Da periferia à premiação no Festival de Gramado, a atriz Naruna Costa celebra a ‘boa vingança’

Da periferia à premiação no Festival de Gramado, a atriz Naruna Costa celebra a ‘boa vingança’ - Foto
Fonte da notícia: Globo Globo

A 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em agosto deste ano, foi a primeira vez de Naruna Costa no evento. Esteve lá para defender “Pele de rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia, em que interpreta a advogada de acusação em um caso de feminicídio.

Durante a exibição do filme, foi aplaudida em cena aberta pelo público. E ouviu seu nome ser anunciado vencedor do Kikito de melhor atriz coadjuvante na cerimônia de premiação.

No discurso de agradecimento, a atriz e diretora de 43 anos lembrou os pais, seu Agnaldo e dona Cleonice, lavradores: “Com eles eu aprendi que quando você trata bem a terra, o que a gente planta, dá. E quando a gente consegue plantar uma semente, se ninguém for lá rasgar, pisar, tirar, ela vai vingar.

Esse prêmio, pra mim, significa isso: uma boa vingança”, declarou no palco. Ao Valor, Costa fala desse jogo de palavras como um reflexo da sua identidade artística.

“Isso eu aprendi com o [escritor] Marcelino Freire. Ele fala: ‘Eu escrevo pra me vingar’.

Me permiti difundir essa ideia porque ela dá conta desses dois lugares: [‘vingar’ como] poder denunciar e organizar a nossa raiva, ao mesmo tempo que o florescer de novas possibilidades. Eu não faço só de raiva.

Faço também pra mudar a ordem das coisas.” Não se pode contar a trajetória de Costa sem contar da terra onde essa semente vingou: a periferia de Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo.

Com o distanciamento dos anos, hoje enxerga no seu trabalho o impacto dos contrastes vividos na infância. Em casa, um ambiente lúdico de cantoria dos pais e relação com o rural; nas ruas, os efeitos das transformações urbanas.

“A rua foi de terra até meio dos anos 90. A gente tinha galinha no quintal.

O acesso a coisas tecnológicas não existia, então a nossa diversão era brincar na terra, inventar histórias. E aí, tem a nossa periferia crescendo muito rapidamente, e com ela uma violência muito direta e explícita.

Essas coisas, somadas, dão um pouco da arte que eu faço hoje, uma arte que denuncia a falta de estrutura e, ao mesmo tempo, traz as abundâncias desse território”, diz. Aos 14 anos, idade em que já trabalhava como camelô, veio o arrebatamento pelo teatro.

A descoberta foi na escola, quando viu uma peça da União Teatral Taboão (UTT), de Amaury Alvarez. Passou a frequentar as oficinas da UTT, decidiu se profissionalizar.

Por meio de Alvarez, soube da Escola de Arte Dramática (EAD), na Universidade de São Paulo (USP). “Pensei: ‘Caramba, tem um curso público? É coisa nossa!’ Só que não”, ri.

“[Em 2004] fiz parte da turma em toda a história da EAD até aquele momento que mais teve pessoas pretas. Eram 5 numa turma de 20.

Isso era tema entre os professores, porque eram corpos, repertórios e demandas muito diferentes. A gente queria saber: e o teatro negro?”

Para Costa, foi um divisor de águas: “[Até então] a nossa briga era sair de Taboão, ter espaço em São Paulo pra se apresentar. Na EAD a minha cabeça virou pra um outro lugar.

Descobri que queria voltar [a Taboão da Serra]. Esse teatro que eu faço aqui, eu quero fazer lá”.

Voltou. Em 2005, cofundou o Grupo Clariô de Teatro, em um contexto de efervescência na cultura periférica.

“Teve uma confluência de políticas públicas e a periferia com um pouco mais de autoestima. Existia um movimento, e um foi fortalecendo o outro: Sarau do Binho, Cooperifa, as casas de cultura.

Fomos criando linguagens [artísticas] e crescendo.” Não são poucos os desafios.

Há anos a rua Santa Luzia, onde o grupo mantém o Espaço Clariô, enfrenta enchentes. Em 2024, sem patrocinador nem dinheiro em caixa, foi preciso lançar uma campanha de apoio para permanecer no endereço: “Especulação imobiliária, com a construção do metrô [Vila Sônia] ali do lado”, diz.

Mas as conquistas também são muitas nos 20 anos do Clariô, marco celebrado na nova peça “Casa do Norte”. Com texto de Jhonny Salaberg e direção de Costa, a comédia rasgada centra os eventos em uma mercearia de produtos típicos das regiões Norte e Nordeste que à noite se converte no botequim cultural Fecha Nunca.

O que se perde quando um espaço cultural fecha as portas? “Perde-se muito. Gerações de artistas, ofícios, possibilidade de avanço social.

A convivência de uma comunidade com um espaço cultural é muito intensa. Muda comportamentos.

É um espaço capaz de abrir diálogo sobre a sociedade que queremos construir”, fala. “Sinto que se não existisse o Clariô, seria outro Taboão.”

Sem cortar raízes, Costa alça voos. Em 2018 foi convidada por Salaberg a dirigir “Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã”, sua estreia no comando fora do Clariô.

Entre outros prêmios, ganhou como melhor direção teatral na Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), primeira mulher negra laureada na categoria. “Acima de tudo, isso revela estruturas.

É o mesmo que ser a primeira turma negra da EAD”, avalia. “Buraquinhos”, diz, curou uma relação dolorosa com a direção, função que assumiu no Clariô após o marido, o diretor teatral Mario Pazini Jr., falecer de câncer, em 2014.

Prepara-se agora para dirigir um documentário em longa-metragem sobre o poeta Sérgio Vaz, em fase de captação. No audiovisual, créditos recentes como atriz incluem a novela “Coração acelerado”, da TV Globo, e o drama jurídico “Habeas corpus”, da Netflix, onde protagonizou a série “Irmandade”.

Como é se dividir entre projetos de grande escala e a lida no teatro independente? “[Me vejo] traficando informação. Desde sempre.

Na EAD foi isso, traficando informação pra gente no Clariô poder criar outros repertórios no nosso espaço.” Nesse trânsito, segue a semeadura.

“Casa do Norte” fica até 1º de novembro no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo. Tem pelo menos cinco obras audiovisuais a lançar, além do quarto disco das Clarianas, em que é compositora e “cantadeira urbana” ao lado de Martinha Soares e Naloana Lima, parceiras de Clariô.

Com agenda cheia e reconhecimento crescente, sente que vive tempo de colheita? “Sinto. Espero que seja longo.”

Publicação Original Globo valor.globo.com
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