‘Há um setor que demanda mudança e vota contra o sistema, mas a lua de mel tem sido curta’, afirma ex-estrategista de Boric

‘Há um setor que demanda mudança e vota contra o sistema, mas a lua de mel tem sido curta’, afirma ex-estrategista de Boric - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há apenas cinco anos, o chileno Sebastián Kraljevich atuou como estrategista de um jovem político, Gabriel Boric, que personificou o clamor social ensejado por manifestações que tomaram conta do país e chegou à Presidência da nação andina. No ano passado, contudo, o Chile impôs uma derrota à candidata apoiada por Boric, Jeannette Jara, que foi superada pelo direitista José Antonio Kast.

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Kraljevich, que depois virou embaixador do país na Organização dos Estados Americanos (OEA) e secretário para o fortalecimento da democracia na mesma instituição, é dos que acreditam que a América Latina vive um momento muito mais “antissistema” do que necessariamente de expansão da direita.

Parte das sociedades desses países, avalia, está movida por um sentimento difuso de mudança que, passadas as eleições, dá aos presidentes uma lua de mel curta, de poucos meses. É nesse cenário que ele vê inserida a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Na esteira da dificuldade que candidatos à reeleição têm enfrentado mundo afora, o chileno critica a ideia de que “o dado mata o relato”, ou seja, de que fatos em forma de números positivos da administração pública sobrevivem por si só e se sobrepõem a narrativas. O que conquista votos, diz, são “a experiência, a história, as emoções”.

Na mesma linha, o sociólogo de formação que deixou a OEA em agosto e agora se dedica à consultoria Causa Labs, com presença em Washington, Santiago, Buenos Aires e Cidade do México, afirma que a lógica de que a comunicação é uma etapa posterior a governar não se sustenta mais. O desafio de hoje é como se comunicar enquanto governa.

Sebastián Kraljevich é o sexto e último entrevistado da série “Brasil visto de fora”, que reuniu conversas com estrategistas internacionais sobre a eleição brasileira e tendências que também apareceram em outros países, como a “maldição do incumbente” e o descompasso entre indicadores econômicos e a percepção das pessoas.

Foram ouvidos o americano Karl Rove, o espanhol Antoni Guitérrez-Rubí, a argentina Ana Iparraguirre, a britânica Deborah Mattinson e o equatoriano Jaime Durán Barba. O senhor fez a campanha de um político jovem de esquerda que representou uma ruptura com o que o sistema chileno havia produzido desde a ditadura.

O que aconteceu para que hoje o continente tenha apenas outsiders de direita vencendo eleições? Em geral, há na sociedade latino-americana um segmento de eleitores que é pouco politizado, mas tem uma forte demanda por mudança.

É um setor que tende a votar contra o establishment estruturalmente, mas, ao mesmo tempo, a se desencantar de forma muito rápida. Hoje, na América Latina, vemos dois fenômenos.

Quando pensamos na idade dos partidos que vencem as eleições, vemos uma média de cinco anos. Além disso, a lua de mel com os eleitores está durando menos de cinco meses.

Então, são setores que votam por mudança, que querem outsiders, mas que, poucos meses depois de o outsider assumir o governo, se desencantam com ele porque essa mudança que reivindicam é muito difícil de cumprir. Como é possível produzir resultados em cinco meses em temas como segurança, inflação, acesso à saúde ou coisas assim? É impossível.

Então não significa necessariamente que há uma onda de direita? É um tipo de eleitor que não acompanha as complexidades da política, que não se interessa se o presidente tem ou não maioria no Congresso, pelas dificuldades de aprovar uma lei e por aí vai.

Na minha leitura, e vejo isso respaldado pelos dados, é um grupo que, mais do que votar na direita, vota naturalmente contra o establishment e por mudança. Há pouco tempo saiu o relatório de 2026 da Latin American Public Opinion Project, e parte das perguntas busca entender se há ou não um movimento ideológico em direção à direita na região, e eles concluem que não.

O que há é uma rejeição a quem exerce o poder, porque estamos vivendo um período muito complexo para exercê-lo. O voto anti-incumbente, anti-establishment, está muito forte.

No meu país, o Chile, o presidente Kast está há seis meses no poder e sua queda nas pesquisas é notória. Se as pessoas o elegem não por suas ideias, mas porque ele representa “o mais diferente possível”, é isso que tende a acontecer.

O que um presidente precisa fazer hoje para conseguir um novo mandato? Minha impressão é que os poucos casos da região em que identificamos respaldo amplo são governos que conseguiram colocar, narrativamente, o establishment em outro lugar, não neles.

É o caso do México, por exemplo, ou do Equador; penso neles e em El Salvador, onde o establishment é outra coisa, os que vieram antes, a “partidocracia”. Na medida em que as pessoas assumem que o sistema é quem governa, o político que está no governo fica em situação complicada, porque, nestes tempos, é muito difícil para o sistema produzir resultados a curto prazo.

A tarefa dos governos é ser capaz de responder a esse ambiente e contar, de forma simples, breve e interessante, seus resultados. É algo que Lula enfrenta, e recentemente passou a botar mais os pés no chão em vez de dizer que tudo está perfeito.

É uma mentira a história de que “o dado mata o relato”. Os dados não conquistam votos.

O que conquista votos são a experiência, a história, as narrativas, as emoções. Então, se um governo ou um ator político é incapaz de transformar o crescimento do PIB, a queda da inflação, a melhora das taxas de câmbio ou a balança comercial em história, emoção, narrativa, isso não basta eleitoralmente.

Se não conseguimos fazer isso chegar a quem menos consome notícia e não se interessa por macroeconomia, os números são simplesmente papel. Como a lógica de comunicação com o eleitor mudou?

Até algum tempo atrás, podíamos dizer que comunicar era um processo posterior a governar: governamos, depois pensamos em como comunicar. Isso está totalmente superado hoje.

O desafio hoje é como governar comunicando. São dois processos que precisam caminhar juntos.

O senhor estava como secretário da OEA para o fortalecimento da democracia até agosto. Como analisa o fato de Jair Bolsonaro ter sido condenado há um ano por tentativa de golpe e hoje seu filho poder se tornar presidente?

Diria que é um sintoma de que a adesão às regras da democracia não passa por um bom momento na região, nem no mundo. A importância de ser um bom perdedor, de aceitar um resultado quando ele não lhe serve, de respeitar as minorias, de entender que o poder sempre tem limites, tanto de tempo quanto de capacidade… Essas ideias vivem momentos ruins.

Porque há um pensamento, talvez crescente, de que essas ideias não são úteis para resolver os problemas que vivemos. Eu penso o contrário: que essas regras são fundamentais para resolver nossos dilemas e que, por isso, é tão importante que as democracias produzam resultados.

A direita chilena que venceu a eleição está muito integrada com a dos países vizinhos. Mas o que une e diferencia Kast da família Bolsonaro ou de Javier Milei, por exemplo?

O interessante da ultradireita sul-americana é que ela está chegando um pouco tarde à “festa”, porque tudo parece indicar que, em novembro, com as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, isso começará a mudar, e o desenho de alinhamento absoluto com eles soará tardio. Tenho o maior respeito por Kast porque o considero um político sério.

Estou muito distante de suas ideias, mas é um sujeito que fez uma carreira política racional, construiu um partido, fez um monte de coisas que fazem com que ele não seja tanto do “espetáculo” quanto Milei. Mas, em termos de políticas, eles compartilham boa parte da agenda, inclusive uma política externa que, insisto, chega tarde à festa.

Apesar de o Chile estar longe de ser o pior da região em segurança, o tema foi muito martelado pela direita na última campanha — como fazem aqui, onde de fato é um problema grande. O que explica?

O que vemos na região é que, depois da pandemia, tivemos um aumento generalizado dos crimes mais violentos, que também são midiaticamente mais espetaculares. Concentram mais atenção, desenvolvem mais conversas.

Repito: sou completamente contra a máxima de que “o dado mata o relato”. A discussão sobre segurança demonstra que isso não é real.

A experiência de um amigo, um conhecido, alguém na televisão te contar uma história, alguém no TikTok te contar uma história, acaba sendo muito mais impactante do que um dado frio sobre segurança. E como avalia a experiência de Boric na Presidência? O grupo político dele não conseguiu se manter no poder.

Depois de representar uma ruptura, onde falhou? Uma explicação é que no Chile, há mais de 20 anos, a oposição vence todas as eleições.

Há algo bastante estrutural nisso e que não se explica só por Boric, Kast, (Sebastián) Piñera ou (Michelle) Bachelet. Mas, em relação a Boric, quando vemos os resultados em redução da inflação, aumento real dos salários, melhora das aposentadorias, redução da jornada de trabalho, é um governo com muito o que contar sobre o que fez.

Como isso conversa com esse fator estrutural da sociedade chilena, do voto por mudança a cada ciclo? Os resultados estão à vista. Sem dúvida, essa demanda por mudança se impôs no Chile, e me parece que isso não vai ser diferente a curto prazo.

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