Indústria recua além do esperado em setembro e reforça desaceleração, apontam economistas

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Fonte da notícia: Valor Valor

A produção industrial caiu 0,8% em setembro, na comparação com agosto, resultado pior do que o projetado pelo mercado e que reflete um quadro disseminado de desaceleração, na visão de economistas consultados pelo Valor. Os especialistas apontam que o setor industrial tem um comportamento predominantemente negativo desde maio de 2026, período em que acumulou perda de 4,1%.

Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) de setembro divulgados nesta quinta-feira (5) pelo IBGE. Alexandre Maluf, economista da XP, projetava uma queda menor, de 0,6%, e alerta para a estagnação ocorrida no terceiro trimestre.

“O mais relevante aqui é nós olharmos para a perspectiva trimestral. No terceiro trimestre deste ano, a indústria caiu 2,2% em relação ao segundo trimestre.

Essa é a maior queda trimestral desde o segundo trimestre de 2021”, destaca Maluf em relatório. Segundo a XP, com esse resultado, a produção industrial está 4% abaixo do pico de abril deste ano e voltou para o patamar de maio de 2024.

“Foram cinco quedas mensais seguidas da indústria, que reforçam esse cenário de fraqueza da atividade no curto prazo”. “Até bens de consumo, que sustentavam a indústria no primeiro semestre deste ano, mudaram de tendência e tiveram uma queda de 3,3% no terceiro trimestre quando comparados com o segundo trimestre”, afirma o economista.

A avaliação é corroborada pelo economista Rodrigo Nishida, da 4intelligence, que destaca que até maio o setor industrial se beneficiou de estímulos fiscais, tanto no consumo quanto na produção industrial. Também foi um momento favorável à indústria extrativa, que se beneficiou da alta do petróleo devido à guerra no Irã.

Nishida aponta que a indústria passou a sofrer efeitos mais significativos da política monetária a partir de maio, com juros ainda restritivos, principalmente em bens de capital. “Destaque para a produção de máquinas agrícolas.

Nesse ano, as compras de máquinas agrícolas ficaram bem contidas”, afirma. No acumulado do ano até setembro, o segmento de bens de capital teve a maior queda (-5%) entre as grandes categorias econômicas.

A XP também aponta que os juros altos (com a Selic em 13,75%) prejudica o setor. Os efeitos dos juros altos na indústria foram reconhecidos pelo responsável pela PIM-PF, André Macedo, que declarou que a política monetária teve “contribuição importante e pode até ser principal influência” para o resultado negativo da indústria em 2026.

Para ele, a demanda doméstica pesa sobre o setor, e a política monetária mais restritiva é “o pano de fundo” da produção em declínio. Além disso, o cenário externo negativo, com redução da demanda da Argentina, as taxas impostas pelos Estados Unidos e a concorrência com a indústria chinesa, também é apontado por economistas como dificultador em alguns segmentos.

Nishida também elenca fatores climáticos. “O destaque nessa divulgação de setembro é o processamento de cana-de-açúcar, que causou reflexo nos alimentos e na produção de etanol.

Tivemos excesso de chuva em setembro e o setor acabou bastante prejudicado”, diz Nishida. A divulgação de setembro da PIM-PF também deixou clara a discrepância entre as indústrias extrativa e de transformação.

Isso porque o baixo desempenho registrado se deveu principalmente ao enfraquecimento da indústria de transformação, afirma Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre). “Se nota que a indústria geral está em queda.

Mas a extrativa continua crescendo bastante e a de transformação caindo bastante. Então a queda se deve basicamente à indústria de transformação”, afirma o economista.

A indústria de transformação caiu 1,3% em setembro, frente a agosto. A extrativa teve alta de 1,7% na mesma base de comparação.

No acumulado do ano, a indústria de transformação registra queda de 0,6%, e de 1% nos 12 meses até setembro. “Na comparação interanual, todas as atividades da transformação vieram negativas, com exceção em metalurgia e automotores.

Isso torna a queda da indústria de transformação menor do que seria, se não tivesse essas duas atividades. Esse é um retrato recente do que tem sido a indústria nesse período todo, crescendo pouco ou com resultado negativo”, comenta Considera.

Na comparação com setembro de 2025, o setor industrial assinalou recuo de 2,5%, com resultados negativos em três das quatro grandes categorias econômicas e em 18 dos 25 ramos. O IBGE faz a ressalva de que setembro de 2026 teve um dia útil a menos (21 dias) que igual mês do ano anterior.

Entre as sete atividades cuja produção cresceu, indústrias extrativas (4,4%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (7,3%) exerceram as maiores influências na formação da média da indústria, segundo o IBGE. Também houve impactos positivos assinalados pelos setores de metalurgia (1,9%) e de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (4,9%).

“A economia brasileira vive com base na extração mineral, petróleo e minério de ferro, essas atividades correspondem ao nosso crescimento. Na indústria de transformação falta investimento, falta demanda e falta eficiência, isso tudo impede que se exporte.

O pouco investimento tem sido canalizado principalmente para a indústria extrativa”, avalia Considera. Para Nishida, mesmo na indústria extrativa há uma desaceleração que tem impacto no resultado geral da indústria.

“No começo do ano, a extração de minério de ferro ainda crescia, mas desde alguns meses atrás tem mostrado um desempenho mais negativo. Parte do processamento de minério de ferro perdeu força também por condições de mercado”, diz.

“Outro fator foi o próprio refino e processamento de petróleo e derivados. Ainda que tenha um contexto favorável para esse processamento, nos últimos meses tivemos um número maior de paradas programadas”, afirma.

Segundo a XP, ainda há uma herança estatística negativa de 0,8% no índice, o que representa a memória deixada do terceiro trimestre para o quarto trimestre. Isso significa que, se a produção ficasse parada no nível de outubro até o final do ano, já fecharia o quarto trimestre em queda de 0,8%.

“Ou seja, tem de haver uma recuperação forte nestes últimos meses para haver essa devolução, e nós não vemos esse quadro. Vemos um quadro ainda de juros restritivos, com a demanda doméstica em desaceleração; portanto, nós não vemos uma recuperação da indústria neste quarto trimestre, pelo contrário”, diz Maluf.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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