O Status, do WhatsApp, está longe da popularidade de outros recursos do aplicativo, como as mensagens de áudio, as figurinhas divertidas e os grupos. Mas é o “patinho feio” do serviço da Meta que virou ferramenta fundamental de petistas e bolsonaristas para virar votos na reta final da campanha.
Inspirado nos Stories do Instagram, o Status oferece um alcance incomparável ao de outras redes sociais e virou esperança dos dois lados para furar a bolha — basta ver como a aba Atualizações ficou povoada nos últimos dias. Para Lígia Melges Ferro, 24, o Status passou a existir apenas depois do resultado do primeiro turno.
Eleitora de Lula (PT), ela concluiu, com os amigos, que precisava encontrar outras maneiras de angariar votos — falar com a própria bolha no Instagram não ajudaria a reverter o cenário de derrota do atual presidente. — Eu nunca tinha usado o Status.
Também não via o que as pessoas postavam. Para o segundo turno, conversei com meus amigos sobre como podíamos chegar a mais gente.
No WhatsApp, tem um monte de gente com quem a gente nem lembra que tem contato, e essas pessoas acessam o Status, principalmente as mais velhas — conta ela. De fato, se o objetivo dos especialistas em comunicação era enviar mensagens políticas para a “amiga da tia-avó”, como ela diz, a escolha do Status parece certeira.
Um estudo de 2025 da empresa de análise We Are Social mostrou que o WhatsApp é a rede social favorita dos três grupos etários mais velhos: 35 a 44 anos (16,9%), 45 a 54 (19,3%) e 55 a 64 (21%). Os grupos que englobam a geração Z, de 16 a 24 e de 25 a 34, preferem o Instagram.
Ainda que não existam dados específicos sobre o Status, há um grande público a ser explorado por lá — procurada, a Meta não quis participar da reportagem. Parte dos esforços de postagem no Status é coordenada em grandes canais, como o “Exército do Lula” e a “Tropa do Flávio”, ainda que os direcionamentos sejam vagos, do tipo “compartilha no WhatsApp”.
Mas outra parte do comportamento é orgânica, resultado da disputa presidencial apertada. O eletricista Fagner Gomes, 36, conta que não participa de grupos nem canais, mas resolveu aumentar as postagens a favor de Flávio Bolsonaro (PL).
— Quando chega a época de eleição, a gente começa a postar mais vezes por dia. Fora do período eleitoral, posto uma vez ou outra na semana sobre política.
Agora, todo dia tem postagem, umas quatro por dia, para ver se acorda o pessoal que está escravizado pela esquerda. Diante do esgotamento das bolhas, que normalmente ocupam espaços como o Instagram e o TikTok, a escolha do Status ajuda a formar uma estratégia de “marketing 360º”, cujo objetivo é cercar o eleitor e garantir que ele receba a mensagem em todos os canais possíveis.
João Finamor, professor de marketing da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), explica que a abordagem traz novas oportunidades para recuperar ou reverter votos a um custo praticamente zero para o apoiador, já que “todo mundo” está na ferramenta. Um estudo de 2025 do InternetLab já apontava o uso do Status como importante ferramenta de campanhas políticas.
O documento afirmava: “A ferramenta, de alta incidência no cotidiano das pessoas, foi utilizada de maneira bastante estratégica durante as eleições, pois alcança um grande número de contatos e é percebida como uma forma de manifestação que não é invasiva nem causa incômodo”. Dos mais de 3 mil entrevistados pela pesquisa em 2024, 90% tinham consumido posts do Status e 76% tinham postado.
Sem algoritmo Além do alcance, Finamor lembra que o Status tem uma característica importante quando comparado a outras redes sociais:
— Um ponto importante é o algoritmo de entrega. Os Stories, do Instagram, entregam conteúdo de maneira diferente, entregam menos, dependendo dos símbolos e das cores que você usa.
O Status não tem algoritmo. Tudo o que está ali, as pessoas recebem.
O papel dos algoritmos foi um dos principais pontos de controvérsia no segundo turno. A Meta virou alvo de investigação da Justiça Eleitoral por suposto favorecimento a Bolsonaro.
A campanha de Lula alega que houve prejuízo na entrega de conteúdos — antes disso, em setembro, a conta de campanha de Lula foi desativada. Embora o Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta tenha afirmado que a empresa cometeu “falhas recorrentes” nos processos de moderação eleitoral, a companhia negou interferência no processo.
De fato, os números da Meta mostram como o Status ainda não tem peso na receita da companhia. No terceiro trimestre, excluída a publicidade, os aplicativos da empresa — Facebook, Instagram e WhatsApp — tiveram receita de US$ 1,1 bilhão.
A parte vinda de publicidade foi de US$ 63,1 bilhões. Ao GLOBO, Éden Valadares, secretário de Comunicação do PT, afirma que postar no Status foi parte da estratégia do partido no segundo turno de diversificar os canais, e que não teme depender de outra ferramenta da companhia de Mark Zuckerberg:
— A nossa capacidade de mobilizar os usuários das redes, os ativistas dos direitos pela liberdade, de promover uma grande articulação internacional, com entidades de mais de 100 países se mobilizando a nosso favor, e o reconhecimento dos especialistas da ONU, tudo isso não nos permite qualquer temor ou vacilação.
Ao contrário: mostrou que é possível enfrentar um gigante quando estamos do lado certo, do lado da Lei, da Justiça e da Liberdade. Procurada para comentar o uso do Status, a campanha de Flávio não respondeu.
Funcionários de big techs se manifestam por lá Por ter uma aura de “baixa visibilidade”, o Status também virou canal por onde funcionários de grandes empresas de tecnologia no Brasil passaram a postar conteúdo político — o padrão é que essas pessoas permaneçam em silêncio em períodos eleitorais.
Desta vez, a reportagem detectou funcionários e ex-funcionários de pelo menos três gigantes americanas. Não há posts contra as próprias empresas, e o tom ainda é contido.
Mas há apoio explícito à campanha de Lula e rejeição a Bolsonaro. — Eu acho que o Brasil está passando por um momento muito complicado.
A gente não está só falando de política. Tem muita coisa em jogo.
Tem muita gente com ódio. Acho muito importante poder me posicionar — disse um desses funcionários.
Dá resultado? Não é possível saber se o Status será capaz de virar votos, mas os dois lados mostram confiança — claro, os posts também geram conflito em alguns casos.
Fagner tem a convicção de que virou os votos de alguns “amigos canhotinhos” para ajudar na vitória de Bolsonaro: — Sempre dá uma discussãozinha, e eu tento falar o meu lado.
Creio que já consegui converter algumas pessoas. Já a técnica de enfermagem Gabriela de Souza, 24, acredita que conseguiu mudar o voto do pai de seu filho, que está indeciso:
— O pai do meu filho está em cima do muro. Por causa de uma postagem que eu fiz, a gente começou um debate; é mais fácil falar com indecisos do que com quem acredita no bolsonarismo.
Do resto das pessoas, que não sabiam que eu sou de esquerda, eu só colhi ódio. Para muitos dos que estão tentando virar votos, a postura exige pequenas mudanças na personalidade digital.
Há posts que ficam só para o WhatsApp, enquanto outros são exclusivos do Instagram. Lígia, por exemplo, conta que passou a ser “mais barulhenta” do que costuma ser no Insta.
— Eu estou postando coisas que jamais postaria, num dia normal, no meu Instagram. É tudo arte de IA, uns vídeos engraçados.
São coisas com as quais eu não me identifico, mas entendi que muita gente sim — diz ela. E como será o dia depois da eleição? O bom senso parece indicar que o Status vai murchar, mas não é bem assim.
Tudo dependerá do resultado das urnas no domingo. Dos dois lados, o sentimento é de que quem perder está condenado a ficar na ferramenta para fazer oposição.
O Globo