No livro “Bahia de Todos-os-Santos”, Jorge Amado apontou que Mãe Menininha do Gantois, nos 64 anos em que esteve à frente do histórico terreiro, estava acima de qualquer divergência política, econômica ou religiosa. “Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano”, escreveu o autor.
Nascida Maria Escolástica da Conceição Nazareth, a mais célebre ialorixá do Brasil, que morreu aos 92 anos, em 1986, é lembrada não apenas por sua espiritualidade, mas também por seu jeito acolhedor. Essa faceta agregadora da mãe de santo é apresentada no documentário “Mãe Menininha — A estrela do Gantois”, produzido pela Rede Bahia, afiliada da TV Globo, em homenagem nos 40 anos da morte da ialorixá.
A produção será exibida pela emissora local hoje, na Sessão da Tarde, e ficará disponível no Globoplay e g1. — Mãe Menininha é conhecida por ter recebido muitos famosos, como Vinicius de Moraes e Maria Bethânia, intelectuais, políticos, e ainda dialogou com os militares na ditadura.
Mas descobrimos nas pesquisas que ela vem de uma linhagem de mulheres que já faziam isso. Dindinha Pulquéria (segunda ialorixá do Terreiro do Gantois, antes de Mãe Menininha) já dialogava com a sociedade racista da época e abria a casa para os intelectuais — observa Ricardo Ishmael, coordenador do documentário.
Fachada do Terreiro do Gantois no documentário 'Mãe Menininha – A estrela do Gantois' Divulgação
O filme reúne 79 depoimentos, entre os quais os de Gilberto Gil, Regina Casé e Alcione, além de filhos de santo de Mãe Menininha, antropólogos e líderes de diferentes religiões. Gostava de futebol
A produção lembra passagens da vida de Mãe Menininha pouco conhecidas do público em geral. Ela adorava futebol (chegou a abençoar os pés de Pelé durante uma visita do craque brasileiro) e assistia a todas as novelas que passavam na TV.
Certa vez, pediu a Caetano Veloso que chamasse Regina Casé para uma visita ao terreiro. A atriz foi correndo a Salvador.
“O que será que Mãe Menininha quer falar comigo? Será que é alguma revelação?”, perguntava-se, atônita. Ao chegar diante da ialorixá, descobriu que ela amava sua interpretação da personagem Tina Pepper na novela “Cambalacho”.
Cena do documentário 'Mãe Menininha – A estrela do Gantois' Divulgação
O documentário relembra ainda a atuação de Mãe Menininha em defesa do livre exercício dos cultos religiosos no país durante a Constituinte de 1946. — O poder e a influência de Mãe Menininha iam além do campo simbólico.
Era algo muito concreto, ela conseguiu realizar muitas coisas — afirma Ishmael. — Ela seduzia, fascinava as pessoas de uma maneira muito própria.
O Globo