Adversários no segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) experimentam uma troca de papéis na forma de conduzir campanhas nas últimas eleições. Enquanto Flávio concentra esforços na articulação com partidos, governadores e lideranças políticas, Lula promove uma guinada na comunicação, com vídeos em formato de selfie, aproximação de influenciadores e uma ofensiva para aumentar a rejeição do adversário.
A mudança aparece de forma mais evidente na movimentação partidária. Desde o fim do primeiro turno, Flávio passou a enfileirar apoios de políticos e legendas.
Recebeu o endosso de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), da federação formada por PP e União Brasil e da Frente Parlamentar da Agropecuária. O Novo formalizou a adesão nesta quarta-feira e, à noite, o Republicanos também anunciou apoio ao candidato do PL.
A campanha agora tenta atrair o Podemos e o MDB. Parte dessas siglas esteve do lado de Lula durante o atual governo.
PP e Republicanos tiveram ministérios na Esplanada, enquanto o União Brasil também participou da base governista. Agora, PP, União Brasil e Republicanos decidiram apoiar Flávio no segundo turno, depois de terem optado pela neutralidade na primeira etapa.
Em 2023, Lula chegou a justificar a entrada de PP e Republicanos no governo pela necessidade de construir maioria no Congresso. Ao explicar o acordo com as duas siglas, afirmou que elas somavam mais de cem votos e que precisava deles para governar.
— Eles juntos têm mais de 100 votos, e eu precisava desses votos para continuar governando — disse Lula naquele ano. O presidente também rejeitou a ideia de que estivesse negociando diretamente com o chamado Centrão.
— Eu não fiz negociação com o Centrão. Eu não converso com o Centrão.
Eu faço conversas com partidos políticos, que estão ali legalizados, que elegeram bancadas — afirmou. Agora, a campanha de Flávio tenta justamente transformar essas relações partidárias em apoio eleitoral.
Desde domingo, o candidato e seus aliados têm se dedicado a conversas com dirigentes, governadores, prefeitos e candidatos derrotados. A mudança no mapa partidário é um dos principais elementos que diferenciam o início do segundo turno em relação ao primeiro.
Antes da votação de domingo, Lula ainda buscava preservar a neutralidade ou conquistar o apoio de partidos do Centrão e manter abertas as pontes com suas lideranças. O presidente chegou a realizar encontros com integrantes dessas legendas durante o primeiro turno, mas a tentativa não impediu que PP e União Brasil fechassem apoio formal a Flávio.
Como fazem parte de uma federação, PP e União Brasil precisaram adotar a mesma posição. O apoio não altera o tempo de propaganda dos candidatos, que é igual no segundo turno, mas amplia a capilaridade política da campanha de Flávio nos estados e incorpora novas lideranças ao palanque.
O Republicanos, que havia adotado posição de neutralidade na disputa presidencial no primeiro turno, também decidiu apoiar Flávio. O movimento amplia a frente partidária construída pelo candidato do PL nos primeiros dias da segunda etapa.
O MDB, por sua vez, consulta os diretórios estaduais e tende a manter a posição independente, embora integrantes da legenda já estejam envolvidos na articulação em torno de Flávio. A movimentação representa uma inversão parcial das estratégias tradicionais dos dois campos.
O bolsonarismo se tornou uma força importante nas redes sociais, mas Flávio agora concentra energia na política partidária e na formação de uma coalizão. Lula, que mantém a estrutura do PT e sua rede de alianças, tenta ocupar um terreno historicamente mais associado à direita, com vídeos curtos, linguagem informal e influenciadores.
Mesmo assim, aliados de Flávio defendem que é necessário atrair tais partidos para perto da candidatura do senador ao Planalto por sua relevância na política do país. — Na guerra, o mais importante é a vitória.
Guerra é isso — resumiu o deputado reeleito Zé Trovão (PL-SC). Lula admite erros e prepara mudança
O movimento de Lula nas redes ocorre em meio a uma cobrança mais ampla sobre a campanha. Como mostrou O GLOBO, em reunião com aliados nesta quarta-feira, o presidente afirmou que a disputa deste ano foi a campanha “menos organizada” de que participou, segundo relatos de participantes.
— Acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade, poderíamos ter feito mais. Disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989 — afirmou Lula.
As críticas não se restringem à organização. Em um jantar com 35 ministros na terça-feira, integrantes do governo fizeram uma avaliação de que a campanha errou ao apostar no chamado “voto de legado”, concentrando-se nas realizações do governo Lula em vez de apresentar propostas concretas para um eventual quarto mandato.
A orientação agora é reconhecer que o governo ficou aquém do esperado em algumas áreas e, ao mesmo tempo, apresentar propostas para o futuro. Os ministros também defenderam uma ofensiva mais dura contra Flávio, com o objetivo de ampliar a rejeição ao candidato do PL.
O movimento já começou a aparecer nas redes. Uma das peças da campanha petista explora a expressão “tesouraço”, usada por Flávio durante a campanha, para associá-la a possíveis cortes em programas sociais.
A guinada digital A comunicação se tornou um dos principais alvos de críticas internas.
No primeiro turno, segundo a avaliação feita dentro do governo, a campanha teria concentrado sua comunicação em temas como soberania e terras raras, considerados pouco conectados aos problemas cotidianos do eleitor. Na segunda-feira, Lula reconheceu que precisaria aumentar a própria exposição e mudar a forma de conversar com os eleitores.
— São 20 dias, mas é melhor. Vamos dormir menos, vamos trabalhar mais.
Eu acho que tenho que fazer mais rádio. Eu fiz muito pouco rádio nessa campanha, vou ter que fazer mais rádio.
Vou ter que fazer mais selfies, vou ter que conversar mais — afirmou. Nesta quarta-feira, o presidente publicou dois vídeos no formato de “seflie”, que é quando a própria pessoa grava o conteúdo falando para a câmera.
O vídeo, de 25 segundos, convocou os eleitores a irem às ruas e conversarem com outras pessoas. Em outro, Lula abordou a proposta de fim da escala 6x1 e questionou como Flávio pretende votar e orientar a bancada do PL sobre o tema.
A resistência com esse tipo de conteúdo foi admitida pelo próprio presidente. — Eu tenho que falar nas redes, no celular.
Eu gosto de falar só o essencial. Mas o pessoal me enche o saco: “Faz uma selfie”.
Eu não gosto. Hoje, resolvi fazer — afirmou.
A campanha também passou a buscar influenciadores de esquerda e deputados eleitos com grande votação e forte desempenho nas redes para ajudar na comunicação do segundo turno. A mudança na comunicação de Lula também foi alvo de ironia entre aliados de Flávio.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes do bolsonarismo nas redes sociais, ironizou a decisão do presidente de adotar vídeos em formato selfie. — A estratégia digital do Lula hoje foi gravar vídeo selfie.
Agora vai. E escalar a Janja.
Agora pode ter certeza, vai tocar de voto — afirmou Nikolas antes da reunião da bancada do PL no Congresso. O deputado também disse que o desempenho da direita nas redes não é resultado apenas de estratégia de marketing e citou um vídeo publicado por ele na véspera, gravado na cama, que, segundo ele, alcançou 40 milhões de visualizações.
— Porque você pode ter a melhor embalagem, mas se o conteúdo é uma merda, não adianta querer vender isso — afirmou. Reuniões das legendas
O contraste apareceu também dentro das próprias legendas. Nesta quarta-feira, no mesmo dia em que o PL reuniu sua bancada eleita em Brasília para discutir os próximos passos da campanha de Flávio, o PT também reuniu congressistas aliados para tratar da estratégia do segundo turno.
No caso petista, segundo relatos, o encontro não produziu grandes novidades em relação ao que já vinha sendo discutido desde o domingo. A principal mudança em curso está concentrada na reorganização da campanha, na comunicação e na definição de uma ofensiva mais dura contra Flávio.
No PL, a reunião serviu para alinhar a atuação da bancada e reforçar a estratégia de construção de uma frente política em torno de Flávio. O candidato participou do encontro e destacou a nova composição do Congresso, além de voltar a defender mudanças na Constituição.
— Estou muito feliz com esse Congresso que está aí. Se o Bolsonaro teve dificuldade com o Senado, agora a lógica se inverteu.
O Senado está pronto para fazer as alterações na Constituição — afirmou. A reunião também foi usada pelo candidato para agradecer aos eleitos e projetar a atuação do grupo a partir de 2027.
Em determinado momento, Flávio disse aos aliados que pretende passar décadas sem falar de PT. — A gente vai ficar por décadas sem falar de PT aqui — afirmou.
O Globo