Sérgio Malheiros: 'Trabalhar desde novo me abriu muitos caminhos'

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Fonte da notícia: Revista Quem Revista Quem

Aos 33 anos, Sérgio Malheiros cresceu aos olhos do público na televisão. Protagonista mirim do sucesso Da Cor do Pecado (2004), exibida em mais de 100 países e recordista de exportação da história da TV Globo, o ator não ficou preso à imagem de Raí, papel que interpretou quando tinha apenas 11 anos de idade.

Com carreira sólida no audiovisual -- TV, cinema e streaming --, ele celebra a boa repercussão da segunda temporada da série Amor da minha vida (Disney+), em que vive o mocinho Victor, par romântico de Bia, interpretada pela atriz Bruna Marquezine, sua amiga desde a infância. "Gosto de estar em histórias que falem sobre a negritude a partir de outros pontos de vista, não apenas o da luta.

Amor da Minha Vida traz isso pela ótica familiar, amorosa, profissional. Quando era mais novo, via muitos personagens negros fora da trama central, fora da história de relevância", conta Sérgio, recordando que, ainda menino, teve o sonho de interpretar um advogado -- "para poder usar um figurino com terno e gravata".

"Demorou muito, mas consegui um papel de advogado em Verão 90. Cada sonho é uma meta", diz, citando a novela de 2019.

Com acompanhamento psicológico desde o início da carreira, o ator se manteve com os pés no chão, sem deslumbres. "Tive uma estrutura familiar para que a minha vida não mudasse por causa da fama", afirma Sérgio, contando que a atriz Taís Araujo -- intérprete de Preta, sua mãe na novela Da Cor do Pecado -- foi um nome importante para sua carreira.

"Muitas das minhas conquistas eu devo a Taís. Ela é uma pessoa que me ajuda, está sempre comigo e me aconselha até hoje.

Na época de Cheias de Charme, ela fez uma ponte para que eu fizesse parte do elenco." Da união de 12 anos com Sophia Abrahão, que já revelou fazer terapia de casal desde o primeiro ano de relacionamento, Sérgio avalia que a naturalidade é fundamental para o relacionamento.

"Eu e a Sophia saímos, vamos a barzinhos e, como sempre vamos aos mesmos, as pessoas já estão acostumadas a nos ver. Vivemos uma vida real mesmo.

Não temos vontade de nos isolar. A gente gosta de estar em contato com as pessoas."

Sérgio Malheiros e Sophia Abrahão estão juntos há 12 anos Reprodução/Instagram

Ainda em 2026, ele lança o filme Camisas Negras nos cinemas, interpretando o goleiro Nelson da Conceição (1898-1942). "Foi a primeira oportunidade que tive de interpretar uma figura real, alguém que realmente existiu.

Isso foi um desafio, ainda mais porque não tínhamos imagens como referência para ver como os jogadores se comportavam naquela época", afirma o ator sobre o longa-metragem, com estreia programada para 19 de novembro, que resgata a história do Vasco campeão carioca de 1923. Quem: Você acaba de lançar a segunda temporada de Amor da Minha Vida.

O Victor, seu personagem e protagonista da história, está longe de ser estereotipado, ele tem um lado nerd… Busca fazer papéis que fogem de estereótipos? Sérgio Malheiros: Sem dúvida.

Gosto de estar em histórias que falem sobre a negritude a partir de outros pontos de vista, não apenas o da luta. É claro que é importante termos histórias que abordem a luta contra o racismo, mas é bacana colocar a experiência negra em outros pontos de vista.

Amor da Minha Vida traz isso pela ótica familiar, amorosa, profissional. Quando era mais novo, via muitos personagens negros fora da trama central, fora da história de relevância.

Busco personagens com tridimensionalidade. É importante que as crianças se enxerguem em diferentes narrativas.

O Victor é o mocinho de uma comédia romântica e a masculinidade é abordada de uma forma atual, sem aquela imagem de herói intocável. Ele é vulnerável.

Imperfeições e vulnerabilidades estão em todos nós. "Gosto de estar em histórias que falem sobre a negritude a partir de outros pontos de vista, não apenas o da luta”

Amigos de infância quando eram atores mirins, Sérgio Malheiros e Bruna Marquezine são protagonistas da série 'Amor da Minha Vida' (Disney+) Divulgação

Por ter uma carreira longa, os personagem ainda conseguem te surpreender? Tenho 27, 28 anos de carreira e, realmente, tive a chance de fazer personagens muito diferentes entre si.

Participei de obras que ficaram para a cultura popular do Brasil. Fico muito feliz quando vejo alguém fantasiado de Mamushka [personagem de Rosi Campos em Da Cor do Pecado] no Carnaval.

Sinto que faço parte dessa história. Hoje, felizmente, tenho a chance de escolher os projetos que participarei, escolher os personagens em que posso me surpreender.

Gosto de personagens que vão deixar algo para mim. Fico muito feliz em participar de projetos que são tão diferentes entre si.

São personagens que me agregam experiências de vida diferentes. O meio artístico é instável.

Você está em um lugar de certo privilégio por poder escolher. Como lida com os eventuais altos e baixos da profissão?

É uma profissão instável, sem dúvida, e, ao mesmo tempo, é uma carreira que você precisa se doar por completo. Comecei cedo e numa época em que jovens negros não se viam como protagonistas.

Nesse sentido, estamos crescendo e conquistando nossos espaços. Isso se dá pelos atores que vieram antes de nós e foram abrindo portas.

Tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com alguns deles, como Léa Garcia e Jorge Coutinho. Não cheguei a trabalhar com o Antonio Pitanga, mas ainda moleque trabalhei com o Rocco [Pitanga], filho dele.

Tive bons professores, independentemente de ter contracenado, como Milton Gonçalves e Tony Tornado. Só tive a chance de trabalhar com o Tony Tornado agora, em Êta Mundo Melhor!, e era uma honra estar com ele, ouvindo histórias no camarim.

Tivemos uma convivência muito grande. Ele faz parte da luta racial brasileira e participou ativamente de episódios muito importantes dessa luta.

É uma grande honra poder estar perto dessas pessoas. Um dos aspectos mais legais do meu trabalho é poder ficar próximo e me tornar amigo dos meus ídolos.

"Um dos aspectos mais legais do meu trabalho é poder ficar próximo e me tornar amigo dos meus ídolos" Sérgio Malheiros

Jorge Bispo Você começou em 1998, mas muita gente associa seu início à novela Da Cor do Pecado, de 2004.

Como foram seus primeiros passos? Da Cor do Pecado, realmente, foi um divisor de águas.

Foi a primeira novela da TV Globo protagonizada por uma atriz negra e também foi a novela mais vendida para o exterior durante 20 anos. Meu primeiro trabalho foi Samba, Pagode e Cia., na TV Globo.

Começamos a gravar em 1998, mas foi ao ar no início de 1999. Tinha 5 anos.

Era um programa dominical, de pagode, com Netinho e Salgadinho. O programa tinha uma dramaturgia, contando a história de uma babá que cuidava de crianças e nos colocava para ouvir algumas dessas músicas.

Essa babá era interpretada pela Kelly Key. O pagode sempre esteve intimamente ligado a minha vida.

Logo depois do Samba Pagode e Cia., entrei para o time do Gente Inocente, fazia parte dos entrevistadores mirins. Quando o programa acabou – e acabou meio abruptamente – continuei contratado da TV Globo, fazendo participações no Você Decide, nas novelas Agora é que são elas, Um anjo caiu do céu… Fiz um programa na Sky junto com a Carolinie Figueiredo.

Depois disso, veio o teste para Da Cor do Pecado. Da Cor do Pecado foi um sucesso e você despontou profissionalmente.

Mas sempre há a dúvida de como serão os próximos passos da carreira de um ator mirim. Logo depois, fiz Como uma Onda, na Globo.

Na sequência, fiz Bicho do Mato, na Record, e emendei com Caminhos do Coração, em que fui um dos mutantes. A novela virou uma trilogia — Caminhos do Coração, Os Mutantes e Promessas de Amor – e fiz as três fases.

Na primeira temporada, eram poucos mutantes, e eu já era um deles. Depois, na segunda fase, já eram vários, havia uma ilha.

E quando voltou para a Globo, já não era um ator mirim, né? Isso! Consegui um papel em Cheias de Charme, outra novela de grande sucesso, já de volta à TV Globo, com 19 anos.

A Taís [Araujo] foi muito importante para isso. Muitas das minhas conquistas eu devo a Taís.

Ela é uma pessoa que me ajuda, está sempre comigo e me aconselha até hoje. Na época de Cheias de Charme, a Tais comentou comigo que faria uma novela dirigida pela Denise Saraceni.

Ela fez uma ponte para que eu fizesse parte do elenco. Voltei para a Globo numa novela que foi uma super sucesso.

Mãe e filho na novela 'Da Cor do Pecado' (Globo, 2004), Taís Araujo e Sérgio Malheiros mantém forte relação de amizade e apoio profissional Reprodução/Instagram

Nos tempos de protagonista mirim, como ficava a questão escolar? Na minha época, eu trabalhava por uma longa quantidade de horas.

Ia do colégio direto para os estúdios. Hoje em dia, não é mais assim.

O audiovisual tem novas regras, o que me deixa feliz pela nova geração de crianças no meio. Sempre mandei bem no colégio.

Acho que consegui conciliar bem. Entrei na faculdade de Cinema, mas aí, pela demanda de trabalho, não consegui continuar.

Já estava bem inserido no mercado. A representatividade aumentou no audiovisual.

Nota que há maior pluralidade nas histórias retratadas ou ainda temos muito a avançar? Quando comecei, o que sentia falta não era só de ver gente à frente das câmeras.

Era a galera por trás. Hoje, conseguimos dominar mais as narrativas.

Temos mais roteiristas. Meu próximo trabalho no cinema, o filme Camisas Negras, é um exemplo disso.

O filme Camisas Negras resgata acontecimentos históricos do racismo no futebol brasileiro, ainda na década de 1920. O que pode adiantar desse trabalho?

Interpretar o Nelson da Conceição foi a primeira oportunidade que tive de interpretar uma figura real, alguém que realmente existiu. Isso foi um desafio, ainda mais porque não tínhamos imagens como referência para ver como os jogadores se comportavam naquela época.

Para mim, foi uma honra contar essa história de resistência. É um filme que não fala apenas de futebol, mas também da resistência do povo preto no meio esportivo aqui no Brasil.

O filme fala sobre essa campanha do Vasco ao contratar jogadores negros e pessoas da classe operária para o time. É uma história que a torcida do Vasco conhece muito bem, mas muita gente não tem ideia do que se passou naquela época.

Para mim, é uma honra contar essa história. Meu personagem se tornou o primeiro goleiro negro da Seleção brasileira.

Como é sua relação com o futebol? Sou botafoguense, mas tenho grandes amigos vascaínos.

Talvez, tive vontade de ser jogador quando era bem menininho, mas não tinha talento. Até jogo bem, tenho uma relação próxima com o futebol.

Já fui mais ao estádio. Hoje, nem tanto.

E a prática de esportes no dia a dia? Faço academia, mas não é o que eu mais gosto.

Curto de praticar esportes. Meu pai é faixa preta de karatê e me incentivou desde cedo a praticar atividades físicas.

Ele me levava para jogar capoeira. Treinei capoeira a minha vida toda.

Hoje em dia, não treino mais por conta do meu ritmo de vida, mas sempre que posso apareço na casa do meu mestre para participar de uma roda. Gosto de surfe.

O snowboard é uma nova paixão. Sempre que posso jogo altinha na praia.

Prefiro os esportes ao ar livre. Sérgio Malheiros

Jorge Bispo Como gosta de aproveitar seus momentos de descanso?

Sou muito caseiro e sou muito musical. Adoro aprender a tocar instrumentos novos.

Comecei a tocar violão quando tinha 8 anos. Minha casa está em obras.

Recentemente, me hospedei na casa do meu amigo Flávio Tolezani e levei meu violão. Chegando na casa dele, tinha um piano.

Aproveitei (risos). Como disse, sou caseiro, gosto de ficar com a família, com a Sophia [Abrahão], receber amigos em casa ou ir para a casa de amigos.

Também gosto de ir a barzinho para tomar um chope. Você e a Sophia conseguiram construir uma relação que não é superexposta, mas também não é escondida.

Isso foi natural? Quando comecei na carreira, passei a ter acompanhamento de um psicólogo.

Foi uma orientação da Globo que meus pais tiveram porque sabiam que minha vida iria mudar. Tive uma estrutura familiar para que a minha vida não mudasse por causa da fama.

Mantive isso como um lema para a minha vida. Sigo assim.

Eu e a Sophia saímos, vamos a barzinhos e, como sempre vamos aos mesmos, as pessoas já estão acostumadas a nos ver. Vivemos uma vida real mesmo.

Não temos vontade de nos isolar. A gente gosta de estar em contato com as pessoas.

"Eu e Sophia vivemos uma vida real mesmo. Não temos vontade de nos isolar.

A gente gosta de estar em contato com as pessoas" Sérgio Malheiros

Jorge Bispo Como casal, vocês já se viram reféns das redes sociais?

Não somos daqueles que postam em tempo real. Geralmente, vivemos primeiro, postamos depois.

Você contou que teve apoio psicológico desde criança. Sente que pulou alguma etapa?

Não tem como dizer que eu curti como meus amigos. Perdi compromissos de família porque estava no set gravando.

Mas isso é para qualquer artista. Faz parte da nossa vida.

Sophia perdeu o avô recentemente e, no mesmo dia, viajou a São Paulo para apresentar a peça. Nossa vida é assim.

Trabalhar desde novo me abriu muitos caminhos. Também me fez perder algumas coisas, mas deu muito certo porque eu estava inserido na profissão que quis ter na vida adulta.

“Tive uma estrutura familiar para que a minha vida não mudasse por causa da fama. Mantive isso como um lema para a minha vida”

Sérgio Malheiros Jorge Bispo

Em algum momento se pegou deslumbrado? Acho que por ter começado cedo, não me deslumbrei.

Meus pais sempre estiveram ao meu lado. Minha mãe teve a sagacidade de tentar manter a vida parecida com que eu tinha antes de Da Cor do Pecado – amigos, prédio – aquela bolha que eu já vivia.

Quando entrei para a TV, eu nem sabia ao certo tudo o que esse meio representava. Ouvia minha mãe falar: ‘Caraca, Sérgio, olha ali o Francisco Cuoco!’.

Mas para mim era ok, eu era uma criança. Fui apresentado a este mundo antes de entender o quão glamoroso ele era.

Desde sempre, vi por dentro tudo aquilo que era mágico e o que não era tão bom. Isso me blindou do deslumbre.

E conseguiu realizar sonhos de infância? Quando era pequeno, meu sonho era fazer um advogado, poder ter um figurino com terno e gravata (risos).

Logo na minha primeira novela, tinha um advogado negro gato pra caramba, que era o Rocco Pitanga. Demorou muito, mas em Verão 90 [Globo, 2019] consegui um papel de advogado.

Usava terno e gravata em cena. Cada sonho é uma meta.

Só consegui me imaginar como advogado porque, ainda criança, vi o Rocco ali. "Quando era pequeno, meu sonho era fazer um advogado, poder ter um figurino com terno e gravata"

Sérgio Malheiros Jorge Bispo

E o cinema? Também era um sonho? Sempre tive o sonho de trabalhar no cinema.

Acho que é o meio audiovisual mais clássico e sou um grande consumidor da sétima arte. Adoro poder atuar em filmes.

E fico feliz com o atual momento do cinema brasileiro. Meu próximo longa é Ataque ao Metrô, um filme de ação, do Maurício Eça, rodado no Rio, comigo e com a Mel Maia.

Ao observar os atores mirins negros de hoje ou ao pensar nos seus futuros filhos, você imagina que eles terão uma realidade melhor na questão do racismo? Ou ainda temos muito a evoluir? Sem dúvida, temos que evoluir.

Há um retrocesso na sociedade, mas também estamos entendendo que a nossa força coletiva é muito grande. Fico muito feliz que cada vez mais há espaço para nossas histórias.

Quando pensa no futuro, como você gosta de se imaginar? Quero ter influência nos projetos que faço.

Não apenas interpretando, mas também produzindo. Daqui a dez anos, me imagino produzindo histórias de roteiristas pretos, de pessoas que estão perto do meu mundo.

Sérgio Malheiros Jorge Bispo

Publicação Original Revista Quem revistaquem.globo.com
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