Alta dos preços, deportações de imigrantes em massa e guerra contra o Irã estão entre os principais motivos da derrota republicana Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.
Donald Trump pediu aos eleitores que fossem às urnas como se o nome dele estivesse na cédula. E o resultado foi uma baita derrota.
Os democratas conquistaram a Câmara e o Senado e ganharam até onde os republicanos estavam acostumados a vencer. No Texas, levaram uma cadeira no Senado pela primeira vez desde 1988.
No Kansas, elegeram o primeiro senador democrata em quase um século. Foi a chamada onda azul.
Mas por que Trump perdeu tanto em tão pouco tempo? Comece pelo bolso. Ele voltou à Casa Branca prometendo alívio para quem achava tudo caro demais.
Dois anos depois, quase nove em cada dez eleitores disseram, na pesquisa de boca de urna, que o custo de vida teve um peso grande ou decisivo no voto. E a maioria avaliou que as políticas do governo, entre elas a guerra com o Irã e as tarifas sobre produtos estrangeiros, pioraram sua situação econômica.
Os democratas retomaram a Câmara e o Senado dos EUA. Entenda o que a derrota republicana nas urnas muda para o governo Trump.Vídeo: Pedro Menegon
A guerra com o Irã pegou Trump em duas promessas de uma vez. Ele havia prometido evitar novas guerras e aliviar o custo de vida.
Quando o conflito pressionou o preço dos combustíveis, a discussão sobre o que os Estados Unidos estavam fazendo no Oriente Médio ganhou uma pergunta bem mais simples. Quanto custa encher o tanque?
Quem foi mais direto sobre o estrago foi o próprio vice-presidente. “O motivo de termos perdido foi a guerra”, escreveu JD Vance no X na quarta-feira (4).
Ele desafiou quem defendia a decisão a dizer se havia valido a pena perder o Senado. Trump admitiu que o conflito pesou no resultado, mas disse que faria tudo de novo.
Essa diferença diz muito sobre o momento do governo. Trump ainda defende a decisão de ir à guerra.
Vance já está perguntando quanto ela custou ao partido. E, para um vice cotado para disputar a Casa Branca em 2028, fazer essa pergunta em público também é uma maneira de marcar posição sobre o que os republicanos devem fazer daqui em diante.
Trump vendeu as tarifas como uma forma de proteger a indústria americana. Só que a tarifa é cobrada de quem importa nos Estados Unidos.
Se a empresa repassa esse custo, ele aparece no preço que o americano paga. E isso vale tanto para o produto estrangeiro que chega pronto à loja quanto para a peça importada que uma fábrica americana usa para produzir.
Foi aí que os democratas encontraram um argumento de campanha fácil de entender. De um lado, Trump dizia que estava defendendo a produção americana.
Do outro, o eleitor queria saber por que a vida continuava cara. A oposição juntou a alta dos combustíveis e o custo das tarifas na mesma conversa.
E a boca de urna mostrou que boa parte dos americanos já atribuía ao governo a responsabilidade pelos preços altos. Em 2024, Trump avançou entre os latinos.
Nesta eleição, os democratas recuperaram terreno inclusive em condados de maioria latina na fronteira do Texas que haviam se inclinado para o republicano dois anos antes. E o desgaste com as deportações já aparecia antes da votação.
Em outubro, uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que 30% dos eleitores latinos que votaram em Trump em 2024 achavam que o governo estava indo longe demais nas deportações de imigrantes em situação irregular. O bolso também pesou entre esses eleitores.
A economia liderava as preocupações dos latinos ouvidos pelo Pew, enquanto a política migratória dividia até quem tinha apoiado Trump. Vance reconheceu que o problema foi além de fazer o republicano sair de casa para votar.
Na avaliação dele, muita gente que votou na chapa Trump-Vance em 2024 foi às urnas desta vez e escolheu os democratas. É aí que está a questão dessas midterms.
Trump pediu que a eleição fosse um julgamento do seu governo. E parte do eleitorado que lhe deu uma segunda chance em 2024 aproveitou a ocasião para cobrar o que ele havia prometido.
A guerra pesou no posto de gasolina; as tarifas deram à oposição um argumento para falar dos preços. Para finalizar, as deportações criaram atrito com parte de um eleitorado que os republicanos tinham acabado de conquistar.
A partir de janeiro, essa cobrança muda de endereço, vai diretamente para o Congresso. Com maioria nas duas Casas, os democratas poderão abrir investigações, exigir concessões nas votações do orçamento e, no Senado, barrar indicações do presidente.
Trump ainda tem dois anos de mandato. Agora, para aprovar suas prioridades, vai ter de negociar com o partido que acabou de derrotá-lo.
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