A trajetória profissional de Carolina Lacerda começou aos 18 anos em um ambiente majoritariamente dominado pela figura masculina. Mas, em duas décadas, aos 40 anos, ela conseguiu conquistar um lugar que nenhuma mulher havia ocupado antes em Goiás: a presidência do Sindicato da Indústria da Construção no Estado de Goiás (Sinduscon-GO).
Na última terça-feira, 3, além de ter sido eleita para comandar a entidade, Carolina também se tornou a pessoa mais jovem a assumir o cargo. Formada em técnica em edificações pela Escola Técnica e engenharia civil, graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Carolina acumula 22 anos de experiência na construção civil.
Ao Jornal Opção, ela contou que parte de sua formação aconteceu dentro do próprio sindicato, por meio de cursos, treinamentos e capacitações que eram oferecidos ao longo da carreira. “Boa parte do complemento da minha formação se deu dentro do Sinduscon, através dos cursos, dos treinamentos e da capacitação que foi ofertada ao longo de toda a minha carreira”, conta.
Sua aproximação com a entidade ganhou força na gestão anterior, quando recebeu o convite para assumir a Diretoria de Comunicação Social. Segundo a presidente, a oportunidade chegou de forma inesperada, mas foi abraçada pelo seu reconhecimento que já tinha pelo trabalho institucional em defesa do setor.
“Recebi com muita surpresa o convite, não era uma coisa que eu almejava, mas eu sempre valorizei muito o trabalho do sindicato em termos de fortalecimento do setor”, relembra. Durante os três anos de atuação na diretoria, ela também deixou uma empresa para abrir o próprio negócio.
A experiência empresarial, somada à participação na entidade, contribuiu para a construção de sua candidatura à Presidência. A eleição, no entanto, representa mais do que uma conquista profissional.
“É uma responsabilidade muito grande. Primeiro, por acreditar e saber que o setor precisa passar por uma transformação.
E também pela responsabilidade de ser a primeira mulher e a pessoa mais jovem a assumir. É uma responsabilidade não só com o setor, mas com as mulheres do setor”, afirma.
Engenheira civil defende maior participação feminina nos espaços de decisão e afirma que sua eleição pode abrir caminhos para outras mulheres no setor | Foto: Arquivo pessoal Representatividade e espaços de decisão
Carolina reconhece que sua trajetória foi construída com trabalho, esforço e reconhecimento, mas não ignora que outras mulheres enfrentam barreiras ainda maiores para conquistar espaço na construção civil. Ela também destaca que chega à Presidência com o apoio de lideranças que ajudaram a preparar o caminho para esse momento.
“Eu sei que existem outras mulheres com dificuldades muito maiores que as minhas, com muito menos acesso. Ao longo de toda a minha carreira, tudo que foi construído desde os meus 18 anos nesse setor sempre foi construído com muito trabalho e muito esforço”, diz.
Para ela, a presença feminina precisa ultrapassar os quadros de funcionários e alcançar os ambientes onde as decisões são tomadas. A nova presidente defende que as empresas avancem na igualdade de participação em cargos de liderança.
“Não adianta a empresa ter 50% de mulheres no quadro de funcionários. É ter pelo menos 50% no quadro de decisão, porque a gente tem um setor repleto de mulheres competentes”, pontua.
A eleição também carrega um significado simbólico para quem está começando. Carolina acredita que sua chegada ao comando da entidade pode ajudar outras profissionais a enxergarem possibilidades de crescimento em um segmento no qual ainda há obstáculos.
“Não estou falando que é fácil, mas estou falando que o espaço existe. Eu sempre uso uma expressão: se alguém te abre a porta para participar, para entrar em uma sala, sente-se à mesa de decisão.
A gente precisa ocupar esses espaços”, defende. Desafios para o setor
Além da representatividade feminina, Carolina assume a presidência em um momento de transformações e desafios para a construção civil. Entre as prioridades, ela cita a adaptação à Reforma Tributária, a alta dos preços dos materiais, as mudanças na jornada de trabalho e a escassez de mão de obra qualificada.
A formação de trabalhadores é uma das bandeiras que pretende dar continuidade. Ela também destaca a necessidade de valorizar os profissionais da construção civil, inclusive por meio de benefícios de saúde e segurança oferecidos aos trabalhadores e seus familiares.
Outro ponto de atenção é a relação com o poder público. Carolina menciona a demora nos processos de aprovação de projetos em Goiânia e a necessidade de avançar na aplicação de políticas habitacionais em municípios goianos.
“É um setor que constrói a cidade. Além de emprego e renda, a gente constrói e traz desenvolvimento.
E, mais do que isso, gera receita para a cidade. Então, nada mais justo que o município aplique a lei que existe para fazer as aprovações necessárias”, argumenta.
Para enfrentar essas questões, a entidade trabalha com nove grupos de trabalho, responsáveis por discutir os problemas e buscar soluções para diferentes áreas da construção civil. Ao falar sobre a nova função, Carolina define a presidência como uma forma de contribuição ao setor.
O cargo não é remunerado, mas, para ela, a recompensa está nos resultados que podem ser construídos coletivamente. “Para mim, parte dessa decisão é uma doação.
É um cargo que não é remunerado. A remuneração dele não é dinheiro, mas é muito maior do que dinheiro, porque é o desenvolvimento do setor”, afirma.
A expectativa, diz, é que sua passagem pela presidência deixe resultados para a construção civil e, principalmente, ajude a abrir caminhos para outras mulheres. “A gente precisa ocupar esses espaços de decisão”, conclui.
1/1 O pleito que levou Carolina Lacerda à presidência do Sinduscon-GO | Foto: Arquivo pessoal
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