Após atingir um recorde no ano passado, o número de feminicídios consumados recuou 4,5% no Brasil entre janeiro e setembro de 2026, na comparação com igual período de 2025. A queda não representa necessariamente melhora no cenário.
Houve aumento de 10,38% nas tentativas de feminicídios no mesmo período. Além disso, o país ainda enfrenta dificuldades de classificação desse tipo de crime e há lacunas na rede de proteção, avaliam especialistas em segurança pública e violência de gênero.
Nos nove primeiros meses de 2026, o país registrou 1.082 feminicídios consumados, ante 1.133 no mesmo período do ano passado. Em setembro, foram 101 casos, o menor número mensal do ano.
Ainda assim, a média foi de quatro mortes por dia, conforme dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Entre janeiro e setembro de 2026, foram registradas 3.350 vítimas no Brasil, ante 3.035 no mesmo período do ano passado.
Em setembro, foram 411 registros, o segundo maior número mensal do ano. São cerca de 12 tentativas por dia.
Silvana Mariano, coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina, explica que uma tentativa de feminicídio ocorre quando uma mulher sobrevive, a despeito da vontade do agressor, possivelmente em decorrência da intervenção de terceiros. Para ela, o aumento da sensibilização e da conscientização sobre esses casos pode ter contribuído para aumento das intervenções.
“As interrupções têm um papel muito importante para que essas mulheres sobrevivam. A melhoria dos serviços de socorro e das redes de atendimento também faz com que eles fiquem mais em alerta”, diz.
Flávia Muniz, gerente de projetos da ONU Mulheres, afirma que a diminuição das mortes, embora desejável, ainda não é suficiente para indicar redução da violência, especialmente diante do avanço das tentativas. Ela pondera que ainda é necessário conhecer melhor as circunstâncias das ocorrências, registros realizados e respostas oferecidas em cada caso para entender o que os dados até setembro representam.
Amanda Lagreca, pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões, afirma que é prematuro falar em redução de casos. Segundo ela, mortes inicialmente registradas como homicídios ainda podem ser classificadas como feminicídios após o avanço das investigações.
Os dados referentes aos três meses mais recentes são preliminares, em razão dos processos de validação junto aos Estados. “Como o feminicídio é uma morte de gênero, ela precisa muitas vezes de um tempo de investigação.”
Ela avalia que o avanço de tentativas pode indicar que casos graves, antes classificados como lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, podem estar sendo registrados como tentativas de feminicídio. O comportamento dos crimes nos últimos meses do ano também pode alterar o balanço de 2026.
Cristina Neme, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz, afirma que as tentativas costumam aumentar no último trimestre, movimento observado também em anos anteriores. Segundo ela, o período reúne fatores de risco, como férias, feriados e comemorações de fim de ano, que podem ampliar a convivência entre vítimas e agressores.
Os números oficiais também podem não refletir a dimensão do problema. O Monitor de Feminicídios do Brasil, do Lesfem/UEL, identificou 3.540 casos tentados e consumados no primeiro semestre deste ano, dos quais 548 não constavam no Sinesp.
A metodologia das pesquisadoras combina notícias da imprensa com dados do sistema nacional. Apesar de contabilizar mais casos, o levantamento também aponta redução de 4% nos feminicídios consumados no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano passado.
As tentativas aumentaram 7,7%. Mariano exemplifica que a existência de vínculo doméstico ou familiar entre a vítima e o agressor é um dos critérios para a classificação do crime.
Na prática, porém, há casos que não recebem essa tipificação porque as autoridades entendem que a motivação do homicídio foi conflito financeiro ou disputa pela guarda de filhos, sem relação com a condição de gênero da vítima. Em nota, o MJSP afirma que o aprimoramento da identificação e da classificação dos crimes, além de ações preventivas e protetivas, são hipóteses que devem ser consideradas como possíveis fatores para a queda dos feminicídios consumados e o avanço das tentativas.
No entanto, diz não ter análise específica que permita afirmar se houve mudança de padrão de registro que confirme o que dizem os indicadores. O ministério diz que os dados do Sinesp são consolidados a partir das informações encaminhadas pelos Estados e seguem critérios próprios de classificação e consolidação.
Por isso, comparações com outras estatísticas devem considerar diferenças metodológicas e de fontes. A implementação das políticas públicas de proteção às mulheres é hoje uma das principais lacunas no enfrentamento à violência de gênero, avalia Silvana Mariano.
Segundo ela, embora o país tenha um conjunto de leis e instrumentos institucionais voltados ao atendimento das vítimas, a cobertura dos serviços ainda é insuficiente frente à dimensão do país e das desigualdades regionais. Ela cita a distribuição das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), criadas na primeira metade da década de 1980.
Segundo dados do painel da Rede de Atendimento à Mulher, do Ministério das Mulheres, o Brasil tinha 624 unidades em novembro de 2025. No Acre, apenas duas unidades.
Segundo o Monitor de Feminicídios, 49,5% dos casos registrados no primeiro semestre deste ano ocorreram em municípios com até 100 mil habitantes. A maioria (68,9%) aconteceu na residência da vítima, do agressor ou em outra habitação.
Em 82,1% das ocorrências, os agressores eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas. “A gente sabe que a maior parte dessas violências, inclusive mortes, acontece em casa.
Então, é muito importante que essas políticas estejam territorializadas e que vários profissionais das várias áreas estejam integrados no enfrentamento da violência contra mulher”, explica Cristina Neme. Neme chama atenção ainda para o papel das armas de fogo no agravamento da violência contra as mulheres.
Segundo ela, embora a maior parte dos feminicídios seja cometida com armas brancas, como facas e outros instrumentos cortantes, as armas de fogo aparecem em segundo lugar e estão associadas a um risco maior de morte. Levantamento do Instituto Sou da Paz com dados de São Paulo mostrou que o uso de arma de fogo aumenta em 85% a chance de uma tentativa de feminicídio resultar em morte.
Por isso, ela destaca que é necessário identificar se o agressor tem acesso a armas e de adotar medidas para retirá-las de circulação em situações de violência doméstica.
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