Empresas dolarizadas para tempos incertos

Empresas dolarizadas para tempos incertos - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Em meio ao caos do pós-eleição na bolsa, num dia em que o principal índice chegou a cair mais de 17%, e fez com que a B3 acionasse o disjuntor para evitar um curto-circuito generalizado, algumas empresas foram poupadas da carnificina, todas com alguma proteção dos seus ativos em moeda forte.

Além de casos óbvios como Vale, Suzano e Embraer, exportadoras natas que dependem mais dos humores externos do que os do Brasil, destacaram-se duas empresas que há tempos vêm construindo um patrimônio fora das fronteiras brasileiras, longe da instabilidade político-econômica que sistematicamente costuma se abater sobre o país.

Segunda-feira, 26 de outubro, foi mais um desses dias de infâmia na história do mercado brasileiro, em que o “Lula 4 Day” deixou no chinelo o “Joesley Day” de 2017. O desastre esteve mais perto do pânico da pandemia e, se forem desconsiderados os choques externos, a próxima referência passa a ser os dias que se seguiram ao Plano Collor, em 1990, quando houve confisco da poupança.

Essa é a dimensão do estrago, que não parou por aí. Foram seis dias consecutivos de queda, até anteontem, que levaram o principal índice da bolsa de volta aos idos de março de 2020.

Com relação ao pico histórico atingido em 9 de outubro, quando as pesquisas e casas de apostas previam a vitória de Flávio Bolsonaro, a queda foi de 19%. A perda em valor de mercado das empresas do Ibovespa ficou em torno de R$ 800 bilhões, e com ela encolheu também a poupança das pessoas guardada em fundos de investimento, que tiveram prejuízos gigantescos.

A incerteza com relação aos rumos das contas públicas com mais um mandato do petista Luiz Inácio Lula da Silva refletiu-se nos juros futuros e no dólar. No “day after”, a moeda americana teve a maior alta diária, 8,21%, desde janeiro de 1999, quando foi adotado o regime de câmbio flutuante e levou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a permitir que fosse feito um “diferimento cambial” para salvar os balanços das empresas endividadas.

Até a sexta-feira, foi a maior alta semanal, 9,04%, desde outubro de 2008, depois da crise hipotecária nos EUA. Com a vitória de Flávio no primeiro turno, os analistas aceleraram o ajuste de suas planilhas para uma nova era de crescimento do mercado de ações, depois da dominância da Selic no Lula 3.

Um levantamento da coluna com 12 bancos e casas de pesquisa até a véspera do segundo turno mostrou 90 aumentos de preços-alvo e apenas 16 cortes, uma diferença de 5,6 vezes. Entre o pós-eleição e ontem, o número de cortes de preço-alvos já ultrapassava os aumentos em 3,3 vezes.

Os cortes de recomendação (comprar, manter e vender) eram também mais que duas vezes maiores que as elevações. A “mudança absurda de cenário”, como definiu um gestor ao Valor, deixou o mercado “totalmente sem rumo” na segunda-feira.

Como é comum em tempos de crise, costuma circular pelas redes um conselho recorrente para investidores desesperados com mais um momento de liquidação de ativos brasileiros: “Dolarizem!”. Com os bancos já revisando o PIB para baixo e a inflação para cima, o meme virou uma ordem.

Na liquidação da “black monday”, quando algumas ações de primeira linha eram oferecidas com até 70% de desconto, os investidores saíram em busca de proteção. Enquanto Magazine Luiza e Vamos, empresas dependentes do mercado doméstico, perdiam mais da metade do valor, poucas resistiam à devastação.

Entre elas, em terceiro lugar da lista das raras altas do Ibovespa naquele dia, estava a WEG. Não se trata de uma exportadora simplesmente.

A fabricante de motores elétricos de Jaraguá do Sul (SC) estruturou por décadas uma operação multinacional que transferiu quase dois terços da sua receita para fora do pais. A sede continua aqui, mas a maior parte do dinheiro vem de fora.

A ação da WEG não estava “barata”, com múltiplos de preço/lucro já bem esticados para o padrão brasileiro. Ainda assim, o papel subiu 15% desde o pós-eleição, enquanto a bolsa despencava.

A presença internacional e a sua proteção cambial natural a transformam em “um refúgio defensivo em momentos de maior aversão a risco no mercado local”, escreveram os analistas da XP na sexta-feira em que elevaram a recomendação da empresa de neutra para compra e o preço-alvo de R$ 53 para R$ 60, potencial de alta de 20% sobre o fechamento de terça-feira.

Com cerca de 60% de suas receitas vindas do mercado internacional, o Itaú BBA calcula que cada 5% de desvalorização do real adiciona cerca de 4% ao lucro líquido da companhia. O cenário assume uma taxa de câmbio “conservadora” do dólar a R$ 5,60.

O banco elevou o preço-alvo de R$ 50 para R$ 56. A Gerdau também escapou da pancadaria, apesar de a siderurgia não estar no melhor momento.

Os resultados do terceiro trimestre divulgados na semana passada mostraram que as operações na América do Norte responderam por cerca de 55% da receita e de 76% do resultado operacional, acima das expectativas dos analistas. A boa notícia em meio ao caos fez com que Citi, Itaú BBA e UBS BB elevassem os preços-alvos para a centenária siderúrgica gaúcha.

WEG e Gerdau podem estar ensinando algo, além do imediatismo de procurar refúgio em moeda forte num momento de pânico. A proteção do patrimônio num país que já cansou de provar sua atração pelo abismo tem que ser uma estratégia de longo prazo - para pessoas jurídicas e físicas.

Nelson Niero é editor de S.A. do Valor Econômico.E-mail: nelson.niero@valor.com.br

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →