qualquer coisa que eu faça — revela Cézar.

“Todo você — repito — todo você é música. A música é a sua vida vivida.

Vida devotadamente entregue à criação musical”, exalta Fernanda por escrito. Em relação a João, há mais um elo.

Cézar e Adnet produziram o álbum de estreia de Loulu Gilberto, filha do mestre da bossa nova. Ela está concorrendo a revelação e a gravação do ano no Grammy Latino por “O amor nos encontrou”, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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