O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, atribui a divulgação de mensagens com menções ao seu nome no celular de Daniel Vorcaro a um "esforço" para afastá-lo da análise do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). No mês passado, o ministro se declarou impedido de julgar citações que mostravam relação do banqueiro com Alexandre de Moraes, seu colega na Corte.
Na época, alegou como motivo seu papel no processo eleitoral. Em entrevista ao GLOBO, o ministro negou ter relação com o ex-dono do Master e disse que não trocou favores com Vorcaro, preso sob suspeita de comandar a maior fraude ao sistema financeiro já registrada no país.
— Estão criminalizando o conhecimento social que as pessoas têm. Se quer saber se fiz algum negócio com ele, aí é diferente.
Isso nunca existiu. Eu nunca pedi nada a ele.
Ele nunca me pediu nada. Agora, se nos encontramos alguma vez em algum lugar, também não tem como saber.
Em Brasília você encontra todo mundo. — afirmou.
Questionado se esteve em uma festa no apartamento de Vorcaro em São Paulo, com garotas de programa, conforme indicam trocas de mensagens no celular do banqueiro, Nunes Marques atribuiu as informações a "recortes” de diálogos de pessoas que “não conhece” e que ele “não autorizou que falassem por ele”.
— São recortes e retalhos extraídos de celulares de terceiros, de pessoas que eu não conheço e não autorizei que falassem por mim. São tantos retalhos que não conseguimos nem responder.
Hoje em dia se criminaliza alguém que manteve um diálogo. No meu caso, até hoje insistem nisso.
Eu não me recordo de nenhum diálogo com Vorcaro. É uma colcha de retalhos que terá um momento certo para ser analisada — disse Nunes Marques;
O ministro defendeu que as apurações sobre o envolvimento de autoridades, incluindo integrantes do STF, sejam feitas no “momento certo”. Segundo Nunes Marques, essas investigações vão identificar “o que é relevante o que não é”, “o que é crime ou não” e quais as relações entre as pessoas e as práticas sob suspeita.
Foi nesse contexto que o ministro citou o “esforço” para lhe “tirar do processo” do Master. — Todo esse esforço é para que eu me julgue impedido — afirmou.
Ainda segundo o ministro, esse esforço é de quem “tem interesse” em que ele fique de fora da análise do caso. — Muita gente, porque, ao fim e ao cabo, levaria a isso.
E esse filme eu já vi acontecer com outro colega — completou, em referência a seu aliado no STF, o ministro André Mendonça. O presidente do STF, Edson Fachin, deve receber, na primeira quinzena de novembro, um relatório elaborado pela Polícia Federal com as citações feitas a integrantes da Corte nos celulares de Vorcaro e seus aliados.
Não há, no entanto, previsão de data para que o STF volte a discutir as menções a ministros no caso Master. Um primeiro julgamento sobre o tema teve início no dia 15 de setembro, em sessão marcada para tratar das mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro.
Na ocasião, o debate ficou restrito a uma questão de ordem, sobre uma eventual discussão das menções aos ministros de forma conjunta. A sessão foi marcada por fortes embates e bate-bocas entre os integrantes do STF.
O julgamento foi suspenso por um pedido de vista do ministro Flávio Dino. O prazo para que o caso volte a ser liberado para julgamento termina em 15 de dezembro.
O recesso do Judiciário começa no dia 19 do mesmo mês, então a expectativa é a de que o caso só volte ao centro dos debates no ano que vem. Impedimento
Logo no início do julgamento do dia 15, Nunes Marques se declarou impedido para participar das discussões. O ministro levantou o argumento de que o debate poderia também impactar no cenário político eleitoral e então, como presidente do TSE, não estaria confortável em participar da mesma.
Ao GLOBO, Nunes Marques disse que vai reanalisar sua declaração de impedimento, mas que só vai se pronunciar sobre o tema quando o caso voltar à pauta do STF. Pouco antes da sessão do dia 15, foram revelados diálogos que citam pagamentos de Vorcaro ao filho do ministro, o advogado Kevin Marques.
Na conversa, o ex-diretor jurídico do banco Luiz Rennó responde uma mensagem de Vorcaro com dados de Kevin e cita o valor de R$ 500 mil por mês. Também na entrevista ao GLOBO, Nunes Marques disse que o filho "nunca recebeu nada do Banco Master e nenhum parente meu jamais advogou para o banqueiro".
O presidente do TSE também declarou que o sigilo de Kevin "foi quebrado indevidamente e ficou comprovado que ele recebeu R$ 281,6 mil (dez parcelas de R$ 28 mil) da Consult, empresa à qual prestou serviços jurídicos. Estes são os fatos".
Por meio de sua assessoria, o advogado negou ter recebido recursos do banco e que prestou serviços jurídicos a uma consultoria jurídica mencionada na conversa.
O Globo