“Eu fui escolhido por Deus”, disse Lula, após a vitória no histórico dia 25 de outubro. Mesmo sem ensino superior completo.
Mesmo vindo da classe proletária. De fato, na narrativa bíblica, Deus não costuma escolher quem está preparado, mas quem acha que não está.
Davi era o filho mais novo, esquecido no pasto. Salomão, já no trono, disse a Deus que era apenas um menino e não sabia por onde começar.
Na sexta-feira anterior ao segundo turno, li sobre outro personagem improvável – o candidato a senador pelo Texas, James Talarico. Um dos nomes de maior evidência nas eleições norte-americanas de meio de mandato, Talarico tem 37 anos, é deputado estadual no Texas, ex-professor de escola pública e seminarista presbiteriano a caminho da ordenação.
Hoje ele disputa uma vaga no Senado contra o republicano Ken Paxton – e é o favorito da corrida. Quer receber reportagens do JOTA com mais frequência? Clique aqui e selecione o JOTA como fonte de informação no Google Notícias
O que me parece explicar o favoritismo de um democrata no Texas, que não elege azuis para o Senado desde 1988, é a capacidade de dialogar em meio à bipolaridade que, como no Brasil, hoje divide os Estados Unidos. Na pesquisa da Universidade do Texas, ele tem o apoio de quase sete em cada dez eleitores independentes e de quatro em cada cem republicanos.
Eu, que estudei Direito nos dois países, tenho a teoria de que quase tudo o que acontece na política norte-americana acaba sendo replicado no Brasil, algum tempo depois, e não por acaso: herdamos boa parte do nosso desenho institucional. A primeira eleição do Trump ocorre em novembro de 2016; a de Bolsonaro, em outubro de 2018; o Capitólio foi invadido em 6 de janeiro de 2021; e a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
Acontece que, ontem, esse espelhamento parece ter sido interrompido. Enquanto, nos Estados Unidos, Trump perde em 2020 e retorna em 2024, Bolsonaro, que perdeu em 2022, não conseguiu retornar à política, nem através da figura do seu filho.
Tenho alguns palpites sobre o porquê. Em março deste ano, em um curso de liderança em Georgetown, uma palestra me chamou a atenção.
O palestrante, Mo Elleithee, foi porta-voz de Hillary Clinton em 2008 e comentarista da Fox News entre 2016 e 2022. Seu diagnóstico sobre a ascensão de candidatos de direita no mundo eu nunca havia escutado antes.
Ele explicou que, durante muito tempo, a política foi definida em um espectro entre esquerda e direita. Ao longo dos últimos 50 anos, porém, o paradigma passou a ser o quanto o sistema funciona para o eleitor.
A mensagem disseminada é “se o sistema não está funcionando para você, é necessário buscar alguém de fora do sistema”. No fundo, há uma perda de confiança nas instituições: as pessoas sentem que estão paradas no fim da fila e esperam candidatos que possam “lutar por eles”.
A escolha passa, então, por três perguntas: (i) qual dos candidatos me entende?; (ii) quem é mais capaz de lutar por mim e pela minha família?; e (iii) quais eu poderia convidar para jantar em minha casa (o que exige confiança!)? As campanhas passam a se pautar em esperança e medo, sendo o medo mais fácil de manejar.
Acontece que alguns fatores fazem com que o diagnóstico de Elleithee, que não saiu da minha cabeça durante a eleição, não funcione da mesma forma aqui: a nossa composição étnico-cultural é muito mais miscigenada, o evangelicalismo brasileiro é diferente do estadunidense, o mapa geográfico do desenvolvimento econômico é invertido e, claro, nós “chegamos depois”, com o privilégio de assistir de camarote ao que não tem funcionado no manejo da grama do vizinho.
I. Um país de muitas linhas de corte
O primeiro elemento é que o nosso país é muito mais miscigenado e culturalmente complexo. Isso importa porque a polarização é, em essência, uma sobreposição de divisões: quando raça, religião, renda e região apontam todas para o mesmo lado, o país se parte ao meio.
Nos Estados Unidos, essas linhas tendem a coincidir. No Brasil, elas se cruzam.
Segundo o Censo de 2022, os pardos (45,3%) já superam os brancos (43,5%). É comum que uma mesma família reúna católicos e evangélicos, brancos, pardos e pretos.
E é muito mais difícil mobilizar o medo contra “o outro” quando o outro é a tia, o genro ou o vizinho. II.
O evangelicalismo brasileiro não é o americano O segundo elemento é que a ascensão do movimento evangélico no Brasil é diferente.
Nos Estados Unidos, os evangélicos brancos se consolidaram como um bloco partidário: 82% deles apoiavam Trump em 2024. No Brasil, o grupo (26,9% da população) cresce sobretudo entre pretos, pardos e indígenas, mais do que entre brancos.
É um evangelicalismo majoritariamente pentecostal, popular e não branco. Para Ronaldo de Almeida, em “A onda quebrada”, a chamada onda conservadora quebra em várias direções: os evangélicos, sobretudo os pentecostais, fazem parte dela, mas não só eles, nem todos eles.
Bolsonaro soube canalizar a parcela mais visível desse campo, que não o representa por inteiro. O resultado é um eleitorado disputável: o Datafolha de 8 de outubro mostrava Flávio com 69% entre os evangélicos, contra 25% de Lula; em maio de 2021, a mesma pesquisa registrava empate (35% a 34%).
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O mapa invertido O terceiro elemento tem a ver com a nossa geografia.
Eu, que nasci em Pernambuco, sei bem como argumentos xenofóbicos apenas reforçam a vontade do Nordeste de manter a mesma escolha. No Brasil, as regiões mais pobres são o Norte e o Nordeste; nos Estados Unidos, ocorreu exatamente o contrário: o Sul é a maior base do Partido Republicano desde o realinhamento que se seguiu aos direitos civis, enquanto o Nordeste brasileiro é o coração do voto progressista.
Nos Estados Unidos, a proteção aos mais pobres vem, sobretudo, por créditos tributários e benefícios em espécie, pouco perceptíveis como uma “entrega” do governo – o “Estado submerso” de Suzanne Mettler. Aqui, o Bolsa Família chega em dinheiro, de forma direta e identificável, associado a um líder específico.
Parece-me que, graças à conjunção desses três elementos, o diagnóstico de Elleithee encontrou entraves por aqui: enquanto, nos Estados Unidos, o eleitor que se sente no fim da fila procurou um outsider e o encontrou na direita, no Brasil parte expressiva do eleitorado encontrou em Lula um aliado para prevenir disfuncionalidades que os vizinhos do norte parecem vir experimentando com Trump.
Para o Brasil, o espetáculo não foi abstrato. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, justificada em carta a Lula pelo julgamento de Jair Bolsonaro, que ele chamou de “caça às bruxas”.
Para 62,2% dos brasileiros, segundo a AtlasIntel, a medida era injustificada. Parte do eleitorado pôde, assim, aprender na teoria, e não na prática, o que significa ter o interesse nacional tratado como moeda de troca por afinidades ideológicas.
Mas e agora, José? Com um país dividido, contas públicas comprometidas e as casas legislativas com maioria da oposição, muitos se perguntam como o nosso (improvável) escolhido vai equacionar todos estes desafios. Aqui volta a lição do rising star Talarico: ele consegue se comunicar com todos, inclusive aqueles que não estão no seu campo ideológico, sem abrir mão de suas convicções, muito menos de sua fé.
Lula acaba de nos provar que é um verdadeiro fenômeno político. Mas esta mesma complexidade que o elegeu, feita de católicos e evangélicos, nordestinos e sulistas, ricos e pobres, exige mais do que um campo ideológico.
Quando o rei Salomão pediu a Deus ajuda para governar um povo numeroso, a resposta divina veio com o presente do discernimento. Se o presidente seguir os passos de Talarico, abandonando os extremos para convergir à tão sonhada “terceira via”, pode deixar uma marca ainda maior do que tudo o que nos provou até aqui.
De improvável a escolhido, Lula agora tem a chance de juntar os cacos de uma nação fraturada. Afinal, como nos ensinou Ariano Suassuna, precisamos ser realistas esperançosos, enxergando a realidade sem filtros, mas nos recusando a sucumbir.
E não é essa exatamente a essência do nosso presidente pernambucano? Que Deus seja contigo, presidente. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email
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