A ligação do filho durou o tempo de um pedido. Sônia (nome fictício) precisava avisar à nora e aos netos que o quarto onde estavam não era seguro.
Sonolenta, ela ainda assimilava as informações enquanto se recuperava do susto provocado pelo toque do celular, que a despertou às 5h20 de terça-feira, 28 de outubro de 2025. Pela segunda vez, os dois não conseguiram se despedir.
A primeira aconteceu cinco meses antes, quando o filho deixou, repentinamente, Goiás, no Centro-Oeste, para morar com a família dele no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, deslumbrado com histórias de amigos que viviam por lá. Ao desligar a chamada, Sônia recorreu à televisão para acompanhar o que acontecia na comunidade, distante cerca de 1.300 quilômetros de sua casa.
Naquele mesmo dia, ela alugou um carro e percorreu esse trajeto para encontrar o rapaz — um dos 122 mortos da operação policial que entrou para a história como a mais letal do Brasil. Elas não esquecem: 'A operação acabou, mas fiquei n a comunidade.
Eu vivo o risco', diz única mulher presa na megaoperação no Alemão Megaoperação: Um ano depois, chefes do CV seguem livres e moradores sofrem com extorsão e violência
Após um ano, mulheres como Sônia seguem à frente da busca por justiça em relação às consequências da Operação Contenção. Ontem, O GLOBO contou a história de uma delas: Gabriela Cristina Elias de Jesus, a única mulher presa.
Respondendo em liberdade após decisão da Justiça, a jovem, de 25 anos, ainda aguarda o desfecho do processo. Ela é acusada de associação para o tráfico por ter gravado policiais no portão da casa onde estava.
Hoje, a série retrata o impacto das mortes na vida de uma mãe, que recebe assistência da Defensoria Pública e da Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave). Cinco netos
As primeiras informações chegaram a Sônia sem precisão. Alguns diziam que o filho dela estava preso por ter envolvimento com o tráfico.
Outros, que foi visto na “mata” (de uma região conhecida como Vacaria), onde a maior parte das mortes aconteceu. Desesperada, ela colocou uma calça e uma blusa numa mochila e avisou o marido, padrasto do filho, que iriam para o Rio.
Não era um convite, ele sabia. Prontamente, os dois se organizaram e incluíram um casal de amigos, que também tinha um parente na Penha.
O grupo, então, alugou um carro e dirigiu mais de 20 horas até chegar à comunidade, na manhã do dia 29. Do Alemão ao STF: Como a operação com 122 mortos no Rio chegou às mãos de Alexandre de Moraes
Os quatro chegaram atordoados, principalmente porque aquela era a primeira vez deles no Rio. Não conheciam ninguém, além da nora de Sônia e dos quatro netos — o quinto morava com a avó em Goiás.
Foram três dias de procura em hospitais, postos de saúde, delegacias, até uma foto dos mortos chegar ao celular de Sônia. — Lá estava ele, com o rosto virado para o chão.
Eu reconheci meu filho pelas costas dele. Não queria aceitar aquela situação de jeito nenhum, mas uma mãe sabe quando é o filho.
Eu não podia acreditar que ele tinha saído da minha casa para morrer daquele jeito, que tinha escolhido aquela vida — lamenta. Dos 122 mortos, cinco eram agentes das forças de segurança, e 117, suspeitos, segundo a Polícia Civil.
Desses, 62 eram de outros estados: Pará e Bahia aparecem com maior número de pessoas mortas: 19 e 12, respectivamente. Nove — entre eles o filho de Sônia — eram de Goiás.
Parte dos corpos foi deixada na “mata” à qual Sônia se referiu, na Serra da Misericórdia. O local, como enfatizado na época, foi usado pelo Bope para fazer um cerco (um “muro”, como classificaram), onde os policiais encurralaram os criminosos.
Por meio de nota, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) informa que “continua investigando as mortes dos 117 criminosos registradas durante a operação de outubro”. Sobre o asfalto.
Dezenas de corpos enfileirados a céu aberto na Vila Cruzeiro: operação terminou com 122 mortos Gabriel de Paiva
Cadáveres na praça Os próprios moradores se mobilizaram, na manhã do dia 29, para encontrar os mortos espalhados na mata.
Corpos foram levados até a Praça São Lucas, na rua principal da Penha, em caminhonetes e em outros veículos com caçamba improvisada. Foram enfileirados no asfalto, enquanto se aguardava a remoção pelo Corpo de Bombeiros.
Ao redor deles, parentes, especialmente mulheres, choraram, acariciaram e beijaram a cabeça, as mãos, sem se importar com o cheiro de cadáveres em decomposição. A identificação de cada um deles foi realizada no Instituto Médico-Legal, para onde Sônia foi após receber a foto e reconhecer o filho.
Ela chegou por lá tão perdida quanto ao pisar no Rio. Deparou-se com uma multidão em busca de informações e se afligiu.
Para conseguir ajuda, decidiu mentir. Em vez de falar da fotografia, optou por contar aos funcionários que havia recebido uma ligação do IML confirmando que o filho estava lá.
Os documentos necessários para o reconhecimento estavam em mãos, bastava alguém encontrar o rapaz entre todos os outros. E foi isso que o diretor da unidade fez.
— Eu repetia o tempo todo que alguém precisava me ajudar, que eu não era do Rio, não conhecia ninguém, não entendia nada. Foi então que esse senhor apareceu.
Eu não sabia ainda que ele era o diretor. Ele me acalmou, me consolou, me deu um abraço tão apertado que até hoje eu sinto o calor dos braços dele.
E me garantiu que acharia meu filho — conta. O encontro do corpo marcou uma ruptura em Sônia.
A ideia da morte já era conhecida por ela, mas, agora, havia a certeza, um fato concreto, com a aparência de seu filho. Para poupá-la, o marido decidiu fazer o reconhecimento do rapaz, e acabou vencido pelo que viu.
O desgaste foi tão grande que ele não pôde revezar com Sônia a direção do carro na volta para Goiás: sentiu-se mal o tempo todo. E ainda precisavam chegar antes do translado do corpo, enterrado no estado onde nasceu.
Segundo consta no laudo de necropsia, o rapaz foi atingido por quatro tiros, sendo dois fatais: um na cabeça e outro no abdômen, que ocasionou uma hemorragia generalizada. Ele chegou à unidade vestido com a parte superior de um fardamento militar camuflado de cor verde, uma camiseta preta por baixo e uma cueca cinza.
Além das marcas de entrada e saída dos projéteis, havia lesões provocadas por estilhaços nos ombros e braços. — Eu só pensava que tinha que chegar a tempo e olhava para os meus netos no banco de trás.
Foi muita força de vontade, passar por tudo e ainda voltar dirigindo. Eu fiquei horrorizada com tudo que vi e ouvi nesse Rio de Janeiro; espero não voltar nunca mais.
É muito triste viver o que eu vivi, saber que meu filho ficou apodrecendo no chão, largado como lixo, e eu ser vista como lixo também. Ele era tudo na minha vida — disse.
O Rio parou: Os momentos marcantes da ação com 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha Um estudo da ONG Human Rights Watch, publicado ontem, aponta que cerca de 75% dos mortos considerados suspeitos pela polícia foram baleados mais de três vezes.
Dos 117, 85 tinham uma ou mais marcas de tiros nas costas, e 50, pelo menos uma perfuração na cabeça. Em relação aos policiais, a pesquisa aponta que, dos cinco, um tinha mais de um ferimento de entrada de projétil no corpo.
Violência depois dos tiros No IML, Sônia conheceu a Raave, rede que oferece apoio jurídico e psicossocial a pessoas afetadas pela violência estatal.
Na instituição, foi orientada a procurar a Defensoria Pública do Rio, que a representa à distância no processo sobre a morte do filho. Lorena Martins, coordenadora técnica da Raave, conta que a equipe fez uma força-tarefa durante a megaoperação para atender o maior número possível de parentes de vítimas, alcançando, à época, 123 famílias.
Atualmente, 40 delas continuam sendo acompanhadas: todas são representadas por mulheres. — Eu sempre falo que a violência do Estado não acaba no tiro.
Ela continua moendo quem fica, aumentando a vulnerabilidade das famílias. A imagem dos corpos expostos na praça, por exemplo, fica para sempre gravada para quem sobrevive, e o cheiro no IML também.
São traumas eternos, principalmente para as mães, que são as que permanecem na luta. A operação não resolveu nada.
Ninguém está mais seguro por causa dela. O tráfico não deixou de existir ou sequer diminuiu a atividade depois dela — ressalta Lorena.
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A coordenadora destaca que a Raave se prepara para a possibilidade de os processos sobre as mortes serem arquivados, destino de praticamente todos os casos registrados como “morte por intervenção de agente do estado” no Rio. Uma alternativa, também compartilhada pela Defensoria Pública, é a federalização das investigações, pedido já feito à Procuradoria Geral da República.
O Globo