Dois Lulas emergiram nesta quinta-feira, 5 de novembro, e ambos são essenciais para o sucesso de seu quarto mandato presidencial. O primeiro é o líder popular que compreendeu, definitivamente, que a comunicação direta com a sociedade, por meio do “exército” criado pelo deputado André Janones, não é apenas uma ferramenta eleitoral, mas um instrumento permanente de governabilidade.
O segundo é o estadista que sabe que a estabilidade fiscal, a organização da economia e a confiança dos investidores são condições necessárias para sustentar um projeto de desenvolvimento nacional. Não há contradição entre os dois.
Ao contrário: um depende do outro. A live da vitória foi grandiosa, não apenas por ter sido assistida por milhões de telespectadores e pela dimensão política e simbólica, mas sobretudo pelo que revelou sobre a estratégia de Lula para os próximos quatro anos.
O presidente parece ter se convencido de que não pode terceirizar sua relação com a sociedade. Num país de mídia oligárquica e num sistema político em que o PT é minoritário no Congresso Nacional, a comunicação direta com o povo será uma das principais fontes de força política do governo.
Lula não pode se tornar refém de um Congresso fragmentado, de um mercado financeiro que frequentemente reage de maneira desproporcional às incertezas políticas, de monopólios midiáticos ou de grupos de pressão que procuram capturar parcelas do Estado. Sua maior força sempre esteve na capacidade de dialogar com a população, interpretar suas aspirações e construir maiorias sociais que ultrapassam as fronteiras partidárias.
A live mostrou que essa conexão poderá assumir um caráter permanente. Não se trata de governar contra as instituições, mas de ampliar a legitimidade democrática das decisões presidenciais.
Um presidente que conversa diretamente com milhões de brasileiros tem melhores condições de negociar com o Congresso, enfrentar resistências corporativas e defender suas prioridades. Mas houve também o outro Lula, igualmente importante.
Antes da transmissão, o presidente reuniu economistas e integrantes de sua equipe para discutir a situação fiscal do país. O encontro ocorreu num momento delicado, depois que o Banco Central interrompeu o ciclo de redução da taxa Selic, diante da deterioração das expectativas econômicas na última semana.
A reação dos mercados à reeleição presidencial, marcada pela desvalorização do real, pela queda da Bolsa e pela elevação dos juros futuros, criou um ambiente de incerteza que precisa ser enfrentado. Não porque o mercado deva determinar os rumos do governo, mas porque juros elevados, instabilidade cambial e deterioração das expectativas prejudicam investimentos, empregos, renda e o próprio financiamento das políticas sociais.
Entre a reunião com os economistas e a live da vitória, Lula participou ainda de um encontro do conselho responsável pela definição da política nacional de minerais críticos e estratégicos. Ali, ao tratar da necessidade de atrair investimentos para transformar a riqueza mineral brasileira em capacidade industrial e tecnológica, destacou a importância da “estabilidade fiscal” e de uma “economia arrumada”.
A escolha dessas expressões não foi casual. Lula sabe que o Brasil dispõe de uma oportunidade histórica para aproveitar a disputa internacional por minerais estratégicos, atrair investimentos produtivos, desenvolver tecnologias e ampliar sua participação nas cadeias industriais de maior valor agregado.
Mas sabe também que nenhum projeto dessa dimensão prospera sem previsibilidade econômica. É justamente nesse ponto que os dois Lulas se encontram.
O presidente que pretende governar com o povo e para o povo é o mesmo que compreende a necessidade de organizar as contas públicas. A estabilidade fiscal não é uma concessão ao mercado financeiro, mas uma condição para que o Estado tenha capacidade de investir, planejar e executar políticas de longo prazo.
É provável, portanto, que o quarto governo Lula busque ampliar os superávits primários. Há razões econômicas para isso.
A reforma tributária deverá produzir ganhos de eficiência, reduzir distorções, estimular a formalização e, potencialmente, ampliar a arrecadação à medida que a economia cresça. Esses efeitos, naturalmente, dependerão da implementação do novo sistema e do desempenho da atividade econômica.
Mas a responsabilidade fiscal não precisa significar austeridade social. O Brasil pode melhorar seus resultados primários por meio do crescimento, da eficiência tributária, da revisão de benefícios fiscais injustificados e da melhor qualidade do gasto público.
A questão decisiva não é apenas quanto o Estado gasta, mas como arrecada, onde investe e quem se beneficia de suas decisões. Lula já demonstrou, em seus mandatos, que é possível combinar superávits primários expressivos, redução da dívida pública em proporção do PIB, crescimento econômico, valorização do salário mínimo e inclusão social.
Essa experiência constitui uma referência importante para o momento atual, embora as condições econômicas e fiscais sejam diferentes. O erro seria imaginar que o presidente precisa escolher entre agradar aos investidores e cumprir os compromissos assumidos com os eleitores.
Essa é uma falsa dicotomia. Uma economia arrumada deve servir ao desenvolvimento, e não se transformar em um fim em si mesma.
O equilíbrio fiscal deve abrir espaço para juros menores, crédito mais acessível, investimentos produtivos e melhores condições de vida. Se o ajuste se limitar à compressão de despesas sociais, poderá comprometer justamente a base política e econômica que sustenta o projeto de Lula.
A live da vitória deixou claro que o presidente não pretende trair o mandato recebido das urnas. Seu compromisso com os trabalhadores, com os mais pobres, com a valorização dos salários e com a redução das desigualdades permanece no centro de seu projeto político.
Isso não significa que todas as demandas possam ser atendidas imediatamente, nem que escolhas difíceis deixarão de existir. Significa que essas escolhas devem respeitar a orientação fundamental aprovada pelos eleitores.
O grande desafio de Lula 4 será construir uma síntese entre legitimidade popular e credibilidade econômica. A primeira lhe dará força para enfrentar as pressões políticas.
A segunda poderá oferecer as condições materiais para realizar seu programa de governo. A comunicação direta será decisiva para explicar essas escolhas, disputar interpretações e demonstrar à sociedade que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.
A quinta-feira revelou, portanto, algo mais importante do que uma estratégia de comunicação ou uma sinalização aos investidores. Revelou os dois pilares sobre os quais Lula pretende construir seu novo mandato: um governo que se sustenta na confiança do povo e uma economia capaz de sustentar as ambições do país.
O Lula que governa com e para o povo não precisa derrotar o Lula que mantém a economia arrumada. Precisa caminhar ao seu lado.
E a economia arrumada só fará sentido se estiver a serviço do povo brasileiro.
Brasil 247