Planejamento de governança das empresas deve levar fatores geopolíticos em consideração, diz Garman, do Eurasia

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Fonte da notícia: Valor Valor

Os acontecimentos internacionais de 2026 fizeram as empresas perceber a importância de monitorar os fatores geopolíticos, avaliou Christopher Garman, diretor para as Américas do Eurasia Group, durante o 27º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativo (IBGC), em São Paulo.

Embora o cenário geopolítico já fosse uma variável importante, o momento atual de “desordem”, marcado sobretudo por conflitos internacionais, passou a exigir das empresas um planejamento mais voltado à resiliência das cadeias produtivas. “Olhar o externo sempre foi importante para pensar o Brasil.

Mas, num momento histórico de transformação geopolítica inédita, isso é cada vez mais relevante.” No evento sobre governança corporativa, o especialista afirmou que as políticas industriais são cada vez mais orientadas por preocupações com a segurança nacional.

Ele não espera que o cenário geopolítico imponha grandes escolhas às empresas no curto prazo, mas ressalta a necessidade de planejamento para enfrentar uma competição mais acirrada nos próximos cinco a dez anos entre Estados Unidos e China. “Talvez ter parceria com uma empresa chinesa, ou capital chinês, possa dificultar sua capacidade de ter acesso ao mercado americano.

Esses ‘trade-offs’ podem ficar mais difíceis ao longo do tempo”, afirmou. Para o especialista, o acirramento do cenário geopolítico coincide com um ganho de importância da América Latina e do Brasil no mundo, em razão da presença de “ativos físicos” na região.

Garman se diz otimista com as perspectivas para o país. “O Brasil está muito bem posicionado”, disse, citando os recursos naturais brasileiros, que possibilitam segurança energética.

Já as reservas de terras raras, entre as maiores do mundo, conferem ao país um poder geopolítico relevante, diante da necessidade dos Estados Unidos de reduzir sua dependência da China. Segundo ele, o crescente interesse pelo Brasil já tem levado investidores estrangeiros a considerar a alocação de capital no país no médio prazo.

Outro fator que evidencia esse maior apetite é o volume de acordos comerciais assinados recentemente pelo Brasil, além das negociações em andamento. “Nós estamos vendo um grau de ‘hiperativismo’ de negociação comercial no Mercosul”, ressaltou.

Ele menciona os acordos do bloco com a União Europeia e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), as tratativas com o Canadá e os Emirados Árabes Unidos, a ampliação das parcerias com a China e o México, além da expectativa de um acerto com o Reino Unido. “O que falta é fazer a nossa lição de casa”, enfatizou.

Garman defende a importância de uma reforma fiscal para que o Brasil consiga aproveitar essas oportunidades. “Se você não tem juros reais baixos, esqueça o tamanho e a amplitude dessas oportunidades globais”, afirmou.

Sobre o posicionamento dos Estados Unidos em relação ao Brasil, o especialista avalia que o governo Trump já passou por seu “pico”. Na visão de Garman, o presidente americano deve enfrentar maiores restrições de poder na segunda metade do mandato, à medida que um Congresso com maior presença democrata, após as eleições de meio de mandato, imponha limites à sua atuação.

Ele também não espera que os Estados Unidos elevem ainda mais as tarifas comerciais. Em sua participação no congresso, o diplomata Rubens Barbosa, que serviu como embaixador em Londres e Washington, sustentou que a ordem mundial anterior, fundamentada no multilateralismo, não será restaurada.

“Não adianta ficarmos olhando para trás. Oitenta anos depois da [Segunda] Guerra, de 1945 até hoje, com a criação das instituições multilaterais, [...] do livre comércio, tudo isso acabou”, afirmou Barbosa.

“Na minha visão, essa ruptura é importante e, em larga medida, vai continuar. Evidentemente que a globalização, o comércio, não diminuiu e nem vai diminuir.

Inclusive, aumentou agora. Mas a maneira como se processa o comércio e a relação entre as nações mudou totalmente”, acrescentou.

No contexto geopolítico atual, Barbosa acredita que o Brasil tem três trunfos que podem fazer diferença na atração de investimentos, a depender da estratégia que o país adotará para participar no que ele descreve como “um novo mundo”, no qual países e blocos econômicos buscam “segurança econômica”.

A segurança, nesse caso, passa por cadeias mais resilientes de fornecimento de matérias-primas essenciais e a menor dependência da importação de combustíveis e alimentos, entre outros pontos. “A Europa, os Estados Unidos e a China, já há três, quatro anos, quando começou essa ruptura, no início da guerra na Ucrânia e com a mudança no governo dos EUA, passaram a desenvolver o que a OCDE chama de segurança econômica”, disse.

“O Brasil, na minha visão, tem três áreas em que a gente tem o que contribuir, tem o que capitalizar, tem como atrair investimento . [...] É a área de segurança alimentar, em que o Brasil hoje está passando os Estados Unidos como maior produtor de produtos alimentícios.

Você tem a transição energética e uma coisa que caiu no colo da gente depois dessa onda de geopolítica que são os minérios críticos”, detalhou o diplomata. Reprodução/Valor

Publicação Original Valor valor.globo.com
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