Flávio Bolsonaro (PL) não levou a melhor no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 na cidade de São Paulo. Lula (PT) conquistou 46% dos votos na capital paulista, contra 42% do senador.
O candidato do PL, no entanto, se saiu melhor em um conjunto de zonas eleitorais das regiões Leste e Norte que formam uma espécie de cinturão entre o Centro e as periferias mais lulistas, além de um aglomerado de áreas na Zona Sul. Mapa da votação: Veja aqui os resultados por zonas eleitorais de SP
O cinturão conservador onde o candidato do PL ganhou terreno prefere, desde os anos 1980, candidatos como Jânio Quadros, Paulo Maluf. Mais recentemente, teve como candidato mais votado o empresário Pablo Marçal, do PRTB, nas eleições para a prefeitura de 2024.
Na ocasião, Marçal, por menos de 1% dos votos, não superou Guilherme Boulos (PSOL) e foi para o segundo turno. O então candidato do PRTB foi o mais votado em 20 zonas eleitorais da cidade, que formam um cinturão que vai das da Vila Prudente até o Jaçanã, na Zona Norte.
Flávio angariou mais votos do que Lula em 75% desse território em que Marçal também foi mais votado. A região do Tatuapé, por exemplo, registrou 53% dos votos para Flávio, seu melhor desempenho na cidade.
Na sequência vêm a Mooca, com 52% para o senador, e a Vila Formosa, com 51,9% para o candidato. São as áreas em que Marçal se saiu melhor, em porcentagem de votos, naquela apertada eleição de 2024, chegando à marca de 34% nas zonas da Vila Formosa.
O desempenho mais forte de Flávio e de Marçal nesse pedaço da Zona Leste, e também em territórios como Tucuruvi, Santana e Jaçanã, não é por acaso, explica Caio Barbosa, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo. Ele pesquisou essa área da cidade no doutorado, entre 2018 e 2022, quando se aprofundou nos elementos da ascensão do bolsonarismo nesse cinturão de bairros paulistanos.
Barbosa explica que o sociólogo Antonio Flavio Pierucci identificou que essas regiões da cidade foram fundamentais para as eleições de candidatos de direita como Jânio Quadros, em 1985, e também base para o malufismo, em torno da figura do ex-prefeito e governador de São Paulo, Paulo Maluf, então nome da direita.
Melhor votação de Flávio Bolsonaro em São Paulo foi em bairros mais centrais da Zona Leste, Norte e miolo da Zona Sul; veja mapa — Essa faixa que vai do começo da Zona Leste até a Zona Norte foi a primeira periferia da história da cidade, áreas que foram sendo ocupadas pelos imigrantes e hoje são formadas por uma classe média mais tradicional, que sente que o estado é um obstáculo.
No malufismo você tinha categorias como taxistas, eletricistas, marceneiros, profissionais autônomos, que não são os trabalhadores formais parte da base eleitoral do PT — explica Barbosa. — Hoje temos ali pequenos empresários, aposentados, trabalhadores assalariados em cargos gerenciais ou autônomos como taxistas e motoristas de aplicativo.
Esse eleitor tem uma visão mais conservadora sobre os costumes — conta o pesquisador. As eleições de 2024 tinham dois candidatos no campo mais conservador, o atual prefeito Ricardo Nunes (MDB) e Pablo Marçal.
O eleitor com mais afinidade ao bolsonarismo, e morador das zonas Leste e Norte, acabou indo mais ao encontro das ideias de Marçal do que as de Nunes, que era o candidato apoiado oficialmente pelo clã Bolsonaro. Por isso, no primeiro turno, o candidato do PRTB acabou se saindo melhor que Nunes em regiões onde o bolsonarismo mais "raiz" encontra terreno, explica Barbosa, o que está também relacionado à volta desse eleitor para Flávio Bolsonaro.
— O Flávio Bolsonaro teve um rendimento maior também em bairros que são de uma direita tradicional mesmo. Ou seja, talvez tenham votado nele não só por ser o Flávio, mas contra o Lula.
Antipetismo, entendeu, algo da elite paulistana que a gente já conhece desde a época do PSDB — diz João Feres, professor titular de ciência política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. As áreas mencionadas por Feres são regiões como a de Indianópolis, onde fica o bairro de Moema, e também Santo Amaro e Jardim Paulista, sendo esta última a que abriga bairros de alta renda como Itaim Bibi.
O Globo