Destino turístico do litoral sul da Bahia, a pequena Itacaré, a 9.300 quilômetros da Faixa de Gaza, tornou-se palco de confronto entre visitantes israelenses e ativistas pró-Palestina. O estopim foi a pintura de um mural na fachada de um casarão histórico, na praça central, que acabou envolvendo moradores, comerciantes e a prefeitura.
Ontem, a administração municipal divulgou uma nota sobre o episódio, procurando se distanciar da disputa em torno do conflito no Oriente Médio. Visto americano: espera por entrevista chega a cinco meses em São Paulo; veja prazos e como tentar antecipar
Caso Porsche: MP pede investigação de namorada de Fernando Sastre por falso testemunho Entre as inscrições feitas na última sexta-feira no Casarão Azul estava a expressão “Do Rio ao Mar”, que se tornou um dos principais pontos de controvérsia.
O lema faz referência ao território entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, que compreende Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza. Para defensores da causa palestina, representa uma reivindicação de direitos para os palestinos em toda a região.
Já para a comunidade judaica e apoiadores de Israel, significa um chamado à eliminação do Estado israelense. A intervenção foi idealizada pela professora e ativista Mariá Veiga, de 40 anos, e organizada pela Frente Palestina Sul da Bahia.
A proposta inicial, segundo ela, era desenhar uma melancia — símbolo da resistência palestina por reunir as cores da bandeira —, com autorização do proprietário do imóvel. A ação, porém, ganhou proporções maiores do que o previsto, diz ela: outros militantes acrescentaram frases e ilustrações.
E a escolha do casarão tinha um motivo: o imóvel havia sido alugado por israelenses até poucos dias antes da manifestação. Horas depois de deixar o local, a ativista recebeu uma ligação informando que um grupo de turistas israelenses tentava retirar os materiais.
Segundo ela, dois cartazes já haviam sido removidos naquele momento e, de madrugada, outros foram arrancados. Casarão em Itacaré é pintado
Mariá Veiga/Frente Palestina do Sul da Bahia Em um vídeo que circula nas redes sociais, um grupo de israelenses aparece sendo afastado do mural por pessoas que estavam na praça.
Na gravação, uma mulher afirma que os visitantes foram ao local para retirar as inscrições e questiona a atitude do grupo. Os israelenses acabam se afastando sob vaias.
A Polícia Civil da Bahia não foi acionada. — Nosso problema é com a política sionista de Israel especificamente.
Não tinha na fachada nenhum símbolo que ofendesse qualquer país, qualquer etnia, qualquer população, a gente apenas falou do respeito com a cultura de todos — argumentou Veiga, que mora em Itacaré há 20 anos. A interpretação da ativista sobre as mensagens é contestada pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), que considera a expressão “Do Rio ao Mar” um chamado à destruição de Israel.
O dono do casarão também afirma que as pinturas não correspondiam ao que havia autorizado. Em vídeo divulgado posteriormente, ele disse que o combinado não contemplava as mensagens e os desenhos realizados.
Veiga, por sua vez, afirma que a reação dos visitantes não foi motivada por sua nacionalidade, mas pela tentativa de retirar as intervenções. — Nossa revolta não é porque eles são israelenses, qualquer um que viesse e fizesse o que eles fizeram, nós iríamos agir.
A gente não quer que eles deixem de vir a Itacaré, a gente quer todo mundo aqui, mas a gente precisa que o turismo seja respeitoso — afirmou. O proprietário pediu que todos os elementos da fachada fossem cobertos com tinta, por considerar que a intervenção ultrapassou o combinado com a organizadora.
Procurado pelo GLOBO, ele não quis se manifestar. Em nota, a Conib condenou atos de violência contra o patrimônio e manifestações que, segundo a entidade, são vistas como ofensivas e ameaçadoras por turistas e judeus.
A organização ressaltou ainda que pessoas de origem judaica frequentam Itacaré há muitos anos e são acolhidas pela população local. “Defender palestinos e respeitar israelenses e judeus não são posições excludentes”, concluiu.
A prefeitura afirmou que não participou da relação contratual envolvendo o casarão e que eventuais desentendimentos entre particulares devem ser resolvidos pelos envolvidos. A administração municipal repudiou manifestações de violência, intolerância e discriminação e disse que não cabe ao município assumir posicionamento institucional sobre Israel e Palestina.
Turismo israelense A presença de israelenses no litoral baiano ganhou força a partir de 2013, quando Morro de São Paulo, distrito de Cairu, serviu de cenário para a série israelense “Malabi Express”.
A produção acompanhava um grupo de amigos que, após cumprir o serviço militar obrigatório de dois anos em Israel, viajava ao Brasil e decidia começar uma nova vida no país. A série ajudou a transformar o destino em referência para jovens israelenses que costumam fazer mochilões depois de deixar o Exército.
Com o aumento do fluxo, parte do comércio local se adaptou ao público: restaurantes passaram a oferecer cardápios em hebraico e a ajustar pratos às tradições alimentares judaicas. O episódio do casarão não é o primeiro atrito envolvendo turistas israelenses e manifestações pró-Palestina em Itacaré.
Em março, um tumulto terminou com três prisões. Na ocasião, segundo a Polícia Militar, dois atos ocorreram em pontos distintos da cidade.
Um deles, na região central, reuniu comerciantes, taxistas e trabalhadores do setor turístico em defesa da presença de estrangeiros. Outro grupo de moradores se manifestou em sentido contrário, em meio a episódios recentes envolvendo visitantes.
Parte dos participantes levou bandeiras palestinas e afirmou que o protesto cobrava respeito aos moradores e aos espaços públicos. A mobilização ocorreu depois que uma mulher de 40 anos denunciou ter sido agredida por turistas israelenses ao filmar uma confusão em uma rua da cidade.
*Estagiário sob supervisão de Alfredo Mergulhão
O Globo